quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

10 discos essenciais: Elis Regina



Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre, filha de Romeu Costa e Ercy Carvalho Costa. Durante boa parte da sua infância e adolescência, Elis morou com seus pais e o irmão caçula na Vila do IAPI, bairro operário da capital gaúcha. A partir dos sete anos, Elis dividiu as atividades escolares com as suas primeiras apresentações nas emissoras rádios de Porto Alegre. Em 1958, aos 13 anos de idade, assinou o seu primeiro contrato profissional com a Rádio Gaúcha para se apresentar no programa de Maurício Sobrinho.

Aos 16 anos, em 1960, foi ao Rio de Janeiro gravar o seu primeiro álbum, Viva A Brotolândia, pela gravadora Continental. Voltado para o público adolescente e recheado de rocks juvenis inspirados no estilo de Celly Campello (1942-2003), o disco foi um fracasso comercial. Sucedem-se mais três álbuns, Poema de Amor, pela Continental, Ellis Regina e O Bem do Amor, os dois últimos pela CBS. Assim como o primeiro disco, esses três não causaram nenhuma repercussão.

Embora tivesse quatro álbuns no currículo, a carreira de Elis ainda não deslanchara como ela queria. Seus discos foram gravados no Rio de Janeiro, mas Elis ainda residia na sua cidade natal. Elis percebeu que se quisesse ver a sua carreira dar um salto, a solução seria mudar-se para o Rio de Janeiro, lugar onde estavam as grandes gravadoras e a grande imprensa.

Foi então que em março de 1964, acompanhada do pai, Elis deixou Porto Alegre e partiu para o Rio de Janeiro, onde desembarcou no dia em que aconteceu o Golpe Militar que derrubou o presidente João Goulart (1919-1976). No Rio, Elis apresentou-se nas principais boates do famoso Beco das Garrafas, onde conhece figuras influentes do cenário musical carioca como Luis Carlos Miele (1938-2015), Ronaldo Bôscoli (1928-1994), Dom Salvador e Chico Batera. Ao mesmo tempo, frequenta programas de televisão como o do ator Paulo Gracindo (1911-1995), na TV Rio.

O ano de 1965 foi bastante produtivo para Elis Regina. Ela lança no início do ano Samba Eu Canto, seu primeiro álbum pela gravadora Philips e o primeiro disco da cantora a ganhar repercussão. A jovem cantora participa do I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, com a canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. No mesmo ano Record, Elis Regina e Jair Rodrigues estreiam o programa O Fino da Bossa, na TV Record. O sucesso da dupla se estende nos discos: Elis e Jair lançam juntos três álbuns nos dois anos seguintes.

Em 1967, Elis Regina organiza em São Paulo, a polêmica “Marcha Contra a Guitarra Elétrica”, que tinha como objetivo, defender a música brasileira da invasão de influências musicais estrangeiras. Artistas como Geraldo Vandré, Zé Keti, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Chico Buarque e até mesmo Gilberto Gil, também participaram da marcha.

Ainda em 1967, Elis se casa com o compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli. Desse casamento, nasce em 1970 o primeiro e único filho casal, João Marcelo Bôscoli.

No ano seguinte, em 1968, Elis Regina se apresenta no MIDEM (Mercado Internacional de Discos e Edições Musicais), em Cannes, abre-lhe as portas para oportunidades no exterior. Um ano depois, a cantora se apresenta mais uma vez no MIDEM. Durante a sua passagem pela Europa, Elis dois álbuns, Elis in London (na Inglaterra) e Elis & Toots (na Suécia), este último gravado com o gaitista belga Toots Thielemans (1922-2016).

A consagração de Elis Regina vem na década seguinte. O álbum Em Pleno Verão (1970), produzido por Nelson Motta, inicia um processo de transição que irá ampliar o arco musical de Elis, afastando a cantora da sua postura radical e nacionalista da década anterior, e a aproxima de novas referências musicais como soul music e o rock, o que só irá enriquecer a bagagem musical da artista conhecida não apenas pela voz inigualável, como também pela capacidade de interpretar canções nos mais diversos estilos. 

