sexta-feira, 12 de junho de 2026

Santana: aclamados pioneiros da combinação Blues, Rock e música latina

 

A década de 1980 começou de forma relativamente brilhante para Santana, com o terceiro álbum solo de Carlos, "The Swing of Delight" (lançado em ago/80 -  ele havia lançado "Oneness: Silver Dreams - Golden Reality", em mar/79) e a certificação de disco de platina para o álbum "Zebop!" (lançado em abr/81), que alcançou o Top 20 em vários países e manteve a sonoridade mais Rock convencional. Em "The Swing of Delight", Carlos usou o famoso "segundo quinteto" de Miles Davis (Herbie Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams) mais membros da então formação da época da banda Santana para gravar sessões orientadas ao Jazz. Lançado sob o nome "Devadip", o álbum tinha composições creditadas a Carlos e a seu guru Sri Chinmoy (aliás, seria a última vez que ele usaria este nome e faria parceria com o guru - por volta de 82 ele se desencantou com Chinmoy). Carlos, como habitual, se apresentava em ótima forma e circundado por uma banda absolutamente matadora. Basicamente, era um Jazz-Fusion com uma inflexão latina. Biscoito fino. "Zebop!" era um retorno ao Rock, incluindo o som latino em algumas faixas. "Winning" era uma faixa maravilhosa (um cover da canção de Russ Ballard) e "The Sensitive King" era outra faixa bastante acessível para as rádios. No todo, a sonoridade era mais comercial visando ao grande público. Aliás, esta fórmula manteria a banda viva ao longo de toda a década de 80. 
No ano seguinte, surgiu "Shangó" (décimo terceiro deles, de ago/82). Este álbum marcou um declínio acentuado na sorte comercial da banda, embora ainda tenha conquistado "disco de ouro". Um destaque era o retorno no papel de co-produtor e compositor do tecladista original Greg Rolie. O produtor principal, no entanto, foi Bill Szymczvk, que deu ao Santana uma sonoridade bem diferente (mais Rock moderno) que resultou em dois singles ("Hold On" e "Nowhere To Run"). Um trabalho bem feito e regular. Levaria três anos para outro álbum, a pausa mais longa para eles até então. "Beyond Appearances", de fev/85, foi um fracasso comercial e o primeiro deles a não obter nenhuma certificação por vendas. A explicação estava na produção (Val Garay, com um estilo quente bem anos 80, repleto de sintetizadores e baterias eletrônicas), mudanças na formação (novo baixista, novo tecladista, etc. e o vocalista Greg Walker retornando) e um som amplamente Pop. Os três álbuns seguintes continuariam esse declínio comercial. 
"Freedom" (de fev/87), "Spirits Dancing in the Flesh" (de jun/90) e "Milagro" (de mai/92) foram esses álbuns, todos presos na armadilha comercial. "Freedom" trouxe a banda no formato de noneto. Além de Carlos, os percussionistas Armando Pereza, Orestes Vilato e Raul Rekow, o baterista Graham Lear, o baixista Alphonso Johnson, os tecladistas Tom Coster (retornando) e Chester Thompson, mais os vocais principais de Buddy Miles. Um disco super Pop, distante da qualidade dos primeiros álbuns. Após uma turnê de 20 anos da banda, Carlos reorganizou tudo numa nova formação (ele, o cantor/guitarrista Alex Ligertwood, o cantor/tecladista Chester Thompson, o baixista Benny Rietveld, o baterista Walfredo Reyes e o percussionista Armando Peraza), mais convidados (Vernon Reid, Wayne Shorter, Bobby Womack etc.) e gravou "Spirits Dancing In The Flesh", o último álbum lançado pelo selo Columbia Records. Um álbum bem eclético com covers de Curtis Mayfield, The Isley Brothers, Olatunji, John Coltrane e Jimi Hendrix. Apesar disso, era um disco de Rock direto e com guitarras pesadas do que o normal. Na sequência, a banda assinou com a Polydor em 91 após 22 anos na Columbia. "Milagro" foi o álbum de estreia e trouxe a formação alterada pela adição de Raul Rekow e Karl Perazzols. O álbum trouxe um tom elegíaco, começando com uma introdução de palco feita pelo saudoso promotor Bill Graham (mentor e empresário não oficial do Santana, que havia morrido em out/91 aos 60 anos num acidente de helicóptero) e com dedicatória a Miles Davis (outro que havia falecido em set/91 aos 65 anos pelos efeitos combinados de um acidente vascular cerebral, pneumonia e insuficiência respiratória). Havia ainda trecho de um discurso de Martin Luther King, um cover de Bob Marley e, claro, tudo isso contribuiu para uma sensação da presença de fantasmas. Mas "Milagro" era apenas um lançamento mediano do Santana, soando familiar, porém indistinto. Aqui, neste ponto, a banda parou de gravar material por sete anos (um hiato sem precedentes, até então), mas continuou em turnês. 


