segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Saxon - Thunderbolt (DELUXE EDITION) - [2018]

 



 O grupo Saxon lançou seu vigésimo segundo álbum de estúdio, Thunderbolt. O disco mantém o peso e as ótimas composições que os velhinhos da NWOBHM tem lançado nessa década. A formação com Biff Byford (vocais), Paul Quinn (guitarra), Doug Scarratt (guitarra), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria), está estabilizada desde 2006, mostrando que a química entre eles é de alto nível.

Ao longo de suas onze faixas, destaque para as pesadas "Predator", "Nosferatu (The Vampires Waltz)" e a faixa-título, a bela homenagem aos roadies em "Roadie's Song", bem como a Lemmy Kilminster em "They Played Rock And Roll", com o próprio Lemmy surgindo no meio da faixa, para entoar o nome da canção (lembrando que o álbum é dedicado a ele), e um grandioso solo de e as referências das mitologias nórdicas de "Sons of Odin (e sabbháticas, já que é impossível não lembrar de "Heaven and Hell" nesta faixa) e celtas de "A Wizard's of Tale".

Material completo de Thunderbolt Deluxe


Biff está impecável nos vocais, Glocker está mandando ver na bateria, Carter mostra um competente e seguro apoio para as viradas de Carter, e a dupla de guitarras afiadíssima, principalmente nos solos de "Sniper", "The Secret of Flight". Ainda, as constantes homenagens aos carros turbinados também estão presente, aqui na faixa "Speed Merchants".

Os últimos lançamentos têm recebido versões especiais. Ano passado, a belíssima caixa Solid Book of Rock, com 11 CDs e 3 DVDs, recuperou os álbuns lançado pelos britânicos nos anos 90 e 2000 (a saber, Solid Ball of Rock (1991), Forever Free (1992), Dogs of War (1995), Unleash the Beast (1997), Metalhead (1999), Killing Ground (2001), Lionheart (2004), The Inner Sanctum (2007) e Into the Labyrinth (2009)) acompanhada de diversos extras. Battering Ram (2015) teve uma versão lindíssima, no formato box, com camiseta, CD, LP e mais um CD extra com uma apresentação da banda na Suécia, em 2011. Sacrifice (2013) teve uma tiragem especial acompanhada de um moleton, CD e mais um CD ao vivo com uma apresentação na Holanda.

Capa do CD Loud, Proud and Live

Da mesma forma, o sensacional novo disco também recebeu uma versão DELUXE. A nova caixa não traz nenhum adereço de vestimenta como as duas antecessoras, o que já é um agravante a menos para adquiri-la, mas contém um CD extra. Aqui, a apresentação é batizada de Loud, Proud And Live - Official Bootleg, com registros da turnê da Battering Ram pela Europa, e talvez seja a única dentro da caixa. Afinal, apenas aqui você irá conseguir ouvir in the act as faixas "Battering Ram", "Sacrifice", "The Devil's Footprint", "Chasing The Bullet" e "Queen Of Hearts", acompanhadas das clássicas "Killing Ground", "20,000 Ft" e "Power And The Glory".

Pin com o logo da banda


No mais, a caixa apresenta uma (bonita) versão em vinil vermelho, com as 11 canções do lançamento original, o CD com as onze canções, mais a bônus "Nosferatu", em uma versão "crua", e um K7 com as mesmas canções do LP. Para finalizar, um pequeno pin com o logo da banda fecha o lançamento que é bem decepcionante em comparação aos seus antecessores. E para os fãs não tão colecionistas assim, vale mais a pena investir na Special Edition que foi lançada na Europa, já que musicalmente, apresenta tanto Thunderbolt na íntegra como o CD ao vivo vindo como extra.

O preço médio da caixa aqui no Brasil está girando entre 350 e 500 reais. No exterior, você consegue entre 150 e 300 reais, mas o problema é o frete. Porém, devido aos baixos itens de colecionador, somente se você for um fã ardoroso da banda, que coleciona tudo o que eles estão lançando, é que recomendo essa versão. Caso contrário, contente-se com a versão normal em CD, ou a versão limitada em vinil vermelho, que estará tendo em mãos uma obra de excelência musical, e também alguns bons trocados no bolso.