Os anos 1970 verão Elis lançar álbuns de uma qualidade artística e técnica fantásticas, como o aclamado Elis & Tom (1974), gravado por Elis em dueto com Antônio Carlos Jobim (1927-1994), e que traz a antológica “Águas de Março”. Enquanto isso, na sua vida particular, Elis separa-se de Ronaldo Bôscoli em 1972. Um ano depois, casa-se com o pianista César Camargo Mariano, músico de sua banda e com o qual terá dois filhos, Pedro Camargo Mariano e Maria Rita.

Em 1976, Elis lança outro disco avassalador, Falso Brilhante, álbum recheado de canções fantásticas como “Fascinação”, “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”, as duas últimas de Belchior (1946-2017), que na voz de Elis, apresentou o cantor e compositor cearense ao mundo. No final da década, Elis Regina emociona o Brasil com “O Bêbado e a Equilibrista”, canção que virou o Hino da Anistia e que está presente no ótimo disco Essa Mulher, de 1979.

Em 1980, Elis estreia o show Saudade do Brasil, que irá render o álbum duplo de mesmo nome, e que contém canções gravadas em estúdio baseadas no repertório do espetáculo. No final do mesmo ano, Elis Regina lançou mais um álbum, Elis, pela EMI-Odeon, e o último que lançou em vida. Em 1981, Elis Regina separa-se de César Camargo Mariano, e inicia no mesmo ano um romance com o advogado Samuel Mac Dowell.

A carreira de Elis Regina foi interrompida em 19 de janeiro de 1982, quando seu namorado a encontrou caída no apartamento em que reidia, em São Paulo. Ela foi levada às pressas para o hospital, mas infelizmente chegou sem vida. A causa da morte teria sido uma overdose provocada pela mistura de cocaína e bebida alcoólica.

Abaixo, confira dez discos essenciais da discografia de Elis Regina.


Em Pleno Verão (Philips, 1970). Na virada dos anos 1960 para os anos 1970, a música brasileira passava por uma grande transformação. Referências musicais estrangeiras como soul music, funk e rock eram somados ao nosso caldeirão musical, e isso já se fazia notado nos trabalhos de vários artistas como Roberto Carlos, Jorge Ben e Erasmo Carlos, por exemplo. Foi percebendo isso que ao produzir Em Pleno Verão, Nelson Motta pretendeu atualizar o trabalho de Elis Regina, afastando-a do radicalismo nacionalista que ela havia abraçado na década anterior. Embora conserve alguns traços das experiências dos discos anteriores, Em Pleno Verão foi uma espécie de disco de transição que já apresenta novas referências no trabalho de Elis. E neste caso específico, vale ressaltar a importância do papel do maestro e arranjador Erlon Chaves (1933-1974) neste disco. Elis faz incursão na soul music através das faixas “As Curvas da Estrada de Santos” (de Roberto e Erasmo Carlos) e “These Are The Songs”, esta última, em dueto com Tim Maia, autor da canção. Outro destaque do álbum é o samba “Vou Deitar E Rolar (Quaquaraquaqua)” (de Baden Powell e Paulo César Pinheiro) trazendo Elis Regina numa interpretação sensacional e divertida.

Ela (Philips, 1971). O processo de modernização no trabalho de Elis iniciado no álbum anterior prossegue em Ela, nono álbum de estúdio da cantora gaúcha. O flerte de Elis com a soul music americana persiste com “Black is Beautiful” (Marcos Valle - Paulo Sérgio Valle), canção que valeu à cantora a acusação por parte da ditadura militar de estar envolvida com o movimento dos panteras negras dos Estados Unidos. A canção “Ela”, composta por César Costa Filho e Aldir Blanc, e que dá nome ao álbum trata através de versos belíssimos sobre a solidão de uma mulher no seu apartamento. O álbum contém regravações sensacionais como “Cinema Olympia”(Caetano Veloso), “Golden Slumbers” (John Lennon – Paul McCartney) e uma versão agradável de “Estrada de Sol” (Antônio Carlos Jobim – Dolores Duran). Mas sem sombra de dúvidas, o grande destaque do álbum Ela é de longe o sambalanço de “Madalena” (Ivan Lins – Roberto Monteiro), canção através da qual Elis deu visibilidade a um Ivan Lins em início de carreira.