Grandes álbuns do Prog-Rock: SBB - "Pamięć" (1976)

 


O SBB foi uma das mais importantes bandas polonesas dos anos 70. Fundada em Siemianowice, na Polônia, no início de 1971, inicialmente a sigla significava Silesian Blues Band.
Anthimos, Piotrowski e Skrzek
Na formação, estavam Józef Skrzek (baixo, teclados, compositor e vocalista), Apostolis Anthimos (guitarras) e Jerzy Piotrowski (bateria). Nos primeiros meses, ainda havia Ireneusz Dudek (gaita). Com ajuda do engenheiro de som Grzegorz Maniecki e do empresário Piotr Marzec, eles conseguiram fazer suas primeiras gravações numa rádio de Varsóvia, em jul/71 (essas gravações não sobreviveriam nos arquivos da rádio). No final de 71, após alguns shows, a banda foi notada por Czesław Niemen, artista com grande carreira desde os anos 60 (tanto na Beat Music, quando depois na chamada "música de protesto"), então um dos mais importantes músicos/compositores da Polônia, que lhes convidou para um trabalho cooperativo.
Entre dez/71 e ago/73, o conjunto formado pelo trio SBB, mais Niemen (vocais, órgão Hammond) e ainda Helmut Nadolski (contrabaixo) - Andrzej Przybielski (sopros) participou apenas pontualmente - excursionou pelo país assim como pela Europa. Durante este período, o combo chamado apenas "Niemen" gravou três álbuns Prog aclamados "Niemen vol. 1 e vol.2" (ambos relançados em 94 como "Marionetki"), "Strange Is This World" (de 72) e "Ode To Venus" (de 73), estes dois últimos cantados em inglês. Nesta produção, elementos de Blues e psicodelia conviviam com outros de Jazz e música de vanguarda.
Após esta fase, os artistas se separaram, mas Skrzek permaneceria amigo de Niemen (até sua morte em 2004). Então, o importante jornalista polonês Franciszek Walicki (muito voltado à música jovem) se interessou pela Silesian Blues Band e ofereceu-se para empresariá-los. Oficializou a redução do nome para apenas a sigla SBB e criou um lema para a banda: "Szukaj, Burz, Buduj" (em polonês, cuja tradução é "Pesquisar, Demolir, Construir". Na virada de 73 para 74, o violinista Jan Błędowski se agregou a eles e é dessa formação as primeiras gravações (em dez/74, na rádio Warsóvia). Já sem Błędowski, a banda fez sua estreia em fev/74 no ginásio Hala Wisły, em Cracóvia.
O álbum de estreia, intitulado simplesmente "SBB", gravado em dois shows (18-19/abr/74) no Stodoła, em Varsóvia (ou seja, uma gravação ao vivo), vendeu espantosamente bem e esgotou a prensagem instantaneamente, gerando um preço quatro vezes maior no mercado negro (selo "Polskie Nagrania Muza", uma entidade governamental - lembrando que a Polônia foi um país de regime comunista entre 1947-89). No lado 1, "Odlot" (tradução: partida), uma longa faixa de quase 20 minutos, perpassando por piano e vocais blueseiros, solo de bateria matador, diversos climas e ritmos, baixo com Fuzz, guitarras rascantes, tudo num desempenho retumbante. No lado 2, "Wizje" (tradução: visões) era outra longa suíte, mais barulhenta, mais experimental, porém mantendo toda a interação e desempenho em altíssimo nível. Os caras quebravam tudo mesmo! Era uma espécie de Blues-Rock com elementos de Jazz e psicodelia (pense em Jimi Hendrix e Mahavishnu Orchestra), repleto de solos improvisados e fragmentos líricos. 
