terça-feira, 10 de setembro de 2024

Travis Scott – ASTROWORLD (2018)

 

Júlio Resende – Cinderella Cyborg (2018)

 

Suede – The Blue Hour (2018)

 

“Powerslave” (EMI, 1984), Iron Maiden

 


O período entre 1982 e 1984 foi de transformação e ascensão na carreira do Iron Maiden. Em pleno momento em que a banda ganhava projeção internacional, impulsionada pelo sucesso do álbum The Number of the Beast, o baterista Clive Burr (1957-2013) deixou o Maiden no final de 1982 devido a problemas pessoais e tensões das turnês. A contribuição de Burr para o sucesso inicial do Iron Maiden em seus três primeiros álbuns foi inegável. Contudo, a chegada de Nicko McBrain (ex-Trust e Pat Travers) para ocupar seu lugar deu uma nova dinâmica à banda britânica. 

McBrain trouxe uma vasta experiência e um estilo de bateria robusto que logo se tornaria parte integrante do som em evolução do Iron Maiden. Sua estreia com a banda no álbum Piece of Mind, lançado em maio de 1983, marcou o início de um novo capítulo na história do Iron Maiden. A subsequente World Piece Tour, após o lançamento do álbum, mostrou as proezas do Iron Maiden no palco, reforçando seu status como gigante do heavy metal em vários continentes. Esta extensa turnê não só ampliou seus seguidores ao redor do mundo, mas também solidificou sua reputação de apresentar performances impactantes. 

Após a bem-sucedida turnê do álbum Piece of Mind, concluída em dezembro de 1983, os membros do Iron Maiden tiraram merecidas férias de três semanas em janeiro de 1984. A partir de fevereiro, a banda passou seis semanas ensaiando o repertório do novo álbum. Em seguida aos ensaios, o Iron Maiden partiu para as Bahamas, onde gravou material para o álbum Powerslave no Compass Point Studios, em Nassau. A produção do novo disco ficou por conta de Martin Birch (1948-2020), o mesmo produtor dos álbuns Killers (1981), The Number of the Beast (1982) e Piece of Mind (1983). 

Lançado em 3 de setembro de 1984, Powerslave encantou os fãs, começando pela capa, ilustrada por uma arte espetacular do ilustrador Derek Riggs. A arte da capa mergulha profundamente no tema do antigo Egito, alinhando-se perfeitamente com a narrativa da faixa-título, composta por Bruce Dickinson. Quem vê a capa não imagina que ela guarda detalhes curiosamente engraçados, mas quase imperceptíveis, como a inscrição “Indiana Jones Was Here 1941” (“Indiana Jones esteve aqui em 1941”), uma cabeça de Mickey Mouse, um rosto com a inscrição “Wot? No Guinness” (“O Quê? Sem Guinness”, talvez uma alusão ao Livro dos Recordes), e uma figura egípcia trabalhando em uma mesa de desenho com uma luminária. 

Detalhes curiosos e engraçados na arte da capa de Powerslave.

Considerado um divisor de águas na carreira do Iron Maiden, Powerslave manteve a sonoridade polida do álbum anterior, o que, nesse caso, se deve muito ao produtor Martin Birch. O álbum resume muito bem o heavy metal tradicional por meio de riffs poderosos de guitarra e vocais intensos, exemplificados em faixas como "Aces High" e "2 Minutes to Midnight". Incorpora influências do rock progressivo em "Rime of the Ancient Mariner", uma obra-prima de 13 minutos com mudanças de andamento e uma narrativa complexa. A técnica instrumental do álbum é impecável, com solos de guitarra intricados de Dave Murray e Adrian Smith, linhas de baixo galopantes de Steve Harris e a bateria precisa de Nicko McBrain. A combinação de ganchos melódicos e harmonias de guitarra cria uma experiência auditiva rica e envolvente, solidificando Powerslave como um clássico do heavy metal. 

O álbum começa com um áudio de um pequeno trecho do discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965), na Câmara dos Comuns do Reino Unido, em 4 de junho de 1940, que dá início à faixa "Aces High". A música começa num ritmo alucinante da bateria e das guitarras, com a linha de baixo cavalgante e vocais poderosos. Os versos de "Aces High" narram a experiência de um piloto da RAF (Força Aérea Real) durante uma batalha aérea na Segunda Guerra Mundial, travada por pilotos britânicos contra pilotos alemães. 