Material completo da versão deluxe

Track list

Thunderbolt LP, K7 e CD

1 - Olympus Rising
2 - Thunderbolt
3 - The Secret Of Flight
4 - Nosferatu (The Vampire's Waltz)
5 - They Played Rock And Roll
6 - Predator
7 - Sons Of Odin
8 - Sniper
9 - A Wizard's Tale
10 - Speed Merchants
11 - Roadies' Song

Somente CD

12 - Nosferatu (Raw Version)

As canções do CD bônus





War Room: The Enid - Sundialer [1995]





O The Enid foi formado em 1973 por Robert John Godfrey, após este sair do Barclay James Harvest por motivos um tanto nebulosos. Robert é o cabeça do grupo e apesar de funcionar como uma banda, está mais para um projeto solo dele. Sundialer [1995] é em sua maioria instrumental, com algumas pouquíssimas passagens vocais. A ideia nos anos 70 era fazer rock com muita sinfonia, que foi mudando aos poucos com o passar dos anos. Nos anos 90, época desse álbum, Robert inclui até mesmo uma certa batida "dance" de forma a deixar a sonoridade do The Enid um pouco mais palatável ao público. Robert deixou a banda em 2014 devido a um diagnóstico de Alzheimer e esta continuou fazendo shows mesmo sem seu principal líder. Porém, ele voltou no início deste ano depois de mais uma ressonância magnética em que desta vez, nada acusou em relação a doença. Logo, o The Enid continuará com o velho britânico novamente comandando as rédeas da banda. Veja como nossos consultores avaliaram o disco!

01 Sundialer
André: Início fortemente orquestrado, amo esse tipo de introdução.
Mairon: Conheço esse disco há um bom tempo. Barclay James é daquelas bandas que estão no segundo, talvez terceiro escalão das minhas audições. Aprecio bastante os discos do grupo, e alguns de seus galhos musicais também são igualmente admiráveis, como é o caso do The Enid. Em especial, esse álbum traz como diferencial uma sonoridade mais "dance", o que pode assustar aos fãs da banda, mas tem lá seu charme
Alisson: Essa intro me lembrou os trabalhos do Prince pra trilha sonora. Aliás, não tem a ficha técnica do disco no RYM, quem toca os synths?
André: Quem toca é o próprio Robert, Alisson.
Mairon: O que eu curto mesmo são esses trechos viajantes, meio Vangelis. Adoro!!
Alisson: Você pesou a descrição com sendo Prog Sinfônico mas -- tudo bem que não tem tanto tempo de play -- mas esse tá sendo longe de ser o definidor do disco. Dance eletrônico, as guitarras indo e vindo, paisagens futuristas e tal, tá ruim não. Beberam da fonte certa (RIP Prince).
André: A orquestra aparece bastante, Alisson, daqui a pouco vai ver muito mais dela.

02 Chaldean Crossing (remix)
Mairon: Aqui o disco realmente"COMEÇA". Até então, era só uma pequena amostragem. Agora a doideira irá exalar das caixas de som.
Alisson: Eu ia falar da produção antes mas acabei empolgando por lembrar do rei do pop lá atrás.
Mairon: Esse disco >>>>>>>>>>>>>>> abismo >>>> Prince
Alisson: Enfim, parece que não tem abertura pros instrumentos "ressoarem", saca? O grave é bem definido, quase saturando. Mas tipo, é tudo muito comprimido. Noob demais.
Mairon: As orquestrações surgindo timidamente, junto a um andamento suave, sintetizadores viajantes. Sinto-me no show do Kitaro, mas com dignidade ao menos.
André: Não me incomoda esse grave, por enquanto as melodias mesmo estão ao fundo surgindo aos poucos. Agora o baterista começa a aparecer um pouco mais com as batidas nos bumbos.
Alisson: Instrumentação indo e vindo, apesar de "sutil" fica até previsível de saber quando e como vem os ápices.
Mairon: Para quem conhece a carreira do The Enid, vale ressaltar que nem todos os discos tem essa vibe. Acho que aqui eles aproveitaram a onda New Age e fizeram algo nessa linha. Buddha's Bar é outra referência que me vem à cabeça ouvindo "Chaldean Crossing (remix)". Aliás, nunca descobri se existe uma "Chaldean Crossing".
André: Acho esse instrumental viajante excelente. Há espaço para os outros integrantes aparecerem mesmo que por alguns poucos segundos.
Alisson: Vocês focaram bastante no sinfônico da coisa mas eu só aproveitei mesmo durante os espaços de repetição. Quando o sinfônico surge, fica meio caricato e plástico.
Robert John Godfrey (tecladista e líder do The Enid)
03 Dark Hydraulic (remix)
Mairon: Mas não considero sinfônico. Não esse disco.
André: Essa é a minha música favorita da banda.
Mairon: A melhor faixa de Sundialer surge.
André: O baixo que virá é maravilhoso. O The Enid em sua maioria faz composições de início calmo que vai crescendo aos poucos em nossos ouvidos.
Alisson: Tem algo parecido em alguma OST de algum jogo antigo...
Mairon: Essa retorna ao clima Vangelis, com um adendo das trompas e metais, mas principalmente, um baixo fudidamente chocante. Sonzeira.
Alisson: Não comprei esse timbre de teclado não.
Mairon: Imagina a galera que em 1995 ouvia É O Tchan e Mamonas, chegando numa loja de discos de um roots prog que estivesse ouvindo esse "lançamento", o pânico da criatura, ahuahuaha.
Alisson: O que uma coisa tem a ver com a outra, bicho? o.O
Mairon: As passagens de guitarra, o ritmo da bateria, orquestração, teclados, tudo encaixando perfeitamente.
André: Bastante reverb nessa guitarra. Aliás, eu adoro o efeito reverb.
Alisson: Esses "sopros" também, viu... tá difícil.
André: Orra, acho que dá de chamar essa faixa de sinfônica não é mesmo?
Alisson: Continuo achando o lance bem mais pra um Prog Eletrônico mesmo, bicho.
Mairon: Acho que não André. É experimental. Concordo com o Alisson.
Alisson: Aliás, alguém botou tag no RYM como Alternative Rock...
Mairon: O que não impede de ser uma boa audição. Virada sensacional!!! Sonzeira do cão.
André: Ah, vocês estão considerando pelos rótulos, eu considero pelo uso das orquestrações em grande parte das canções.
Alisson: Se pegar e ver que os synths e teclados são centrais e dão até a estética retrô do disco, puxa bem mais pro Eletronico/prog.
André: Sim, o disco está mesmo muito mais para prog eletrônico, mas independente disso, acho melhor não ficarmos restritos a classificações. Vão nos considerar uns malas nos comentários hahahahahahahaha.
Alisson: E tá errado?
Mairon: Alisson, tira os teclados e vai dizer que essa guitarra não lembra o Belew em seus melhores dias???
Alisson: Quem é Belew?
Mairon: Adrian Belew.
Alisson: Ah.... nope. Agora que associei o nome.
Mairon: Lembra né?
Alisson: Eu lembro mais dele no Discipline e tipo: "TALKING HEADS". Mas sério, nem é forçando a barra nem nada, mas o estilo de guitarra lá na primeira faixa eu fiquei "caramba, o cara toca bem parecido com o Prince".
Mairon: Pior que não achei. Final de faixa para cair o cu da bunda.
André: Conheço pouquíssimo do Prince, logo, não vou opinar para não falar bobagem.

