quarta-feira, 3 de junho de 2026

Rita Lee - "Lança Perfume" (1980)


“Se Deus quiser um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim, ah, eu fico contente
E na primavera vou brotar na terra
E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol.”
Rita Lee, da música "Baila Comigo"

São poucos os discos que sei as letras de cor e as canto corretamente, ou seja, como ela foi escrita. Geralmente curto a melodia em alguns, noutros sei parte da letra e na maioria das vezes troco a letra de todos e invento harmonias paralelas de vozes e sons ao que estou escutando. Cresci assim e já aceitei que é uma maneira pessoal minha de escuta.

Porém, o disco “Lança Perfume” é um desses discos que faz parte da minha história musical de vida. Ganhei o LP por muita insistência. Enchi o saco da minha avó paterna Hedy que, depois de vencida, deixou uma quantia alta na loja de discos dentro de um supermercado, que ficava na rua em que morávamos, em meados dos anos 80. Eu estava fazendo aniversário de 7 anos e esse foi o meu presente. Um LP recém-lançado da Rita Lee! Isso era uma fortuna numa época em que LPs eram um investimento alto para famílias de classe média. Minha avó, católica e muito reservada a determinadas sonoridades, ficou chocada quando um dia entrou na nossa casa e me viu cantando a faixa-título “Lança Perfume”. Comentou com a minha mãe: “Mas, Tia Anita, ela está cantando uma música que diz 'de quatro no ato'?!” Constrangida por não ter sabido o conteúdo das canções e ter me dado o LP, teve a resposta da minha mãe Anita, que sempre foi libertária e ousada: “ Posso imaginar o choque da vó, pois, um ano antes, ela havia me dado o disco do Pde. Zezinho!

Agradeço até hoje o presente da vó, porque, lá em casa, o LP se tornou a playlist das nossas manhãs. Minha irmã, que é 4 anos mais nova do que eu, também capricorniana como a Rita, recorda até hoje com alegria que praticamente furamos o bolachão de tanto que escutávamos. Ele passou a ser utilizado em playback em festas de aniversário da nossa família e nas festas de Natal, sempre com aplausos entusiasmados dos familiares.

A Rainha do Rock Brasileiro, que comemora 40 anos
de seu "Lança Perfume"
Cada canção para mim é como um hit, está no universo imaginário da minha geração e estourou em mercados da América do Norte e Europa. Imaginem: estamos falando de 1980 e, nessa época, o mundo era menos interligado, não tínhamos essa rapidez de comunicação e nem as plataformas compartilhadas para promover os discos. Mesmo assim, é indissociável pensar em música nos anos 80 sem citar esse disco da Rita. Ela é a roqueira que nos representa desde antes e desde então.
Quando soube essa semana de uma LIVE BATE PAPO sobre os 40 anos desse LP, que acontecerá hoje, 07/05, às 19h30, no @litaree_real, mediado por Guilherme Samora (que assessora a Rita faz uns anos) e com as participações de Mel Lisboa (que fez a Rita no teatro) e outros convidados, tais como Pedro Bial, Rita Cadillac e Ronnie Von, minha vivência emocional com esse disco veio à tona e então decidi compartilhar com vocês.

Elis com o figurino inspirado
em Rita Lee
Rita Lee sempre foi um exemplo para mim e tenho a gratidão de através dos anos de escuta e de leitura (com os livros que ela tem lançado recentemente) saber mais das ideias, da vida e do que é essencial para ela. Rita com seu talento revolucionou a história da música brasileira, inspirou artistas e mulheres da sua geração e me inspira diariamente. Faz uns anos soube que Elis Regina teve uma amizade muito íntima com ela quando foi morar e produzir em São Paulo. Em uma entrevista, Elis disse ter visto Rita “lamber o microfone” e completou: “Passei anos da minha vida com vontade de fazer isso e com medo de ser eletrocutada”. Há também uma história sobre o figurino do último show de Elis, que foi copiado do figurino que é capa desse LP: o macacão transpassado com plissado. Elis viu Rita vestindo-o e ficou louca para ter um igual, porque Rita tem essa porrada de estilo saindo por todos os poros. Elis vestiu um macacão semelhante assinado por Clodovil em “Trem Azul”, seu último show, em 1981, realizando a vontade de chegar próxima a estética da Rainha do Rock Brasileiro.

Eu continuo escutando e lendo Rita. Uns anos atrás, quando adotamos uma gatinha ruiva que chegou em nossa casa para nos dar muito amor e alegria, imediatamente pensei em Rita e ela ganhou o nome de Lee, que já se foi para colorir o céu dos lovecats. Rita é parte de 40 anos da minha existência e isso é muito forte e lindo. Quero continuar tendo saúde para gozar no final e, quem sabe, fugir para Shangrilá com o meu Roberto de Carvalho (Daniel Rodrigues) e brotar para um banho de Sol divino!