Elis (Philips, 1972). Primeiro álbum de Elis Regina após separar-se de Ronaldo Bôscoli, e ao mesmo tempo, marca a estreia do tecladista César Camargo Mariano, futuro marido da cantora. A partir deste disco, César Camargo passa a ser responsável pelos arranjos dos discos de Elis Regina. Em “Atrás da Porta”, Elis mostra toda uma carga dramática condizente com a letra escrita por Chico Buarque e Francis Hime. Com a bucólica “Casa do Campo”, de Zé Rodrix, Elis ajudou a dar visibilidade ao chamado rock rural, vertente roqueira brasileira que cruzava a música de raiz dos rincões do Brasil com folk rock. “20 Anos Blues”é um blues com traços jazzístico que mostra Elis cantando com grande desenvoltura  o gênero musical americano, sem abrir mão do estilo brasileiro de cantar. Elis, o álbum ainda contém “Nada Será como Antes” e “Cais”, ambas de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

Elis
 & Tom (Philips, 1974). A gravadora Philips havia decidido um presente bastante especial a Elis pelos seus dez anos na companhia: gravar um disco com Antônio Carlos Jobim. O álbum foi gravado num estúdio em Los Angeles, nos Estados Unidos. A princípio, o disco tinha tudo pra dar errado por causa das implicações de Tom Jobim, fosse com os músicos da banda de Elis Regina, fosse com o próprio César Camargo. Apesar da tensão inicial, acabou o processo d gravação, e gerou verdadeiras pérola da música popular brasileira como as faixas “Águas de Março” (que Elis havia gravado no seu álbum anterior, mas sem grande repercussão), “Só Tinha de Ser Com Você” e “Inútil Paisagem”.

 

Elis 
(Philips, 1974). No mesmo ano que saiu Elis& Tom, foi lançado também este álbum, Elis, mais um que leva o nome da cantora. Neste álbum, Elis faz uma releitura bastante particular e intimista de “Travessia” (Milton Nascimento – Fernando Brant). “Ponta de Areia”, possui um andamento lento e arrastado, privilegiando a voz de Elis Regina. O samba “Amor Até O Fim” (Gilberto Gil), impressiona o emprego da guitarra e do baixo elétrico. Mas são duas canções da dupla Aldir Blanc e João Bosco que ganharam fama com Elis, o bolero “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, e o samba “O Mestre Sala dos Mares”, uma homenagem João Cândido (1880-1969), líder da Revolta da Chibata, um movimento de protesto promovido por marinheiros no Rio de Janeiro, em 1910.

 

Falso Brilhante
 (Philips, 1976), Elis Regina. No final de 1975, Elis Regina estreava no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, o espetáculo Falso Brilhante, o qual contava a história da cantora gaúcha, desde o início da sua carreira até o alcance da fama. Motivada pelo sucesso do espetáculo, Elis gravou o álbum de estúdio Falso Brilhante. Elis selecionou dez músicas das pouco mais de quarenta canções do repertório do espetáculo para o álbum. Em Falso Brilhante, Elis mesclou compositores consagrados com outros pouco conhecidos até então. Foi através deste álbum que o compositor Belchior ganhou visibilidade através de “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” em interpretações arrasadoras de Elis. “Fascinação”, “Quero”, “Gracias A La Vida” e “Tatuagem” são outros bons momentos do álbum.


Elis
 (Philips, 1977), Elis Regina. Este álbum teve a difícil missão de suceder o aclamado Falso Brilhante. O disco conta com a participação especial de convidados ilustres como a de Milton Nascimento em “Morro Velho” tocando violão ovation, e em “Caxangá, com o mesmo instrumento citado e também com uma viola de dose cordas. Falando em “Caxangá”, esta canção foi composta especialmente para Elis. Ivan Lins aparece tocando piano acústico e fazendo vocais de apoio em “Qualquer Dia” e “Cartomante”. Mas a faixa mais famosa deste álbum é “Romaria”, escrita por Renato Teixeira, e que virou um clássico do cancioneiro brasileiro na voz de Elis Regina.