Neste ponto, o SBB iniciou uma turnê pela Alemanha Ocidental com grande sucesso, seguida de shows na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e até na Suécia. O passo seguinte foi o real primeiro álbum de estúdio, "Nowy Horyzont" (tradução: novo horizonte), lançado em 75 (gravado entre set/74 e jan/75 na rádio pública polonesa e nos estúdios da Polskie Nagrania, ambos localizados em Varsóvia), agora sim uma real incursão no mundo do Prog-Rock. O álbum combinava elementos de Jazz-Rock com música erudita e arranjos orquestrais, faixas amplamente instrumentais e muito virtuosismo. Então, esqueça as improvisações intermináveis da estreia. Agora, o som era totalmente estruturado. O lado 1 continha quatro faixas de curta e média duração nas quais o grupo demonstrava habilidades em misturar um Hard Rock cheio de groove com um Psych-Prog baseado em teclados e composições instrumentais de intenso poder. A guitarra madura de Anthimos, a sólida bateria de Piotrowski, os ritmos dinâmicos, os solos de órgão, o estilo energético, climas psicodélicos, gaita, tudo com muita qualidade. No lado 2, uma única suíte de 20 minutos, "Wolność z nami" (tradução: liberdade conosco), que resumia este Prog da banda. Abria com um piano enfático de Skrzek, continuava com seus vocais e depois ganhava a cuidadosa guitarra de Anthimos, misturada no belo trabalho de piano, baixo, teclados (de Skrzek), tudo bem melódico, até na segunda parte na qual o SBB apresentava seu lado de vanguarda. Piano, sintetizador, efeitos proporcionavam uma paisagem sonora estranha, antes do trio retornar com sua força Hard em exibição total. Tudo fechava com uma bela performance de Skrzek no piano. Uma gravação inovadora, com envolvimento político nas letras, mantendo ainda influências Fusion (pense Mahavishnu Orchestra), mas agregando Space Rock (pense Pink Floyd) e muitas influências sinfônicas, entretanto com atmosferas mais abstratas. 
No final de 75, o SBB retornou ao estúdio o que resultou no segundo álbum, "Pamięć" (tradução: memória). Apenas três longas canções, todas com arranjos sinfônicos completos e maduros, teatralidade vocal e longas passagens espaciais/atmosféricas. "Pamięć" é frequentemente citado como uma obra-prima do Prog do leste europeu. Ainda que não se trate de um trabalho complexo, isto não o torna menos atraente/cativante. O lado Space Rock, as qualidades dramáticas, os climas pacientemente construídos nas canções, os sintetizadores dominantes (Skrzek era claramente o instrumentista principal, mas ele deixava aos outros dois amplo espaço para se apresentarem), as rajadas ocasionais de ritmos (aliás, a dinâmica geralmente imprevisível), vocais cheios de convicção (às vezes frágeis, às vezes triunfantes, às vezes carregando lamento/melancolia), com momentos esmagadoramente belos. Entusiastas dos sintetizadores analógicos irão pirar com a sonoridade setentista. 
No lado 1, "W Kołysce Dłoni Twych (Ojcu)" (tradução: no berço de suas mãos - para meu pai), de mais de nove minutos, e "Z Których Krwi Krew Moja" (tradução: de cujos sangues, meu sangue), com mais de dez minutos. No lado 2, "Pamięć w kamień wrasta" (tradução: memória cresce em pedra), com quase vinte minutos. Composições brilhantes (muito mais do que apenas vitrine para Skrzek) nas quais a química da banda atinge pontos de pico em todo lugar. Aliás, o equilíbrio instrumental é um aspecto a ser destacado, tudo trabalhando para a força da música. 
O uso da língua polonesa acabava tornando o resultado rico em texturas e sentimentos. Passagens sombrias, andamentos súbitos, interlúdios, solos contagiantes. Uma gravação ambiciosa para a Polônia daquela época. O SBB tornava-se reconhecível e conquistava fama. Som vintage inventivo, sólido, movimentos jazzy (sem exageros), outros Psych-Hard-Blues, mas com grandes resultados, climas hipnóticos, temas espaciais e solos de grande impacto. O SBB crescia a olhos vistos e "Pamięć" capturou a banda em sua máxima forma. Altamente recomendado. 
OBS.: Após este álbum, a banda continuou no mesmo nível em "Ze Słowem Biegnę Do Ciebie" (de 1977 - tradução: com a palavra, eu corro para você), de apenas duas faixas, cada uma ocupando um lado do LP. Aliás, "Ze Słowem Biegnę Do Ciebie" e "Pamięć" são os melhores deles. 