A faixa seguinte, "2 Minutes to Midnight", dá sequência ao ritmo veloz da faixa de abertura. Heavy metal no seu estilo clássico, com riffs arrasadores de guitarra e refrão cativante, capaz de levar o público ao delírio nos shows ao vivo. Os versos de "2 Minutes to Midnight" traçam uma crítica à hipocrisia dos líderes mundiais e sua política belicista que promove violência e destruição. Na época em que o álbum Powerslave foi lançado, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. O título faz alusão ao chamado Relógio do Juízo Final, um relógio simbólico criado pelo comitê de organização Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago, que representa a proximidade da raça humana “a dois minutos para meia-noite” de uma destruição por uma guerra nuclear. 

"Losfer Words (Big 'Orra)" é uma faixa instrumental apoiada pelo baixo galopante de Steve Harris dialogando harmonicamente com a bateria de Nicko McBrain. As guitarras criam riffs marcantes e solos melódicos. 

"Flash of the Blade" trata de um guerreiro que, desde criança, sonhava com batalhas heroicas e cresceu para viver e morrer pela espada. Os versos destacam a honra, a vingança e a dedicação do jovem guerreiro ao combate. A letra também reflete sobre a transição da inocência para a brutalidade da vida adulta. 

Da esquerda para a direita: Dave Murray, Nicko McBrain, Bruce Dickinson,
Steve Harris e Adrian Smith.

"The Duellists" narra o duelo de espadas onde os combatentes lutam por honra, glória e sobrevivência. O ritmo contagiante da música serve de trilha sonora para esta narrativa onde apenas um dos combatentes sairá vivo. Enquanto isso, "Back in the Village" traz Steve Harris numa performance veloz no baixo, nesta música que retrata o retorno de um indivíduo a um lugar caótico e devastado pela guerra, onde a sobrevivência é incerta. 

A faixa seguinte é "Powerslave", música que dá nome ao álbum. Composta por Bruce Dickinson, "Powerslave" mergulha no paradoxo de uma figura divina lutando com a mortalidade. Os versos retratam o medo da morte de um faraó, seu desejo pela vida eterna e a realização final de que mesmo governantes divinos não podem escapar do poder da morte. 

O álbum chega ao fim com a épica "Rime of the Ancient Mariner" e seus longos treze minutos de duração. Steve Harris a compôs inspirado no poema homônimo do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834). A música apresenta múltiplas seções, mudanças de andamento e um estilo de narrativa que se alinha aos cânones do rock progressivo. Durante muito tempo, foi a música mais longa do Iron Maiden até ser superada pelos dezoito minutos de "Empire of the Clouds", do álbum The Book of Souls (2015). 

A recepção do álbum por parte da crítica foi bastante positiva, elogiando a complexidade das canções e a proficiência técnica da banda. "Aces High" e "2 Minutes to Midnight" foram destacadas pela potência sonora e pela força como composições. "Rime of the Ancient Mariner" foi elogiada pela sua narrativa épica e estrutura musical, marcando um dos pontos mais importantes na evolução criativa do Iron Maiden. A produção de Martin Birch foi responsável por ampliar o impacto sonoro da banda, permitindo que cada instrumento brilhasse, contribuindo para a sensação de grandiosidade do álbum. 

Comercialmente, Powerslave teve um desempenho brilhante. Somente nos Estados Unidos, o álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias. Nas paradas de álbuns, Powerslave chegou ao 21º lugar da Billboard 200, nos Estados Unidos, enquanto que na Finlândia e Suécia, o álbum alcançou o Top 10 da parada de álbuns desses países. O single "2 Minutes to Midnight" ficou em 11º lugar na parada de singles do Reino Unido. 

Iron Maiden na sua antológica apresentação na primeira edição do festival Rock in Rio,
no Rio de Janeiro, em 1985. O concerto fez parte da World Slavery Tour.

A turnê promocional de Powerslave começou muito antes do lançamento do álbum. Batizada como World Slavery Tour, essa turnê abriu com um show do Iron Maiden em Varsóvia, na Polônia, em 9 de agosto de 1984 e encerrou-se em 5 de julho de 1985. Foi uma das maiores e mais extenuantes turnês da história do Iron Maiden. 

Para essa turnê, foi reservado todo um cuidado na produção cênica para retratar no palco a temática egípcia ilustrada na capa do disco. Foram usadas réplicas de sarcófago egípcio, uma versão mumificada do mascote da banda, Eddie, com nove metros de altura, e muita pirotecnia. 

World Slavery Tour teve 189 apresentações, passando pelos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, Reino Unido, Alemanha Ocidental, França e outros países europeus. Pela primeira vez, o Iron Maiden veio ao Brasil por meio da World Slavery Tour, quando a banda fez uma apresentação antológica no Rio de Janeiro, na primeira edição do festival Rock In Rio, em janeiro de 1985, numa noite que teve Queen e Whitesnake, além das atrações brasileiras Ney Matogrosso, Erasmo Carlos (1941-2022), Baby do Brasil (na época chamada de Baby Consuelo) e Pepeu Gomes. 