Essa Mulher (Warner, 1979), Elis Regina. O álbum Essa Mulher marca a estreia de Elis Regina na gravadora Warner, recém instalada no Brasil. Começa “Cai Dentro” (Baden Powell), um samba animadíssimo, cheio de naipe de metais e que traz também o toque refinado do piano de César Camargo Mariano. A faixa que dá nome ao disco, é uma bela canção romântica composta por Joyce, e que traz uma reflexão sobre a experiência e o desafio da mulher no casamento, onde ela tem que ser uma esposa dedicada e ao mesmo tempo sexualmente atraente para o marido. No lindo samba-canção “Basta de Clamares Inocência”, de Cartola, Elis canta as dores de quem sofreu de amor por alguém que não valia nada. Elis está impecável na romântica “Altos e Baixos”, de Suely Costa e Aldir Blanc. Como em todo disco de Elis, há sempre uma canção arrebatadora, e a do disco Essa Mulher é “O Bêbado e a Equilibrista”, composta por  João Bosco e Aldir Blanc, canção que a princípio, era uma homenagem ao personagem Carlitos, Charles Chaplin (1889-1977), mas que acabou ganhando um outro significado, e virou o hino pela liberdade e contra a ditadura militar.

Saudade do Brasil (Warner, 1980). Primeiro e único álbum duplo de estúdio de Elis Regina, Saudade do Brasil traz versões gravadas em estúdio de canções que fizeram parte do espetáculo de mesmo nome que Elis Reginou apresentou naquele ano de 1980, no Canecão, no Rio de Janeiro. Dentre as canções do repertório, destacam-se versões fantásticas na voz de Elis Regina para “Maria Maria” e “Canção da América”, ambas de Milton Nascimento e Fernando Brant, e “Alô, Alô Marciano, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, esta última, uma das músicas mais tocadas nas programações de rádio no Brasil em 1980. 



Elis (EMI-Odeon, 1980). Quando deixou a Philips, em 1977, Elis assinou contrato com duas gravadoras, a EMI-Odeon e a Warner, mas a cantora acabou optando em migrar para Warner, deixando a EMI-Odeon a ver navios. Assim que terminou contrato com Warner, após Saudade do Brasil, a EMI cobrou de Elis o disco que ela devia. A cantora prometeu e cumpriu o trato com este álbum, que embora gravado num prazo curto, resultou num trabalho simples, mas muito bem acabado. Faixas como o funk pop “Aprendendo a Jogar” (Guilherme Arantes), “O Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos) e “Vento de Maio” (Telo borges e Márcio Borges), são as mais conhecidas do disco. Nomeado Elis, o disco tem uma inclinação pop e dava indícios de qual direcionamento musical Elis poderia ter tomado na década de 1980, caso não tivesse morrido em janeiro de 1982.


“O Concreto Já Rachou” (EMI-Odeon, 1987), Plebe Rude

 


Em meados dos anos 1980, uma geração de bandas provenientes de Brasília começa a aparecer nas paradas radiofônicas de todo o Brasil, e racha o protagonismo de paulistas e cariocas no cenário roqueiro brasileiro. Bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae, Detrito Federal entre outras, põem Brasília no mapa do rock brasileiro e mostram que a capital federal não era apenas o centro do poder que comanda o Brasil.

Mas essa projeção nacional que as bandas brasilienses tiveram não foi obra do acaso e muito menos foi pressão de algum grupo político sobre as gravadoras, muito pelo contrário. Foi consequência de um movimento de rock na capital federal que começou por volta de 1977, quando surgiu a primeira banda punk brasiliense, a Aborto Elétrico, e que no seu rastro, seguiram outras dezenas de bandas punks em Brasília. A partir da Aborto Elétrico, por exemplo, surgiram a Legião Urbana e Capital Inicial que mais tarde se tornariam bandas de rock famosas no Brasil.