Os Beatles num documentário musical sobre a II Guerra Mundial

 

“Hitler foi a primeira grande estrela do rock. Veja que ele se move como Mick Jagger”. A afirmativa é de David Bowie, em uma entrevista para a Playboy, em 1976. A associação de cenas e personagens do mais importante fato da humanidade no século 20 à música não ficou apenas nessa polêmica declaração do camaleão. Um documentário musical foi produzido no mesmo ano, com a justaposição de imagens da segunda Guerra Mundial à música dos Beatles. Produzido pela Fox, o filme All This and World War II foi um fracasso de crítica e público, mas gerou um álbum que é uma das maravilhas esquecidas. A trilha sonora é sensacional, fez algum sucesso e gerou recursos para cobrir os prejuízos da produção cinematográfica.

Dirigido por Susan Winslow, a produção partiu da ideia do próprio executivo da 20th Century Fox, Russ Reagan, que afirmou sonhar com as impressionantes cenas da Segunda Guerra ao som dos Beatles, especialmente as de heroísmo, como Fool on the Hill ilustrada pelas comoventes imagens da libertação de Paris pelos aliados sob o olhar desolado do Fuhrer. Ou Here Comes The Sun, enquanto os aviões japoneses deixavam seu porta-aviões para atacar Pearl Harbor.



As imagens foram escolhidas a dedo de programas noticiosos, documentários e filmes dramatizados sobre o conflito, que recheavam os arquivos da gigante do cinema. John Lennon e Paul McCartney chegaram a atuar como consultores no início do projeto, mas a grande sacada da produção foi a de utilizar versões de outros artistas para as eternas canções dos Beatles que ilustram o filme. Assim, temos a estreia solo de Peter Gabriel, recém-saído do Genesis, em uma magistral versão de Strawberry Fields Forever. Também marca presença a voz rouca e bluesy de Rod Stewart, então no auge de seu sucesso, com um cover pra lá de audacioso para Get Beck. Sem falar na potente e inspiradora entonação de Come Together com Tina Turner.

A play list do LP duplo ainda continha a execução dramática de Lucy in the Sky With Diamons com Elton John, que contou com uma pequena participação de Lennon; tinha também o Status Quo em sua fase mais hard rock com Gettin’ Better; o entrosamento vocal do Bee Gees em Goldens Slumbers e She Came Through the Bathdoor Window, a elegância de Bryan ferry em She’s Leaving Home e até mesmo uma empolgante e improvável versão do batéra do Who, Keith Moon, cantando When I’m Sixty Four. Tudo nada menos do que sensacional.

O álbum só foi lançado em CD em 2006, mas rapidamente sumiu do mapa e hoje custa uma pequena fortuna, tanto quanto o LP, este com um acabamento gráfico muito bacana e muito difícil de encontrar. Frank Valli, The Four Season, Jeff Lyne e belas intervenções de um surpreendente Leo Sayer completam a lista de músicas, entre tantos outros menos afamados, mas que mantêm a bola no alto. Algumas das pérolas contidas no disco acabaram saindo em singles e coletâneas diversas de tributos aos Beatles, que inundaram o mercado fonográfico ao longo dos anos, mas a maioria permanece exclusiva a esta trilha sonora.