Dessa turnê, surgiu Live After Death, o primeiro álbum gravado ao vivo do Iron Maiden, lançado como álbum duplo em outubro de 1985. Para esse álbum, foram gravados os shows no Hammersmith Odeon, em Londres, no Reino Unido, em outubro de 1984, e as apresentações na Long Beach Arena, na Califórnia, nos Estados Unidos, em março de 1985. 

Powerslave foi a consagração do Iron Maiden, consolidando o processo de ascensão da banda britânica no cenário mundial do heavy metal, iniciado com The Number of the Beast, álbum que marcou a estreia de Bruce Dickinson como vocalista do grupo. O sucesso do álbum e de sua turnê comprovaram a capacidade de entrega musical da banda, seja no estúdio ou no palco ao vivo. Powerslave marcou o pico na evolução musical do Iron Maiden, estabelecendo um novo padrão para os lançamentos posteriores e influenciando a direção musical que a banda tomaria a partir de então.


Faixas

Lado 1

1."Aces High" (Steve Harris)

2."2 Minutes to Midnight" (Adrian Smith / Bruce Dickinson)

3."Losfer Words (Big 'Orra)" (Harris)

4."Flash of the Blade" (Dickinson)     

5."The Duellists" (Harris)

             

Lado 2

6."Back in the Village" (Smith / Dickinson)

7."Powerslave" (Dickinson)

8."Rime of the Ancient Mariner" (Harris)

 

Iron Maiden: Bruce Dickinson (voz), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith guitarra e vocal de apoio), Steve Harris (baixo e vocal de apoio) e Nicko McBrain (bateria).


Ouça na íntegra o álbum Powerslave


"Aces High" 
(videoclipe oficial)


"2 Minutes to Midnight" 
(videoclipe oficial)

Discografias Comentadas: Stryper

 


Formado no início dos anos 80 na California sob o nome de Roxx Regime, o Stryper é sem dúvida alguma a banda de hard rock / heavy metal cristã de maior sucesso no mundo todo, atingindo não apenas o público cristão, mas também milhares de fãs seculares do rock pesado. Apesar de ter ficado inativa entre 1992 e 1999, desde então a banda tem andado bem ocupada, lançando álbuns e excursionando constantemente, tendo inclusive vindo ao Brasil em 2006 para uma apresentação histórica em São Paulo.

The Yellow And Black Attack [1984]
Lançado originalmente como um EP de 6 faixas, The Yellow And Black Attack mostrava uma banda bem crua, caminhando entre o hard rock e o heavy metal, mas já contando com diversas características que se tornariam marcas registradas da banda, como os vocais agudos de Michael Sweet e os duetos de guitarra. A produção é simples, mas as composições, como “Loud N Clear” e “From Wrong To Right”, são fortes e fazem deste disco um item obrigatório para os fãs. Já as letras são bastante explícitas em suas mensagens, até exageradas em alguns momentos. Em 1986, o disco foi relançado com duas faixas bonus e uma capa diferente, e é esta versão que se encontra disponível em cd hoje em dia.
Soldiers Under Command [1985]
Primeiro grande sucesso comercial da banda, Soldiers Under Command também é um dos seus melhores discos. Produzido por Michael Wagener (Accept, Dokken, Skid Row), o disco apresentava composições mais maduras, uma produção mais caprichada e backing vocals sensacionais, que se tornariam outra marca registrada do grupo. Boa parte das músicas do disco permanece nos set lists da banda até hoje, como os singles “Soliders Under Command” e “Reach Out”, além de outros hinos como “Surrender”, “Together Forever” e “Makes Me Wanna Sing”. Soldiers Under Command vendeu mais de 500 mil cópias nos Estados Unidos, o que levou a gravadora Enigma a relançar o EP de estréia da banda em 1986.
To Hell With The Devil [1986]
Lançado em 1986, To Hell With The Devil consolidou ainda mais o Stryper como uma das principais bandas da cena glam metal de Los Angeles nos anos 80. O disco mostrava uma banda extremamente inspirada, com duas facetas em evidência: a mais pesada em faixas como “More Than A Man” e “The Way”; e a mais melódica e acessível em “Calling On You” e “Free”, além da balada “Honestly”, que ficou em primeiro lugar na MTV americana.