FAIXAS:
1. "Lança Perfume" - 05:15
2. "Bem-Me-Quer" - 04:19
3. "Baila Comigo" (Rita Lee) - 05:30
4. "Shangrilá" - 02:53
5. "Caso Sério" - 05:31
6. "Nem Luxo, Nem Lixo" - 05:05
7. "João Ninguém" - 03:38
8. "Ôrra Meu!" (Rita Lee) - 03:56
Todas as composições de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:
Rita Lee - "Lança Perfume"



Father John Misty – I Love You, Honeybear (2015)


É preciso ter tomates para se conseguir ficar nu à frente de alguém. Em modo “pelota total”, deixando sair tudo o que esteja minimamente relacionado com o nosso ego (tantas vezes gravemente inflamado) e com a necessidade muito grande que temos de não nos sentirmos sozinhos. Num planeta de poses e comportamentos, pouco ou quase nenhum espaço existe para dar a conhecer todas as caganitas de fragilidade e insegurança que só à noite, na cama antes de adormecer, nos apercebemos que enchem grande parte dos nossos refegos. Um cigarro aceso não tem de ser uma fonte de confiança momentânea, um copo na mão não precisa de ser uma afirmação de identidade e uma boca ou piadola talvez não seja a melhor maneira de disfarçar que na realidade não somos assim tão bons, tão fortes, tão bonitos ou tão confiantes como queremos dar ideia que somos. Nada é assim tão simples ou instantâneo. Admitir coisas deste género não é fácil. As conversas que tantas vezes temos connosco próprios custam mais quando nos saem por entre os lábios, sibilando por entre a cremalheira semicerrada de embaraço. Chegar ao ponto onde tudo isso, essa espécie de confissão ou o que quer que queiram chamar, é vomitado sem censuras pode muito bem ser o marco a partir do qual podemos admitir que sim, temos umas bolas douradas, dignas de serem levantadas num pódio pelo Cristiano Ronaldo.

Joshua Tillman pode não perceber a referência ao português tri-bola de ouro, mas no que toca a compreender o que é sentir que o mundo inteiro nos entra pela casa a dentro, isso sabe perfeitamente o que é, não fosse I Love You, Honeybear um santo graal de transparência emocional, em que, findados 45 minutos de folk florido, recebemos um livro de instruções sobre como se deve viver o amor. Não é o convencional nem o hollywoodesco. É um mais simples, sólido, onde não há problema em se admitir que lá no fundo (entre o sítio que nos faz gostar de bola e o que nos faz gostar de cerveja), nós, homens, temos muito de criançola narcisista, de ego frágil e alma insegura. Aqui nada disso faz mal – o amor que se fala em “I Love You, Honeybear” (a primeira música do disco) ou em “When You’re Smiling Astride Me”, por exemplo, não quer saber disso para nada. Ou melhor, sabe disso muito bem mas percebe que isso não define, enfeita. O conceito meio clichê de que “quem gosta a sério, gosta tal e qual como somos” é então a premissa principal deste segundo álbum de originais do ex-baterista dos mitícos Fleet Foxes.

“Mas espera lá, isto não era suposto ter alguma coisa a ver com o facto de todos termos um pouco de cagões?” – correcto. Descobrir  “a nossa pessoa” está infimamente ligado com isto que provavelmente podem já ter pensado. Mas tudo a seu tempo.

O paizinho John Misty apresenta-se melhor que nunca, maturo mas sempre com um cheirinho de arrogante palerma – não fosse esse o fator responsável por grande parte do seu carisma. Fear Fun, o seu primeiro álbum como FJM, foi uma excelente rodela, mas agora que esta segunda chegou, percebemos que muita coisa mudou entre os três anos que passaram desde o lançamento de um e do outro, mas uma marcou mais que todas as outras – o casamento. Depois de um primeiro registo mais difuso, onde se disparava por todos os lados emoções soltas de quem andava meio perdido, I Love You Honeybear é um trabalho mais coerente, concentrado, onde este confuso man-child descobre o que realmente é importante. Num registo instrumental de forte influência folk, rock, americana e mel “a la Beatles”, arranjos complicados, cheios de pormenores – sob a forma de cordas, bateria ou teclados, por exemplo -, vão se alternando por baladas mais simples, como se ouve em “Bored In The USA” (bonito piano) ou em “I Went To The Store One Day” (um monumento). Mas o som, que não peca por calor aconchegante, nem é o principal.

“There’s no need to fear me / Darling, I love you as you are when you’re alone / I’ll never try to change you / As if I could, and if I were to, what’s the part that I’d miss most?” são as palavras que marcam o início de “When You’re Walking Astride Me”. Letras como estas pintam de cor-de-rosa todo o disco. Não são complicadas nem altamente poéticas mas traduzem a coerência cristalina de quem sabe o que quer dizer. Cada música conta uma história, todas elas muito pessoais, e cada história é um desabafo de quem finalmente descobriu de quem gosta, percebeu as melhores formas de o mostrar, sabe que o que quer é para sempre e que não tem medo de mostrar que não é perfeito – muito pelo contrário.