A Plebe Rude foi uma de tantas bandas que surgiram na ebulição punk brasiliense. O grupo foi formado em Brasília em 1981, com Philippe Seabra (voz e guitarra solo), Jander Bilaphra (voz e guitarra base), André X (baixo) e Gutje Woortman (bateria). Depois de tocar nos principais locais do circuito de rock de Brasília, a Plebe Rude fez em setembro de 1982 a sua primeira apresentação fora do Distrito Federal, num festival de rock na cidade de Pato de Minas, estado de Minas Gerais. Quem abriu o show da Plebe Rude foi outra banda de Brasília, a recém criada Legião Urbana. Logo após as apresentações, os membros das duas bandas foram presos pela polícia por causa das letras contestatórias das músicas que tocaram, “Voto em Branco” (Plebe Rude) e “Música Urbana 2” (Legião Urbana). Porém, depois que soube que a duas bandas eram de Brasília, a polícia soltou os músicos temendo que aqueles jovens fossem filhos de políticos.

Entre 1983 e 1985, a Plebe Rude partiu para o sudeste onde foi tentar a sorte. A banda tocou em casas noturnas de Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa época, os membros da Plebe Rude conhecem Herbert Vianna, vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, banda que estava no topo das paradas de rádio graças ao álbum O Passo do Lui (1984). Através do apoio de Herbert, a Plebe Rude assina contrato com EMI-Odeon, mesma gravadora da qual os Paralamas faziam parte.

Plebe Rude no início da carreira, da esquerda para a direita: Jander Bilaphra,
Phillipe Seabra, André X e Gutje Woortmann.



E foi o próprio Herbert Vianna quem produziu o primeiro álbum da Plebe Rude, intitulado O Concreto Já Rachou, lançado em fevereiro de 1986. O álbum foi lançado pela EMI como mini-LP, um formato de 12 polegadas que a gravadora havia adotado, que continha poucas músicas e que deveria ser vendido a um preço menor que a de um LP convencional. Para esse formato, a EMI lançou álbuns de novas bandas como Zero, Lado B, Muzak e Finis Africae. No entanto, o que se viu foram lojas espertamente vendendo esses discos como LP comum.

Embora se trate de um disco de punk rock, O Concreto Já Rachou é um trabalho que musicalmente concilia simplicidade e sofisticação. As letras são bem construídas e fogem dos versos panfletários tão comuns em algumas bandas punks brasileiras. O tema das canções em sua maioria gira em torno de política, censura e desigualdade social. Contudo, os membros da banda eram bem nascidos, e que assim como os integrantes de outras bandas de Brasília, os integrantes da Plebe Rude, eram filhos de diplomatas e de funcionários públicos de alto gabarito.

O álbum começa com o maior sucesso da carreira da Plebe Rude, “Até Quando Esperar”, cuja introdução traz um som de violoncelo, instrumento nada comum no punk rock, e que é tocado nesta música pelo violoncelista Jaques Morelenbaum. A letra de versos fortes e alto teor político, traça uma crítica à desigualdade social brasileira e prega que a “plebe” (o povo) não deve esperar pela ajuda divina, mas ela mesma mudar essa situação opressora. A faixa estourou nas paradas de rádios de todo o Brasil e ganhou grande identificação por parte do público jovem.

“Proteção”, a faixa seguinte, também ganhou grande execução nas rádios brasileiras. Assim como as outras músicas do álbum, “Proteção” foi escrita quando o Brasil já estava na reta final da ditadura militar. A música retrata como o autoritarismo faz uso de forças públicas como a polícia, para oprimir aqueles que pensam diferente usando como justifica uma suposta segurança ao cidadão. Na verdade, é garantir os interesses do autoritarismo em se manter no poder.