Considerado por muitos fãs o melhor disco da banda, To Hell With The Devil é provavelmente o disco mais indicado para quem quiser conhecer o grupo, pois apresenta todas as características clássicas da banda, além de ter o seu maior hino, a faixa título do álbum. Mesmo vendendo mais de 1 milhão de cópias nos Estados Unidos, alcançando assim o disco de platina por lá, o álbum ainda foi tema de alguma polêmica devido a sua capa original, que mostrava 4 anjos arremessando o diabo para as profundezas do inferno. Como a ilustração não foi muito bem recebida, acabou sendo substituida por uma capa toda preta, apenas com o logo da banda  e o título do álbum no meio.
 In God We Trust [1988]
Após o estrondoso sucesso de seu disco anterior, o Stryper suavizou ainda mais o seu som em In God We Trust. A pegada mais direta e pesada de algumas faixas de To Hell With The Devil foi deixada de lado, e a banda priorizou as melodias e intervenções de teclado neste lançamento. Ainda assim, é impossível não reconhecer a força da faixa-título do disco, que tem um riff excepcional, de “Keep The Fire Burning” e de “Writings On The Wall”, as melhores músicas do discos. As outras, infelizmente, não têm o mesmo impacto. A balada “I Believe In You” acabou tendo bastante destaque no Brasil por ter sido incluída na trilha sonora da novela Salvador da Pátria, como tema dos personagens de Maitê Proença e Lima Duarte.
Against The Law [1990]
Com Against The Law, o Stryper deu um passo extremamente ousado em sua carreira: abandonou o visual “abelha” dos discos anteriores, apostou em uma sonoridade mais crua e direta e deixou de abordar explicitamente temas religiosos nas letras, que passaram a lidar mais com o cotidiano, relacionamentos e com a vida em geral, ainda que de um ponto de vista bastante cristão. Mesmo que muitos dos fãs tenham acusado a banda de ter mudado para se tornar mais popular no meio secular, musicalmente, o resultado foi excepcional. Com o abandono do uso excessivo dos teclados, os riffs de Michael Sweet e Oz Fox voltaram a brilhar, com uma pegada bem rock and roll que pode ser vista em faixas como “Caught In The Middle”. Outros destaques são “Two Time Woman” e “All For One”, além do cover para “Shining Star”, do Earth Wind And Fire, em uma roupagem sensacional. Infelizmente, o vocalista Michael Sweet abandonou a banda após a turnê de promoção do disco. Após tentar continuar como um trio, o grupo entrou em um hitato até o início da década seguinte, quando o grupo voltou a se reunir.
Reborn [2005]
Após o lançamento de algumas coletâneas e de um disco ao vivo, os fãs aguardavam ansiosamente pelo lançamento de um novo disco de inéditas do Stryper. Contudo, o resultado foi decepcionante. Lançado em 2005, Reborn em pouco lembrava a sonoridade clássica do grupo. Vocais agudos, duetos de guitarra, backing vocals marcantes… Nada disso era encontrado no disco, que apostava em uma sonoridade mais grave, cadenciada e moderna, que em alguns momentos lembra grupos que se encontravam em alta na época, como o Nickelback. Há ainda uma nova versão para “In God We Trust”, rebatizada “I.G.W.T.”, mais moderna e infinitamente pior que a original. Certamente, Reborn é o pior disco para se conhecer o som do Stryper.
Murder By Pride [2009]
Após a decepcão com Reborn, os fãs não sabiam o que esperar do lançamento seguinte do Stryper. Felizmente, Muder By Pride marcava um retorno à sonoridade clássica da banda, ainda que alguns elementos do álbum anterior fossem mantidos. Os principais destaques do disco são a energética faixa de abertura, “Eclipse Of The Son”, a épica “4 Leaf Clover” e a estupenda faixa título, “Murder By Pride”, que resumem bem o estilo da banda. O grupo ainda gravou uma bela versão para “Peace Of Mind”, do Boston, banda da qual Michael Sweet também fazia parte na época. Em resumo, um belo álbum que se encaixa perfeitamente na discogradia do grupo. Vale ainda destacar que a capa do disco foi feita pelo brasileiro Gilvan Rangel, vencedor de um concurso realizado pela banda.
The Covering [2011]
Disco de covers com regravações de bandas que influenciaram os membros do Stryper, The Covering já foi resenhado na Consultoria do Rock (clique aqui), mas ainda assim, é impossível não destacar a belas versões para “Blackout” (Scorpions), “Heaven And Hell” (Black Sabbath), “Lights Out” (UFO) e “The Trooper” (Iron Maiden), assim como a ótima performance vocal de Michael Sweet em todas as faixas. The Covering traz ainda uma nova faixa do grupo, intitulada “God”, que é uma das melhores músicas da carreira da banda.

Destaque

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