FJM descobriu que não faz mal mostrar o que o apoquenta quando está longe (“Nothing Good Ever Happens At The Gooddamn Thirsty Crow”), que é na boa admitir que a nossa vida está feita num caco de vícios, inseguranças e outras coisas menos boas e poluentes. Quando se gosta a sério, gosta-se de tudo: está confirmado o tal clichê manhoso, se bem que num formato que de manhoso não tem nada.

Reunidas neste disco estão todas as lições que quem ama no século XXI precisa de saber. Divididas por 11 músicas, cada uma delas deixa-nos ver, no final, que gostar não precisa de ser uma coisa má, que ainda há beleza nos sentimentos que se partilham com alguém de quem se gosta. Que há sempre tempo (ou esperança, como queiram) para encontrar a/o nossa/o Honeybear.



Ty Segall – Mr. Face (2015)


Ty Segall, que teve um 2014 em cheio graças a Manipulator, até pode ter prometido desacelerar o ritmo de edições este ano, mas a sua energia continua a levar a melhor.

Depois de ter feito, para a redacção Altamont, o quarto melhor disco do ano passado, já lançou, em Janeiro, a compilação $ingle$ 2 e este Mr. Face, que nos traz aqui hoje.

Mr. Face é um EP de quatro músicas, funcionando como um duplo single do antigamente, em dois discos de 45 rotações. Segall, seguindo eventualmente o exemplo de Jack White nas explorações dos limites físicos do vinil, apresenta a sua obra como “o primeiro par de óculos 3D tocável”. O que isto significa é difícil de dizer sem ter o objecto nas mãos, mas na prática a ideia será colocar cada rodela sobre cada olho, permitindo ver com nitidez os efeitos incorporados a capa e as gravuras de Mr. Face. Uma edição limitada destinada aos colecionadores, sem dúvida.

Mas exactamente o que temos nestes quatro novos temas, nestes 13 minutos de nova música do Senhor Segall?

Temos qualidade, mais uma vez.

O primeiro tema, o homónimo “Mr. Face”, é um som de base inicialmente acústica e que nos lembra as sonoridades das bandas britânicas e americanas do início dos anos 60. Uma óptima entrada, que nos apetece saltar para o carro e conduzir ao sol que começa a aparecer por terras lusas.

Segue-se “Circles”, igualmente uma delícia retro mas com pendor mais cheio e mais psicadélico, com a entrada em cena de uma flauta descontrolada que acelera tudo até final.

“Drug Mugger” é o tema que mais facilmente nos remete para a sonoridade e para o tipo de composição de Manipulator, na sua faceta mais drogada e relaxada, com um ligeiro toque glam.

“The Picture”, que encerra o EP, é o momento mais calmo e contemplativo, que nos leva quase ao universo dos Big Star. Poderia ser uma pista sobre para onde Segall se dirige, mas com este rapaz nunca se sabe o que virá a seguir.

Genericamente, Mr. Face é a prova de que a fonte de Ty Segall não dá mostras de secar. E que, quando ele não está simplesmente a dar largas ao fuzz e à pura energia, o seu trabalho eleva-se mais uns degraus de excelência.


The Yum Dee Days – It’s All Happening (2013)

 


Adoraria começar este texto dando melhor a conhecer ao leitor os The Yum Dee Days, talvez com uma graçola sobre um dos integrantes ou algum dado biográfico que ajudasse de algum modo a entender a sua música, mas infelizmente não o posso fazer.

Quando ao meu conhecimento chegou esta banda, tentei investigar do que se tratava como faço com qualquer outra banda, correndo o nome pelo google, porém deparei-me com perto de nenhuma informação. Encontrei, no entanto, uma página no bandcamp, lá encontra-se aquele que creio ser o álbum de estreia e até agora o único dos The Yum Dee Days, It’s All Happening.

A minha surpresa face a escassa informação rapidamente se dissipou quando toquei a primeira faixa “Everybody Knows Nobody Cares”. Por esta altura a surpresa dera lugar à incondicional atenção que me prendia e, no fim de escutar a faixa que conclui o álbum, “When It Was Over”, voltou a surpresa desta vez por ter acabado de ouvir um dos melhores, se não o melhor, álbum do ano de 2013 num recanto da internet.

Os The Yum Dee Days transpiram um veraneante psicadelismo e – à falta de melhor expressão – a atmosfera dreamy submerge-nos de uma ponta à outra do álbum. No entanto, como que de rasgos de lucidez se tratasse, surge uma mais possante guitarra ou percussão, de tempo a tempo, para nos trazer à superfície.

Uma amiga uma vez disse-me que gostava de músicas que pareciam ter sido gravadas de baixo de água; finalmente entendi.