Embora não tenha alcançado a mesma popularidade de “Até Quando Esperar” e “Proteção”, “Johnny Vai À Guerra (Outra Vez)” chegou a ter uma popularidade modesta. O título foi tomado emprestado de um título de um filme do diretor Dalton Thumb (1905-1976), Johnny Got His Gun, de 1971, que no Brasil se chamou exatamente Johnny Vai À Guerra. Nesta música, Phillipe Seabra canta a ilusão de um jovem que ingressa nas Forças Armadas para lutar em guerras estúpidas e mal sabe se voltará vivo.

O ator Timothy Bottoms numa cena do filme Johnny Got His Gun, no Brasil foi
Johnny Vai À Guerra. Filme inspirou a Plebe Rude a compor a música
"Johnny Vai À Guerra (Outra Vez)".

“Minha Renda” abre o lado B de O Concreto Já Rachou, e faz uma crítica carregada de ironia a artistas que se vendem em troca de fama e dinheiro, pouco se importando com a música. Escrita pela Plebe Rude quando a banda estava em início de carreira, “Minha Renda” traz um verso que é uma provocação a Herbert Vianna, citando o cantor dos Paralamas do Sucesso como um artista “vendido”: “Eles trocam minhas letras, mudam a harmonia / No compacto está escrito que a música é minha / Já sei o que vou fazer pra ganhar muita grana / Vou mudar meu nome para Herbert Vianna”. Mal sabia a Plebe Rude que cerca de dois anos depois, era justamente Herbert Vianna quem viabilizaria a contração da banda pela EMI e que ele seria o produtor do primeiro disco do quarteto. E o mais interessante: apesar da provocação, Herbert fez questão que banda mantivesse o verso provocativo a ele mesmo.

A próxima faixa, “Sexo E Caratê”, é a menos interessante do disco. É um punk rock de ritmo veloz, “claustrofóbico”, com uma leve aproximação à new wave. Os versos tratam sobre a programação entediante e de um romance desencontrado via ligação telefônica. Quem faz participação especial é Fernanda Abreu, que na época, ainda era integrante da Blitz.  

“Seu Jogo” possui uma das melhores letras do álbum. Fala sobre drogas e de como o indivíduo viciado se torna um “refém” delas. Destaque fica para o naipe de metais, que conta com a participação de George Israel, do Kid Abelha, tocando o seu inconfundível saxofone.

“Brasília” é um tributo que a Plebe Rude presta à cidade natal do quarteto. A letra descreve a capital federal, o seu cotidiano e seus costumes. Phillipe Seabra e Jander Bilaphra se dividem no canto e contracanto.

Apoiado no sucesso radiofônico de “Até Quando Esperar” e “Proteção”, O Concreto Já Rachou teve um sucesso comercial surpreendente para um disco de punk rock. O álbum vendeu 200 mil cópias. O disco seguinte, Nunca Fomos Tão Brasileiros, não repetiu o sucesso do álbum anterior, mas emplacou pelo menos dois sucessos, “Censura” e “Nunca Fomos Tão Brasileiros”.

Faixas

Lado A

1 - "Até Quando Esperar" (André X/Gutje/Philippe Seabra)

2 - "Proteção" (Philippe Seabra)

3 - "Johnny Vai À Guerra" (Outra Vez) (Plebe Rude)

 

Lado B

4 - "Minha Renda" (Philippe Seabra/Plebe Rude)

5 - "Sexo e Karatê" (Jander Bilaphra/André X)

6 - "Seu Jogo" (André X/Gutje/Philippe Seabra/Jander Bilaphra)

7 - "Brasília" (Plebe Rude)


Plebe Rude: Phillipe Seabra (voz e guitarra-solo), Jander Bilaphra (voz e guitarra-base), André X (baixo) e Gutje Woortmann (bateria).


"Até Quando Esperar" 
(videoclipe original)

"Proteção"
(videoclipe original)

Johnny Vai À Guerra"

"Minha Renda"

"Sexo e Karatê"

"Seu Jogo"

"Brasília"

“The Number Of The Beast” (EMI, 1982), Iron Maiden

 



No começo dos anos 1980, o Iron Maiden era uma das mais promissoras bandas da nova geração do heavy metal batizada pela imprensa de New Wave of British Heavy Metal (N.W.O.B.H.M.), que traduzindo para o português significa Nova Onda do Heavy Metal Britânico. Com dois álbuns lançados, Iron Maiden (1980) e Killers (1981), a banda inglesa parecia ter um futuro promissor não fosse um problema: o vocalista Paul Di’Anno.