O filme jamais teve lançamento mundial. O fracasso inicial de bilheteria limitou sua exibição a apenas 3 semanas em alguns cinemas das maiores cidades americanas. Mas a trilha sonora compensou a frustação, pontificando nas principais lojas do mundo. No Brasil dos milicos não vendeu muito por se tratar de um álbum duplo e caro, apesar do rico conteúdo. Me lembro de vê-lo com toda a pompa nas vitrines da Billboard, no Rio e da nossa lendária Billbox, em Juiz de Fora, mas nunca dei muita bola. Na época, minha verve beatle estava adormecida e meus ouvidos estavam voltados para o rock mais pesado. Recentemente me deparei com o CD no Museu do Disco, em Juiz de Fora, por míseros 30 merréis. Ao chegar em casa descobri que era uma versão caprichadamente pirata, mas tudo bem. Por hora é com ele que me contento com bastante satisfação, afinal é uma verdadeira pepita musical.



POEMAS CANTADOS DE JOSÉ MÁRIO BRANCO

FMI
José Mário Branco

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attache case' sai a solução!

FMI - Não há graça que não faça o FMI
FMI - O bombástico de plástico para si
FMI - Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado, mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI - Não há truque que não lucre ao FMI
FMI - O heroico paranoico haraquiri
FMI - Panegírico, pró-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que 'swingar' o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limp'ó pó
A produtividade, ora nem mais
Célulazinhas cinzentas, sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI - Não há lenha que detenha o FMI
FMI - Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vem, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, n'é filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, n'é filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? N'é filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, n'é filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Aniki Bébé, Aniki Bóbó, tu és Sepulveda tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho? 'A one, a two, a one two three'

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

'Come on you son of a bi'ch!' 'Come on baby' a ver se me comes! 'Come on' Luís Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te a Natália Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok 'boss', tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, n'é filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, n'é filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal n'a quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da Pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh senhor guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, n'é filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, n'é? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que t'as começaram a tirar e tu ficaste quietinho, n'é filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, não é? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, n'é filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, hã?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, n'é? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, n'é? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes, fora o arbitro, gatuno, 'bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, n'é filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de São Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no Natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de Mercedes, toma, para safado, safado e meio, n'é filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, n'é? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás de plantar tomate para o Canadá ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás de comer bacalhau só nos anos bissextos ou se hás de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai 'baby', 'come on' descontrai, afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ovnilogistas, um gigante da Ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no 'disco-sound', dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, 'yeah' 'yeah', J. Pimenta 'forever'! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, hã? Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver, é? O menino é mal criado, o menino é pequeno-burguês, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a Rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, t'arrenego Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno-burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.



Inquietação
José Mário Branco

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda




ROCK ART


 

Fifth Flight - Into Smoke Tree Village 1970

 

Em meados da década de 60, cinco jogadores de futebol americano de uma escola secundária local se juntaram para tocar juntos. Os sons se misturaram e gravaram um álbum para a gravadora Century, uma gravadora californiana do final dos anos 60 e início dos 70 que produzia dezenas de milhares de discos em pequenas tiragens para escolas, grupos religiosos e bandas locais obscuras. Este foi um daqueles tesouros do garage rock/psicodélico que ocasionalmente surgiam pela gravadora. 

Com sua capa rústica que remete a um moinho, este álbum de garage rock psicodélico consiste principalmente em covers, executados com doses generosas de guitarra fuzz e um órgão pesado e sombrio. A faixa de destaque é, sem dúvida, o cover incrivelmente impressionante de "Sugar Mountain", de Neil Young. O que você ouvirá neste álbum são atmosferas, transições e sentimentos do Fifth Flight.

MUISCA&SOM ☝



Destaque

SQURL

Gosto deste trabalho dos SQURL. Para quem não sabe, “é a banda do Jim Jarmusch”. Reparei neles precisamente durante o último filme Only Love...