Gaz Coombes – Matador (2015)

 


Gaz Coombes, o antigo vocalista dos óptimos e muitas vezes esquecidos Supergrass, tem andado à procura do seu caminho. Depois de 17 anos ao leme da banda britânica que o levou ao reconhecimento, edita agora Matador, o seu segundo disco a solo.

O que temos aqui, para além do óptimo sentido pop que os Supergrass sempre demonstraram, é uma vontade de fazer um disco mais profundo, com mais dimensões diferentes. Ouvindo alguns dos temas é fácil colocar a etiqueta de “Gaz a querer ser os Radiohead”, ou pelo menos a explorar caminhos que foram trilhados por OK Computer, de percorrer vias mais experimentais e menos óbvias mas sempre com um pé na pop de melodia.

Em termos de influências, temos os já citados Radiohead, temos o inevitável Bowie (basta ver aquela capa a transpirar glam-rock), temos ligeiros toques de kraut, temos baladas de impecável gosto, há até um cheirinho de gospel aqui e ali.

Sente-se a intenção de Coombes de ser ambicioso nesta sua obra, provavelmente procurando deixar aqui um marco na sua carreira, para além das canções pop mais imediatas. Nada aqui é apressado, e quase todos os temas são cheios de pormenores que trazem textura e novas leituras.

O problema é que, de ir a tantos lugares diferentes e tendo uma voz obviamente boa mas não necessariamente marcante, é difícil ficarmos com uma indelével marca de quem é, agora, Gaz Coombes, e o que está a tentar dizer ou fazer. Não é Thom Yorke quem quer, e a faceta pop de Coombes leva quase sempre a melhor sobre a dor que, eventualmente, procurará exprimir aqui e ali.

O que Gaz Coombes fez, e isso não é um pequeno feito, foi um belo disco maduro, com muitos cantos para explorar, mostrando mais uma vez que há terreno livre para, no grande campeonato do pop-rock, fazer discos adultos e irrepreensíveis. Bem-vindo de volta, Mr. Coombes.


Lou Reed – Berlin (1973)

 


No melhor dos mundos possíveis, Lou Reed teria morrido em 1973, vítima de uma overdose redentora, poupando ao mundo os discos menores que aconteceram depois. Ficaria então para a posteridade apenas o ouro da sua discografia. De 1967 a 1970, enquanto principal songwriter dos Velvet Underground, Lou fez quatro discos visionários que de uma só assentada inventaram o indie e espezinharam a ingenuidade hippie, antecipando o espírito do tempo cínico e pessimista que dominou os anos 70. No início de 72, no seu disco de estreia a solo, houve um pequeno passo em falso mas ainda no mesmo ano Lou emendou a mão com o génio glam de Transformer. E, por fim, assinou Berlin, na altura incompreendido, mas hoje considerado por muitos como a sua obra-prima.

Lou Reed foi o primeiro a casar o rock’n’roll com a low-life citadina, povoando as suas canções com dealers, junkies, prostitutas e travestis, personagens à deriva no lado errado da noite. Mas se nos discos dos Velvet e em Transformer o travo amargo da decadência tem sempre como contrapeso algum charme e humor warholianos, em Berlin Lou despe o submundo de todo o seu falso glamour, mostrando-nos tal como ele verdadeiramente é: amoral, desolador, filha da puta. Para reforçar o desencanto das letras, a música é também ela gélida e sombria, absolutamente nenhum hit para passar na rádio. Os accionistas da RCA Records começaram logo a atirar-se das janelas.

Se Transformer foi aclamado – pelo público e pela crítica – como um grande disco, e o single “Walk On the Wild Side” erguido alto como uma das grandes bandeiras do glam, saciando por fim o seu ego sedento de aprovação, porque é que Lou no seu álbum seguinte se demarca por completo da fórmula que lhe garantira finalmente o sucesso? A resposta é tão simples como humana: uns ciúmes danados de Bowie. As intenções do senhor Stardust eram boas: homenagear o seu mestre, co-produzindo Transformer, salvando a sua carreira. O pior é que os media inverteram por completo a ordem dos factores, vendendo Lou Reed como um mero apêndice de Bowie. Lou era um tipo orgulhoso. Fora ele o primeiro a rebelar-se contra a própria contracultura. Fora ele o primeiro a demarcar-se da ilusão naif da “paz e amor”. Fora ele o primeiro a trazer os tabus da homossexualidade e da ambiguidade do género para o rock’n’roll. Nem pensar ficar na sombra de um mero discípulo, que lhe roubara tanta coisa, por mais genial que tivesse sido a sua reciclagem.

Berlin é um álbum-conceptual que conta a ascensão e queda de Jim e Caroline, dois junkies condenados que procuram a salvação no seu amor mas só encontram a perdição. Tudo se passa em Berlim, a cidade-dividida, o que não acontece por acaso. O infame muro de betão como pano de fundo é uma metáfora de um casal também ele dividido.