04 Ultraviolet Cat
Alisson: Kraftwerk na área.
André: Uma canção de início mais espacial, misturada a algo levemente industrial.
Alisson: Poxa, tava tão bom quando era só uma vibe Trans Europe Express... agora entrou esse clima meio lounge.
Mairon: Voltamos a um som mais pop. Lounge é uma bela definição. Parabéns Alisson.
Alisson: Foi pejorativamente.
Mairon: Eu curto esse tipo de som, ainda mais em um dia chuvoso como hoje aqui em São Borja. Dá um clima legal.
Alisson: Lounge só funciona ironicamente pra vaporwave.
Mairon: Acho que to chapado de mais.
Alisson: Peste dum zé droguinha...
André: Dorgas.
Mairon: Ando assistindo muito programa partidário
André: Que riff de guitarra! Simples mas eficiente!
Mairon: Cara, som muito bom. Vocais bem encaixados, guitarra com timbres legais. Gosto bastante.
Alisson: Nem to considerando as passagens com voz porque eles surgem esporadicamente e meio que não me acrescentaram nada. E essa vibe de música africana?
Mairon: Mas se encaixam legal.
Alisson: Destaque da faixa: didjeridu ao fundo, pena que dura pouco.
André: Para ir de Kraftwerk até a África, é uma viagem meuito louca, não Alisson?
Alisson: Fala isso pro cara que compôs a música kkkk.
Mairon: kkkkkkkkk.
André: Mais louco sou eu que vou ficar tendo que fazer essa postagem daqui a pouco para entrar amanhã.

05 Salome 95
Mairon: Essa é uma nova versão para a faixa de 86, do álbum homônimo. Foi mantida a linha de piano e algumas passagens aqui e acolá. É a mais fraca do álbum, em minha humilde opinião.
Alisson: Se é a mais fraca, nossa senhora...
André: A primeira versão é melhor, mas eu gosto desta também. O que eu gosto dela são as constantes trocas de notas do baixo.
Mairon: Eu acho que exageraram aqui. Não me soa no mesmo nível que as demais do álbum. Mas longe de ser ruim.
André: Por outro lado, os vocais líricos femininos não ficaram bons nessa canção, apesar de que imagino que o Robert quis trazer a "Salomé" para o disco.
Alisson: Harmonizar os vocais na faixa não ajudou em nada, pra ser sincero. O ritmo hipnótico de fundo funciona, mas quando entra o protagonismo dos teclados, não fica legal.
Mairon: Concordo fortemente.
Alisson: Tem horas que soa brega e piegas. Estendo isso para todas as faixas.
Mairon: Daí eu discordo.
André: Aí eu já penso diferente porque tirar o teclado da sonoridade descaracterizaria toda a banda.