A história começa na noite em que os dois se conhecem num bar na cosmopolita Berlim Ocidental. Tudo parece correr bem: as guitarras de fundo, o cigarro na mão, o copo de gin na outra, “Honey, it was Paradise”. Mas o blues melancólico ao piano de “Berlin” contradiz as palavras, prenunciando a tragédia. Está dado o tom sombrio que atravessará todo o disco.

A primeira parte (o lado A do velho vinil) é dura mas ainda assim digerível. Jim queixa-se de Caroline o desvalorizar enquanto homem. Mas Caroline tem as suas razões: é ela que tem de vender o seu corpo nas sórdidas ruas de Berlin para pagar o consumo de ambos. A música é por enquanto expansiva, com muita guitarra eléctrica, bateria e orquestrações (pequeno grande pormenor: as inventivas e irrequietas linhas de baixo são tocadas pelo gigante Jack Bruce dos Cream).

No lado B, o tom da música muda – mais acústico, mais contido, mais sombrio –, como quem nos avisa que tudo está prestes a desmoronar-se. Jim bate-lhe. Caroline levanta-se, disfarça as nódoas negras com muita maquilhagem, esconde a dor injectando mais speed. Não adianta: na canção seguinte retiram-lhe os filhos. Lou e o produtor Bob Ezrin fazem agora questão de esticar a corda ao máximo, com o objectivo deliberado de nos fazer sofrer: ouvimos o choro desesperado das crianças, que gritam pela mãe enquanto são arrancadas dos seus braços. É neste momento que nos surge o dilema: continuamos a sujeitar-nos a esta sádica tortura emocional ou devolvemos o disco, trocando-o de imediato por uma colectânea dos Bee Gees?

Os mais rijos prosseguem a audição. Erro crasso: na faixa a seguir, Jim conta-nos que Caroline se matou cortando os pulsos e confessa-nos um certo alívio por as coisas terem acabado daquela maneira. No último tema, “Sad Song”, regressam as orquestrações épicas para aliviar um pouco a tensão acumulada. Jim recorda-a, folheando um álbum de fotografias, mas o álbum acaba da forma mais cínica possível: “vou parar de desperdiçar o meu tempo, qualquer outro teria partido ambos os seus braços”.

O que seria um vulgar melodrama de chorar as pedras da calçada é salvo por dois ingredientes: a espessura psicológica das personagens e uma sensação de frio que percorre o disco e a nossa espinha. A voz de Reed é sempre gélida, contida, inexpressiva, arrefecendo a novela de cordel para níveis suportáveis. Esqueçam as barulhentas ventoinhas; quando não conseguirem dormir nas noites tórridas de verão, ponham Berlin a rodar.

O que mais perturba nesta narrativa é justamente a frieza absoluta de Jim, tão vazio que já não é capaz de sentir qualquer emoção. E não falo só da ausência de empatia pelo sofrimento dos outros; falo também da indiferença em relação à sua própria dor. Em “Men Of Good Fortune”, Jim expressa bem o seu niilismo: “o filho do rico espera que o pai morra/ o pobre apenas bebe e chora / e eu, nada disso me interessa”. De onde veio todo este desencanto?

Quando gravou Berlin, Lou tinha recaído outra vez na heroína e nos speeds, afundando o seu casamento pelo caminho. Matéria-prima autobiográfica mais fresquinha seria difícil. Mas podemos ir ainda mais longe no nosso exercício de psicanálise selvagem. A sua adolescência nos conservadores anos 50 não fora fácil. Desde cedo, Lou escandalizava os pais com os seus gestos efeminados e as suas tendências bissexuais. O austero senhor Reed não fez mais nada: internou o pobre do miúdo num hospital psiquiátrico para “tratar” a sua homossexualidade. O “tratamento” consistiu nos bárbaros electrochoques, uma experiência traumática que Lou nunca conseguiu ultrapassar. Nunca perdoou os seus pais pela selvajaria e nunca mais confiou inteiramente em ninguém. O seu mau feitio épico encontra aqui uma possível explicação.

O corolário é inevitável. Lou Reed seria Jim se não fosse salvo pelo rock’n’roll. Compreendemos melhor agora as suas célebres palavras: “Sou judeu mas o meu deus é o rock’n’roll. É um poder obscuro que pode mudar a tua vida.” Não mudou também a nossa?



ARCHITECTURAL METAPHOR Psychedelic/Space Rock • United States

 

ARCHITECTURAL METAPHOR

Psychedelic/Space Rock • United States

Biografia do Architectural Metaphor:
O Architectural Metaphor (ArcMet para os íntimos) está na ativa profissionalmente desde o início dos anos 90. O núcleo original, formado por Bill Buitenhuys, Paul Eggleston, Bob Foley, Dave Gorrill, Barry Corbett e Chris Mogan, lançou apenas trabalhos em fita cassete no final dos anos 80. Membros entraram e saíram da banda, ao estilo do Hawkwind, até o início dos anos 90, quando a formação se consolidou com Paul Eggleston (sintetizadores), Greg Kozlowski (guitarra) e Deb Young (vocal e bateria). Eles foram presença constante no Strange Daze Festival de 1997 a 2000. Deb foi substituída por Pat Murphy, do Dinosaur Jr., no final de 2000. Amy Risley foi vocalista de 2000 a 2002, mas nenhuma gravação desse período foi encontrada até o momento. Em 2005, a premiada vocalista de jazz Andrea Aguayo se juntou ao trio.

O álbum de estreia deles, "Odysseum Galacti", é bem psicodélico e conta com a formação original na maior parte das faixas, além de duas músicas do trio Paul/Greg/Deb. O sucessor, "Creature of the Velvet Void", mostra uma evolução da pura viagem espacial para uma sonoridade mais voltada para canções. "Viva", um álbum ao vivo de 2000, demonstra o poder instrumental que a banda alcança como um trio. "Other Music" apresenta o novo trio com Murph na bateria, uma melhora significativa na potência instrumental. O lançamento seguinte, "Everything You Know is Wrong", é a fusão mais completa de seus talentos, uma mistura de NEU com AMON DUUL 2, com uma boa dose de HAWKWIND, ASH RA e OZRIC TENTACLES.

The Julia Set
Architectural Metaphor Psychedelic/Space Rock

 A banda Architectural Metaphor já existia há uma década antes do lançamento de seu primeiro CD, em 1994. Este CD documenta a formação original da banda, de 1985, em uma transmissão de rádio da Universidade Tufts, em Medford, Massachusetts, lançada originalmente no início de 1990 em uma edição limitada em fita cassete, antes deste relançamento em 2022.

Eles foram uma das primeiras bandas de space rock dos anos 80 nos EUA e fizeram parte do boom nacional do gênero no país em meados e no final dos anos 90. Este CD mostra impressões sonoras iniciais que, aqui e ali, se aproximam de canções, mas se encaixam mais na linha de improvisações psicodélicas. Há lampejos do início do Tangerine Dream e da fase do primeiro álbum do Hawkwind permeando o álbum, e algumas das experiências do Amon Düül II em Tanz der Lemminge também servem como referência.

Arctic Desolation soa exatamente como o título sugere: ventos fortes e trovões pintam uma paisagem que lembra bastante o álbum Residents Eskimo. 57 Candles for Karlheinz parece ser uma homenagem ao material mais experimental de Stockhausen. Peptide Bondage é uma música simples, guiada por sequências, com improvisações de guitarra por cima. BMTD e Earthstar também são guiadas por sequências, mas com uma pegada mais Tangerine Dream de meados dos anos 70.

A marimba preenche a música com nuances e ruídos estranhos. Guitarras surgem e desaparecem na mixagem, tecendo melodias hipnóticas e intrincadas. Uma boa representação de uma banda de improvisação com uma estrutura levemente definida, tentando recriar uma viagem de ácido. O único lançamento disponível que apresenta a formação original completa da banda de 1984.

Para os fãs de música de outra dimensão, proto-Tangerine Dream ou algo similar ao acid krautrock do início dos anos 70.

3,5 estrelas pela pura estranheza primitiva e alucinante.


 Um álbum de estreia interessante. A formação inicial da banda citava influências de John Cage, Karlheinz Stockhausen e AMM. O lado experimental fica bem evidente, com algumas músicas surgindo e desaparecendo, quase sem nenhuma estrutura definida. "We've Come For Your Children" e "Waterwheel" são as faixas mais "normais" aqui, impulsionadas por bateria eletrônica e guitarras poderosas. "Anu" é uma bela construção, como uma versão melódica de "Saucerful of Secrets" filtrada por Gong e várias doses de ácido. Um cover de "Sonic Attack", do Hawkwind, oferece outra referência. As duas últimas faixas mostram a banda reduzida a um trio, mais no estilo space rock do Amon Düül. Caótico, mas com um propósito, eu recomendaria este álbum para fãs de bandas realmente experimentais do final dos anos 60 e início dos 70.






ARCHIMEDES BADKAR Jazz Rock/Fusion • Sweden

 

ARCHIMEDES BADKAR

Jazz Rock/Fusion • Sweden

Biografia de Archimedes Badkar:
Este grande conjunto pode ser visto como o equivalente sueco do grupo alemão Embryo, já que ambos foram pioneiros na fusão de jazz-rock e música étnica de todo o mundo. A música de Archimedes Badkar era vibrante e lúdica, frequentemente inspirada pela música africana, tanto do norte quanto do sul do deserto do Saara. Todos os quatro álbuns seguem uma linha similar, mas a maioria considera o segundo álbum duplo como o seu melhor trabalho. Metade dele foi pré-planejada, o restante baseado em improvisações feitas no estúdio à noite! A maioria das faixas é muito longa e remete à experiência hippie em uma viagem pelo Oriente. Bado Kidogo (1979) foi uma colaboração com o grupo Afro 70 da Tanzânia. Bengt Berger e Kjell Westling já haviam tocado com o Arbete Och Fritid.