Considerações Finais
Mairon: Bom, jamais esperaria que o André indicasse esse disco. Aprecio a Barclay James Harvest, e os discos do The Enid são misturas de engodos, enganações, obras primas e bras muito boa de serem audíveis. Sundialer se encaixa nessa última. Não ouço com tanta frequência, mas sempre que o ouço, curto a sensação. Passa rápido nas caixas de som.
Alisson: Prog eletrônico/sinfônico bem do operante. Apesar de ter sido lançado nos anos 90, faria bem mais sentido ter sido lançado nos anos 70. A influência de Vangelis é óbvia, mas não sei se por falta de criatividade ou coisa do tipo, mas as composições não encaixam. Seja por evolução batida e previsível, ou seja até pela produção saturada. Se você curte muito o estilo e quer continuar garimpando os "perdidos", vai fundo.
Mairon: Da banda, recomendo também In The Region Of The Summer Stars (1976), Aerie Faerie Nonsense (1977) e Six Pieces (1979).
André: Eu sempre gostei muito do The Enid e mesmo eu estando já há 4 anos escrevendo para a Consultoria do Rock, eu vi que andei adiando demais em trazer uma matéria que enfatizasse a banda. Recomendei este Sundialer porque vejo a banda soando muito diferenciada em misturar as batidas eletrônicas, quase dance, junto a orquestrações e elementos do rock e do prog. O disco me agrada muito e sinto que o The Enid precisa ser mais conhecido.
Mairon: Entra amanhã, André?
André: Sim, vou editar daqui a pouco, Mairon.
Mairon: Senhores, necessito deslocar-me do meu recinto, mas foi uma alegria inquestionável a audição desse álbum com vossas presenças. Grato de ❤.
Alisson: Valeu galera, abraços ae.
André: Até mais, e obrigado pelos comentários.








Crítica ao disco de Arabs in Aspic - 'Madness and Magic' (2020)

 Arabs in Aspic - 'Madness and Magic'

(12 de junho de 2020, Karisma Records)

Árabes em Aspic - Loucura e Magia

Aqui temos hoje a oportunidade de apresentar o álbum dos noruegueses ARABS IN ASPIC, especialistas na criação de música psicodélica-progressiva de cariz eclético que apresenta afinidades com os paradigmas do sinfonismo e do space-rock, conseguindo assim criar um equilíbrio alternado entre momentos pesados ​​e outros serenos. “Madness And Magic” é o nome deste sexto álbum de estúdio da banda, tendo sido editado em meados de junho do ano passado 2020 pela editora Karisma Records, tanto em CD como em vinil (cor preta e transparente com pintas amarelas e verde ). A gravadora Børse Music colaborou especificamente com a edição do CD. O repertório do álbum gira todas as canções nele contidas em um continuum vivo e bem amalgamado, permitindo ao grupo reforçar o sentido unitário que quer dar ao repertório do álbum por meio de seus jogos de diversidade e versatilidade musical. O conjunto é formado por Jostein Smeby [guitarras e vocais], Stig Jørgensen [teclados e vocais], Erik Paulsen [baixo e vocais], Eskil Nyhus [bateria] e Alessandro G. Elide [percussão e gongo]. O quinteto contou com contribuições ocasionais do saxofonista Maksim Aundal e da corista Elisabeth Anstensen. A trajetória dos ARABS IN ASPIC começou na cidade norueguesa de Trondheim em 1997, e assim sua estreia fonográfica aconteceu 7 anos depois com "Far Out In Aradabia", e desde essa primeira instância chamaram a atenção do público progressivo internacional . A última coisa que recebemos deste grupo foi há cerca de três anos com um álbum ao vivo intitulado “Live At Avantgarden” e agora temos “Madness and Magic”, um dos muitos discos escandinavos que abalaram a cena progressiva no ano passado de 2020. .