Badrock För Barn I Alla Åldrar
Archimedes Badkar Jazz Rock/Fusion

 ARCHIMEDES BADKAR era uma banda relativamente grande da Suécia, com uma formação bastante rotativa de músicos. Havia uma pegada étnica no som deles, e me impressiona como muitos dos oito músicos presentes nesta gravação eram multi-instrumentistas. O baterista toca trompete, o baixista toca bandolim, guitarra e piano, o tecladista toca clarinete, o violinista toca saxofone, flauta doce e bandolim. Não sei por que tanto bandolim (risos). Também temos vibrafone, além de mais clarinete, guitarra e baixo. E este é o álbum deles de 1975.

Devo dizer que fiquei bastante decepcionado com este álbum. Tenho o terceiro deles, surpreendentemente chamado "Tre", e é um disco fácil de 4 estrelas que me impressionou bastante. Não foi o caso deste, porém, já que parece haver muitos sons repetitivos e uma música predominantemente relaxante. Isso é especialmente verdade para aquela música longa, a quarta faixa, que tem quase 14 minutos. Relaxante e repetitiva, mas funciona para mim e é a segunda melhor música do álbum, depois do cover de "A Love Supreme", o que talvez signifique algo. Temos 13 músicas, totalizando cerca de 46 minutos, então sim, depois dessa música de 14 minutos, temos várias faixas bem curtas.

Então eu diria para você dar uma olhada em "Tre", se puder.




Grandes álbuns do Prog-Rock: Island - "Pictures" (1977)


Esta banda Island pode ser vista como uma espécie de supergrupo suíço já que seus membros vieram de diversas outras bandas (Deaf, Toad, Circus etc.). Benjamin Jäger (vocais principais e percussões), Peter Scherer (teclados), René Fisch (sax, flauta, clarinete) e Güge Jürg Meier (bateria e percussões) gravaram o único álbum da banda, "Pictures", no verão de 1977, mas na origem (em 1975, em Stadel, no norte da Suíça) o grupo foi um quinteto em torno do trio Jäger-Scherer-Meier com adição de um guitarrista e um baixista. Houve várias formações (mantido o trio-base) e o som foi evoluindo a partir de um estilo ELP + Genesis + VDGG + Gentle Giant para um Prog-Rock mais soturno, misterioso, cheio de elementos sombrios e aventureiros. Em 76, com a entrada de René Fisch, houve um ajuste na direção musical com maiores influências de Van der Graaf Generator e Zeuhl (pense no Magma, de Christian Vander). Tudo isso resultou na criação de um estilo refinado e complexo. A capa (trabalho gráfico do famoso artista suíço H. R. Giger) era adequadamente sombria e misteriosa, tal qual a música que saía do álbum e também da banda, que desapareceria logo depois. O lançamento pelo pequeno selo suíço Round Records (que durou pouco) contribuiria ainda mais para o aspecto lendário/obscuro da banda e deste disco esquecido. "Pictures", o único álbum que eles lançaram, era realmente estranho/sinistro, porém exalando inventividade.
De fato, com sonoridade por vezes sombria, até perturbadora, percussiva, a gerar um Prog complexo, repleto de atmosferas sinistras, era fascinante, mesmo demandando dedicação do ouvinte. Apenas cinco faixas, mas tirando as duas primeiras ("Introduction", de 1:28 min., e "Zero", instrumental, de 6:13 min.), o restante do álbum era composto de faixas longas ("Pictures", de 16:51 min., "Herold and King / Dloreh", de 12:13 min. e "Here and Now", de 12:15 min.). Como é recorrentemente descrito, o resultado sonoro do álbum gerava uma curiosa mistura de Gentle Giant e Van der Graaf Generator. Harmonias vocais, saxes estranhos, quebras de ritmo, percussões insanas (um dos elementos dominantes), certamente havia um sentimento similar ao das referências. Mas os caras não eram copiadores. "Pictures" tinha todo tipo de elementos únicos: solos de sax/clarinetes, bateria jazzística, teclados, tons misteriosos aqui e ali, seção rítmica perfeita, oscilações e crescendos, ataques, partes cantadas e outras amplamente instrumentais, climas Fusion momentâneos, sem guitarra elétrica ou baixo, inclinações Zheul, som dissonante e desafiador por vezes, num estilo quase gótico. Tudo muito elaborado (música bem complexa), porém não inacessível, ainda que recomendada somente para fãs de Rock Progressivo mais "dedicados". Música muito imprevisível, cheia de surpresas, melodias desestruturadas, frequentes mudanças de andamento, intensamente minuciosa (cheia de passagens e segmentos). As influências estavam ali, mas o espírito de vanguarda os levou a um caminho único. Difícil intuir para onde cada canção irá ou qual é o momento do ápice e quando ela irá simplesmente acabar. Tipo de som para o qual resta ao ouvinte apenas curtir cada segundo e deixar rolar. Performances impecáveis, lideradas pelo sax/flauta/bateria. Vocais em inglês, algumas melodias bem sombrias, uso do silêncio, momentos melódicos e outros nem tanto, indicado para aqueles que procuram por algo diferente e mais desafiador. Com este sólido álbum (uma das obras-primas do Rock suíço), o grupo Island tornou-se enormemente elogiado na seara Prog




Grandes canções: Bush - "Machinehead" (1994)

 


"Machinehead" saiu do álbum de estreia do Bush, "Sixteen Stone" (de dez/94), e foi lançada como quinto single daquele disco (lançado já em abr/96). Lançado pelo selo independente Trauma Records (de Los Angeles), o álbum se tornaria o mais popular da banda inglesa (eles moravam em Shepherd's Bush) atingindo o número 4 nas paradas dos EUA. Cinco singles foram tirados dele: "Everything Zen" (de jan/95), "Little Things" (de mai/95), "Comedown" (de set/95), "Glycerine" (de nov/95) e finalmente "Machinehead" (de abr/96). "Comedown" e "Glycerine" permanecem até hoje como os dois maiores sucessos do Bush, ambos número 1. "Sixteen Stone" foi certificado 6 vezes como "disco de platina", só nos EUA. Imagine isto! O álbum foi gravado em jan/94, no estúdio Westway Records, em Londres, com produção de Clive Langer e Alan Winstanley (ambos ligados ao Madness e a Elvis Costello). Ele foi dedicado ao pai de Nigel Pulsford (guitarrista solo) e ao padrasto de Gavin Rossdale (vocais e guitarra base), que haviam morrido durante as gravações. A banda era completada por Dave Parsons (baixo) e Robin Goodridge (bateria). Antes destas gravações, o nome da banda era "Future Primitive", mas eles trocaram para simplesmente "Bush" convencidos por David Carson, artista que fez a capa, de que o nome pequeno se encaixava melhor num CD. "Sixteen Stone" foi entregue à Trauma Records no início de abr/94 e lançado naquele dez/94. Toda essa demora foi por conta de problema com o contrato de distribuição da Trauma (que acabou assinando com a Interscope Records). Formado no final de 92, o Bush (então, "Future Primitive") conseguiu mesmo decolar quando o vídeo de "Everything Zen" chegou à MTV norte-americana. O Bush, apesar de ser uma banda inglesa, nunca conseguiu repetir o sucesso dos EUA, em sua terra natal. "Sixteen Stone" seguia todas as regras e sons do Grunge norte-americano (pense Nirvana e Pearl Jam), uma reprodução fiel (e até mais profissional) do padrão vindo de Seattle/WA, o que talvez seja a razão (a natureza derivativa) para que o Bush nunca tenha de fato entrado nos corações de alguns roqueiros (o que é uma pena: este álbum era uma pedrada, consistentemente cativante e com riffs memoráveis). "Machinehead" e o álbum "Sixteen Stone" permaneceriam como seus grandes feitos.
Machinehead / Cabeça de Máquina
Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in / Inspire
Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in / Inspire

Tied to a wheel,my fingers got to feel / Amarrado a um volante, meus dedos começam a sentir
Bleeding through a tourniquet smile / Sangrando através de um sorriso velado
I spin on a whim, I slide to the right / Eu giro em um impulso, eu deslizo para a direita
I felt you like electric light / Eu senti você como uma luz elétrica
For our love, for our fear / Pelo nosso amor, pelo nosso medo
For our rise against the years and years and years / Pela nossa ascensão com os anos e anos e anos

Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
Machinehead / Cabeça de máquina
Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
And I walk from my machine / E eu me afasto da minha máquina
I walk from my machine / Eu me afasto da minha máquina

Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in, breathe out / Inspire, expire
Breathe in / Inspire

Deaf, dumb and dirty, starting to deserve this / Surdo, mudo e indecente, começando a merecer isso
Leaning on my conscience wall / Apoiando no muro da minha consciência
Blood is like wine, unconscious all the time / Sangue é como vinho, inconsciente o tempo todo
If I had it all again I'd change it all / Se eu tivesse isso tudo de novo, eu mudaria tudo

Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
Machinehead / Cabeça de máquina
Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
And I walk from my machine / E eu me afasto da minha máquina
I walk from my machine / Eu me afasto da minha máquina

Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
Machinehead / Cabeça de máquina
Got a machinehead / Tenho uma cabeça de máquina
It's better than the rest / Melhor do que as outras
Green to red / Verde para vermelho
And I walk from my machine / E eu me afasto da minha máquina
I walk from my machine / Eu me afasto da minha máquina



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