Com duração de pouco mais de 8 ¼ minutos, 'I Vow To Thee, My Screen' abre o álbum instalando uma atmosfera serena e parcimoniosa que foca nos paradigmas do PINK FLOYD (fase 73-75) e ELOY (fase 73-76), acrescentando nuances sinfônicas bastante delicadas que servem de contrapeso à comedida complexidade rítmica elaborada pelos tambores e percussões. Aliás, a meio, tudo se torna um pouco mais colorido e, sem romper com o esquema inicial da banda, instala-se um interlúdio ligeiramente mais dinâmico. Embora o primeiro motivo faça um retorno completo depois de um tempo, as sementes de um vitalismo sutilmente aumentado são semeadas para brotar mais tarde, adicionando um dinamismo refrescante à sólida engenharia melódica em andamento. Em seguida, segue a dupla de 'Lullaby For Modern Kids, Part 1' e 'Lullaby For Modern Kids, Part 2'. A Primeira Parte começa com um prelúdio marcado por uma auréola onírica, que abre caminho para um primeiro corpo central extrovertido que se situa a meio caminho entre o heavy prog e o acid folk, criando uma combustão sonora eficaz ao combinar o vigor do primeiro e o extravagante. coloração deste último. O que soa aqui é um cruzamento entre GRAVY TRAIN, o primeiro KING CRIMSON e a faceta mais sofisticada de URIAH HEEP. Há um belo interlúdio com um clima lento que surge sob a orientação do violão, e se estende para algo mais agudo quando os cantos zombeteiros e o órgão dividem o papel principal. Desta forma, um segundo corpo central mais introvertido se desenvolve com um pulso delicado. Após este zênite fundamental do álbum chega a vez da Segunda Parte, que se concentra em algo mais decididamente pastoral com floreios mellotron psicodélicos discretos o suficiente para adicionar um tom etéreo ao assunto. A quarta peça do álbum é intitulada 'High-Tech Parent' e pega o relaxamento consistente da peça anterior para levá-la a um jovial exercício de folk-rock que está localizado a meio caminho entre o TRAFFIC e o GENESIS do palco 70-71, mais alguns sinais suaves no estilo do folk-rock reflexivo de CROSBY, STILLS & NASH.

A quinta faixa do álbum é a faixa-título e dura 6 ¾ minutos: 'Madness And Magic' começa com o ar de uma balada psicodélica com sua confluência de violão e nuances flutuantes de sintetizador, antes que o tema central nos coloque em um terreno de hibridização entre o YES original, QUATERMASS e o URIAH HEEP da fase 71-73. Os ornamentos percussivos são cruciais para trazer vibrações primorosas ao esquema rítmico enquanto o órgão se divide entre o enquadramento de bases harmônicas e o desenvolvimento de solos pontuais em locais estratégicos. O desenvolvimento temático foi agradável e teve como principal objetivo reformular os ares centrais da canção anterior para que recebam uma dose extra de senhorio. A música que fecha o álbum, 'Heaven In Your Eye', abrange uma maratona de 16 ¾ minutos. Começando no tom de uma balada prog-sinfônica com fundamentos folk-rock, não demora muito para que as vertentes mais pesadas surjam (pela enésima vez, apelando para o legado de URIAH HEEP, desta vez com nuances extraemersonianas), e, passado algum tempo, estes dão lugar à emergência de um jovial exercício de preciosidades sinfónicas sob a orientação de teclados, com efeitos únicos e também cósmicos. Com convicção e firmeza, o conjunto transita suavemente por uma série de passagens serenas e ágeis, enquanto a principal missão deste último é manter um recurso consistente de brilhantismo enquanto o desenvolvimento temático segue vários caminhos melódicos. Um pouco depois da fronteira do sexto minuto, a viagem musical deriva para um momento de psicodelia calma e acinzentada, contrastada pela assertiva e ligeiramente zombeteira das canções. Assim, quando o grupo retorna à garra do rock, a matéria torna-se sombria e exótica ao mesmo tempo por muito tempo antes que o esquema musical retorne ao esplendor sinfônico anterior. Outro motivo exótico baseado em um groove quase tribal estabelece a chave para outro momento de suntuosa graça logo após a fronteira de 11 minutos, um intervalo antes do terceiro retorno ao nervo do rock. A partir daí, o grupo sustenta um espírito de densa jovialidade que se espalha de forma muito convincente por todos os espaços sonoros que preenche; a geminação de teclados e guitarras é tão cativante quanto ágil é o groove em que se sustenta, especialmente para o clima tribal das percussões. O epílogo começa com um exercício de solenidade sóbria guiado por teclados, e depois termina com uma reprise do motivo inicial mais uma surpreendente coda de sintetizadores envolventes. Temos aqui o final ideal para o álbum.

“Madness And Magic” é um álbum muito exultante que nos mostra os ARABS IN ASPIC totalmente determinados a continuar assumindo o seu papel como uma das principais figuras do prog psicodélico escandinavo nos últimos anos. Embora esta revisão seja um pouco tardia, ela é, no entanto, genuína em seu conteúdo entusiasticamente laudatório. Na verdade, este álbum recebeu muitas críticas apreciativas nas redes de apreciação de gênero progressivo no ano passado, e aqui não somos exceção. Totalmente recomendado.


- Amostras de 'Madness and Magic':

Disco Imortal: Pearl Jam – Yield (1998)

 Disco Inmortal: Pearl Jam – Yield (1998)

Epic Records, 1998

«Devíamos ter mudado de nome» brincou Jeff Ament no documentário «Single Video Theory» centrado nas sessões que deram vida a este quinto e querido álbum dos mosqueteiros de Seattle, «Yield» (curva) um álbum que os redefiniu na sua tempo mas curiosamente ao mesmo tempo foram voltando às suas raízes, onde procuram ver as coisas de uma forma mais reflexiva e espiritual. Ament refere-se apenas a isso, cada membro foi evoluindo à sua maneira, eles já estavam entrando em uma idade mais "madura" por assim dizer (todos eles com mais de 30 anos) e isso é totalmente refletido nas músicas. Havia solidez na composição, um olhar um pouco mais amplo que o próprio grunge e toda aquela época de onde saíram e fazendo parte de um nicho - às vezes - odioso,

Dois importantes romances dos quais a banda se alimentou de ideias sobre a vida, o existencialismo e para onde vai a evolução humana: «Ismael» do escritor Daniel Quinn, e o romance O Mestre e a Margarida do escritor Mikhail Bulgakov, duas obras que também desenvolveram em conjunto e que, quase pela primeira vez na sua história, nos mostraram Ament e Stone Gossard muito envolvidos na escrita das letras, sem esquecer claro o grande Eddie que desencadeia um dos momentos mais geniais da prosa nas estruturas das canções de PJ neste registro.

O álbum da icónica imagem do sinal da estrada de Montana abre furiosamente com "Brain of J" ("J" de John Kennedy precisamente ou JFK), já desde o primeiro minuto levantando ideias do mundo e um novo olhar sobre ele ("The mundo inteiro será diferente em breve/O mundo inteiro estará se atualizando"). Atitude transbordante e bem rock, que contrasta muito bem com outras músicas. No vídeo das sessões, a banda fala da sua mudança em particular, o facto de serem mostrados a marcar um cartão como se entrassem numa empresa é um detalhe não menos importante. Pela primeira vez vemos a banda verdadeiramente profissional e centrada em seu trabalho como uma "equipe".

O álbum e esta mudança sem amarras engendraram hinos da linhagem de «Wishlist» ou «Faithful», o primeiro baseado numa wish list quase com uma incómoda aceitação, onde aquela marcha que o sustenta se torna uma das mais mágicas do mundo. disco. Uma beleza. A segunda é o clássico questionamento da fé e da religião, ironizando ao máximo, como é patente no álbum e na letra de Vedder: através do sarcasmo tentando nos atingir de forma brutal.

'Pilatos' é totalmente obra e graça de Ament e ele se sentiu muito orgulhoso depois disso. Sem ser uma excelente música, tem aquela força e calma que está no DNA da banda, enquanto o próprio Jack Irons, que era o homem encarregado da bateria do álbum, teve seu lugar com aquela música sem nome localizada mais ou menos exceto em o centro do álbum cheio de percussão em diferentes momentos e com aquela entrada vocal bizarra, uma espécie de intervalo para dar lugar a “MFC”, uma música que transborda com o ímpeto clássico do The Who por todos os lados e a obra do grande Vedder.

Em relação a Irons, certamente deve ser dito que foi sem dúvida um grande passo em sua carreira, uma carreira que não tem sido muito estável em bandas como tal, já que lhe convém ser um músico de sessão, mas sem dúvida se encaixou com o que eles queriam neste álbum. os grandes de Seattle, não tanto na turnê onde ele estava impressionado e onde sua saída foi anunciada após seus primeiros shows na Oceania: «Fomos para o Havaí e Austrália com Jack. Quando voltamos, Jack não estava em condições de continuar. Ele tomou essa decisão mais ou menos sozinho. Ele pode ser um ótimo baterista, mas teve dificuldade em colocar energia durante os shows que estavam fazendo durante a turnê. Não sei se ele achou que esperavam mais dele", disse Brett Eliason, engenheiro da banda. O grande momento de Matt Cameron veio depois disso, mas isso é outra história.

Continuando com o álbum, PJ vislumbrou nele uma de suas canções mais sagradas: "Given to Fly" é "uma onda ganhando força, ficando cada vez maior e crescendo e quando finalmente quebra já era", diz ele. O próprio Mike McCready, fazendo a comparação com o amor pelas praias e pelo surf, algo que sempre correu nas veias e os inspirou. É uma música que cresce e te pega e quando te abraça fortemente, te deixa ir suavemente. Outra jóia. “In Hiding” passa pelos mesmos lugares, uma delícia de pontos bem altos, onde tudo é iluminação e guitarras que juntas percorrem um dos momentos mais alegres do álbum. Também abaixo da linha

Uma história à parte é quase a imensa "Do The Evolution", música que foge um pouco da média dos próprios trabalhos da banda mesmo, com frases delirantes e grandiosas de Vedder inspiradas no citado livro de Daniel Quinn sobre personagens culturais populares e tremendas ironia sobre como tratamos nossos semelhantes ao longo da história. Por que falar sobre aquele tremendo vídeo animado de Todd McFarlane que lançou as bases para como abordar brilhantemente um vídeo animado para uma música-tema? DTE transborda rock and roll, consciência, atitude e é uma daquelas maravilhas que você não para de ouvir.

A doçura de "All These Yesterdays" fecha o álbum. Muito apropriado, já que o trabalho em conjunto é aquele que se mostra mais intenso do que nunca, desligando com um fade out (muito utilizado no álbum, diga-se de passagem). O último álbum lançado em "Cassete" da banda também marcou o sinal dos tempos: MTV, Internet, o acesso massivo à música e uma nova era para a banda, encarando os anos 2000 mais que dignamente com um grande álbum. O tempo fez justiça, pois continua a ser o favorito de muitos de sua rica discografia.

Disco Imortal: Sepultura – Arise (1991)

 

Disco Inmortal: Sepultura – Arise (1991)

Roadrunner, 1991

Um disco ainda brutal e muito bem trabalhado, lembremos que desde o final dos anos 80 o Sepultura esteve sob a proteção da histórica gravadora Roadrunner Records, o que significou a permanência deles na Flórida e um contrato discográfico que augurava um bom futuro. . O dinheiro estava na mesa, os brasileiros só faltavam fazer o que queriam e cara fizeram, desencadeando o caos no álbum daquela capa bizarra e ao mesmo tempo visionária de Lovecraft, onde aqui pela primeira vez foram dados vários gostos. Pela primeira vez vimos na banda uma certa maturidade na hora de compor, dedicando seu tempo até para trabalhar com coisas experimentais e progressivas, como nunca antes.

A premissa industrial fica evidente na introdução do brutal primeiro corte: “Arise”, uma música com efeitos sonoros mas que não tirou um pouco do thrash furioso e com Max Cavalera curtindo sua voz talvez como nunca antes. Mudanças de ritmo, riffs sequenciados, aquele refrão inesquecível "I see the world, old, old..." em uma música que de outra forma representava um claro e forte cenário pós-apocalíptico, potencializado com aquele vídeo transgressor filmado no Vale da Morte com imagens de a banda tocando durante o dia, misturada com imagens de uma figura semelhante a Cristo em uma máscara de gás, pendurada em uma cruz, que foi censurada pela MTV na época. A força do hit 'Dead Embryonic Cells' foi contundente e maravilhosa, uma música em que o Sepultura abominava o holocausto, as guerras santas que naqueles anos tomaram conta dos noticiários,

"Desperate Cry" por exemplo é uma delícia, por sinal uma das músicas mais longas da banda. Sua construção é sólida, beirando a desgraça de seus mentores do Black Sabbath. O riff ficou mais midtempo, as revoluções a mil por hora não estavam em tudo, mas entraram com fúria. Os solos infernais de Kisser às vezes eram um pouco mais segregados e a marcha sombria que ele propunha em seu número de partes era admirável. «Arise» na generalidade, apesar de seguir uma linha, nunca foi repetitivo e seguramente aí reside que para o metal é uma obra tão culta sem sinal de expiração.

Cavalera estava com a cabeça enfiada no industrial, não havia dúvidas se ainda mais tarde ele se envolveria com seu próprio projeto no estilo Nailbomb. Bandas como The Young Gods e Ministry foram mudando e evoluindo a forma de compor um poderoso e engenhoso Sepultura: “Altered State” é outra joia que se nutre de riffs industrialóides. O mesmo aconteceu com 'Under Siege', cheio de vozes de além-túmulo, efeitos, movimento pantanoso, mas nunca deixando o poder e a atitude bestial de outrora. Claro, a diferença, o riff de gancho, estava começando a aparecer, como já havia se infiltrado em seus futuros álbuns.

Bater cabeça estava na ordem do dia em 'Meaningless Movements', com uma pitada de hardcore nas veias que também marcou o som da banda nesses anos. Aquela bateria do Igor em 'Infected Voice' no final ainda ecoa em nossas cabeças. Que máquina.

O Sepultura foi aclamado mundialmente pela primeira vez e teve um retorno triunfante ao Brasil no Rock In Rio '91, sem contar as apresentações ao lado de astros do rock e metal mundialmente famosos como Ozzy, o próprio Ministry, Helmet e aquele show inesquecível em Barcelona depois, eles deve ser uma das melhores bandas de thrash ao vivo dos anos 90 de todos os tempos. O que o Sepultura deixou nesse álbum foi bastante, e apesar de a mudança ter sido mais ou menos drástica para eles, esse som lançou as bases para muitas bandas que seguiram os passos de um dos pioneiros irrefutáveis ​​do death global/ lixo.

POEMAS CANTADOS DE SERGIO GODINHO

Uma Cantiga de Amor

Sérgio Godinho


Tu não me mandes assim para o fundo

tu não me mandes assim no meu mundo

tu não me dês beijinhos paternalistas

a dar nas vistas a quem

já te conheces tão bem


Vem pôr amor, amor, vem pôr

amor, vem pôr dentro de mim

tem dor vem pôr amor amor

amor tem dor dentro de mim


Tu não me vivas assim o meu dia

tu não dês vivas asim a quem ria

do que tu eras antes de seres o que és

e nos teus pés te calçou

o que a um outro roubou.


Vem pôr amor vem pôr

amor vem pôr dentro de mim

tem dor vem pôr amor amor

amor tem dor dentro de mim


Tu não escondas de mim essas unhas

tu não escondas de mim testemunhas

duma palavra que nos demos assim:

era não quando era não

era sim quando era sim.


Vem pôr amor vem pôr

amor vem pôr dentro de mim

tem dor vem pôr amor amor

amor tem dor dentro de mim.


Venho Aqui Falar
Sérgio Godinho

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu cismo
como é que gente tão socialista
desiste de fazer o socialismo
é querer fazer arroz de cabidela
sem frango nem arroz nem a panela

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu vejo
que esta grande obra de reconstrução
parece mas é uma acção de despejo
é como para instalar uma janela
atirar primeiro os vidros para a viela

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e penso e vejo de todas as cores
já libertaram pides e bombistas
deve ser para lá por trabalhadores
é como lançar cobras na cidade
e pôr dentro dentro da jaula a liberdade

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e vejo e de ver tiro conselho
aquilo que é mesmo reforma agrária
é para alguns o demónio vermelho
esses querem é ver anjos cor-de-rosa
entre Castro Verde e Vila Viçosa

Eu amanhã posso não estar aqui
mas também, para o que eu aqui repeti...
é que eu não sou o único que acho
que a gente o que tem é que estar unida
unida como as uvas estão no cacho
unida como as uvas estão no cacho



“MÃOS NO FOGO” JUNTA FRED A REGINA GUIMARÃES


 Fred sempre foi um grande fã do trabalho de Regina Guimarães, poetisa, cineasta, dramaturga e letrista. Os poemas e letras de Regina fazem parte das suas memórias de vida e desde sempre se lembra de ter começado a ouvir as suas letras cantadas por vários artistas que muito admira e de ficar completamente rendido com as palavras e a poesia cantada.

Desde então, foi acompanhando o seu percurso e a sua admiração por Regina não parou de crescer. Quando passou a integrar a banda Três Tristes Tigres em 2020, Fred pôde mergulhar ainda mais no seu trabalho seja pelas letras que escreveu para o disco “ Mínima Luz “ ou pelo repertório antigo dos Tigres que estudou a fundo na altura.

Há algum tempo que Fred pensava num disco que ligasse a música à poesia e à força das palavras e sempre que pensava nesta possibilidade, era Regina que lhe vinha à cabeça assim como a sua voz e poemas maravilhosos que tanto o marcaram. Era com a Regina que queria fazer esta viagem.

Ana Deus apresentou-os e começaram o processo que leva a este resultado final, “Mãos no Fogo” e que Fred descreve da seguinte forma, “Quando falámos, a Regina aceitou fazer uma experiência e convidou-me para casa dela no Porto. Fui lá a primeira vez com um pequeno setup de gravação que montei na sala de casa dela, onde a Regina , sentada numa cadeira me leu alguns textos.

Desde a primeira leitura que a sua voz e os seus textos, ressonaram em mim com muita força e senti-me absolutamente sortudo por poder estar a viver aquele momento tão especial.

Mal saí no primeiro dia, fechei-me a ouvir vezes sem conta as gravações e a tentar criar as músicas para o que foi dito na sua sala.

Isolei-me, andei a pé no meio da natureza e, durante um ano, tentei entender o seu mundo e o meu, tentando seguir o meu coração e intuição. Passado uns tempos combinamos outra gravação em casa da Regina, e o processo repetiu-se, outra e mais outra e mais outra vez.

Nestes dias lembro-me bem dos nossos almoços no restaurante de frente da sua casa e das nossas conversas sobre tanta coisa e que tanto me inspirou. Foi um dos processos mais bonitos em que estive na minha vida e sinto uma enorme gratidão por ter a oportunidade de o ter feito algo com uma pessoa tão especial para mim

Viva a Regina e a vida”.

“Mãos no Fogo” é editado esta segunda feira, dia 23 de janeiro estando disponível em todas as plataformas digitais.

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