O vício em álcool e cocaína de Di’Anno estavam comprometendo a performance do vocalista no palco. Alguns shows do Iron Maiden chegaram a ser cancelados. Steve Harris, baixista e membro fundador da banda, percebia que além da dependência química, Di’Anno não possuía a capacidade técnica e artística para o perfil de vocalista que ele tinha em mente para o Iron Maiden. O baixista idealizava um vocalista que além do potencial vocal, tivesse uma habilidade dramática, teatral, bem condizente com o perfil do Iron Maiden. Embora já tivesse gravado dois álbuns como vocalista da banda, Di’Anno não possuía o perfil idealizado por Harris. O músico por sua vez, queria se ver livre de Di’Anno o mais rápido possível. A banda era bastante profissional e ambiciosa, tinha objetivos a alcançar, e Di’Anno se mostrava um entrave.

Antes mesmo de mandar Di’Anno embora do Maiden, Steve Harris já tinha alguém em mente para ocupar o posto de vocalista da banda: Bruce Dickinson. Harris já vinha observado as atuações de Dickinson como vocalista da banda Samson há algum tempo. Além da performance no palco, chamava-lhe a atenção a sua extensão vocal e o seu jeito “operístico” de cantar. Em agosto de 1981, após assistirem ao show do Samson no Reading Festival, Steve Harris e o empresário do Iron Maiden, Rod Smallwood, convidaram Bruce Dickinson para ser o novo vocalista do Maiden. Dickinson aceitou o convite. Em setembro, após o fim da turnê do álbum Killers, Paul Di’Anno foi demitido do Iron Maiden, e no mês seguinte, Dickinson era oficializado novo vocalista da banda.

Iron Maiden em 1981, da esquerda para a direita: Steve Harris, Clive Burr,
Paul Di’Anno, Adrian Smith e Dave Murray, 1981.

As gravações do terceiro álbum do Iron Maiden, o primeiro com Bruce Dickinson como vocalista da banda, ocorreram entre janeiro e fevereiro de 1982, no Battery Studios, em Londres, Inglaterra. March Birch (1948-2020), o mesmo produtor de Killers, assumiu a produção do novo álbum, e ficou bastante impressionado com o talento e o potencial vocal de Bruce Dickinson no estúdio. O produtor ficou convencido de que Di’Anno não era capaz de cantar da forma que Harris imaginava para a banda. Dickinson cumpriu essa expectativa e ampliou as inúmeras possibilidades criativas do Iron Maiden.

Em 12 de fevereiro de 1982, era lançado o single de “Run To The Hills”, que trouxe no lado B a música “Total Eclipse”. Era o primeiro single do Iron Maiden com Bruce Dickinson como vocalista, e dava uma amostra para o público como seria o novo álbum que estava por vir. O single de “Run To The Hills” chegou ao 7° lugar na parada de singles do Reino Unido, onde vendeu mais de 200 mil cópias.

Pouco mais de um mês depois, em 22 de março de 1982, The Number Of The Beast, terceiro álbum de estúdio do Iron Maiden, foi lançado. É perceptível em The Number Of The Beast uma evolução musical no Iron Maiden, muito por conta da chegada de Bruce Dickinson à banda. O largo alcance vocal de Dickinson possibilitou ao Iron Maiden criar canções em tons mais altos, algo que não era possível com Paul Di’Anno. Brue Dickinson teria chegado a contribuir na composição de algumas canções de The Number Of The Beast, mas por algumas razões contratuais da forma como deixou o Samson, ele não pôde ser creditado.

Bruce Dickinson (o segundo da direita para a esquerda) no Samson, em agosto de 1981,
pouco antes de deixar a banda para ingressar no Iron Maiden.

A capa de The Number Of The Beast é mais uma obra de Derek Riggs, que já havia ilustrado as capas dos dois discos anteriores, e se notabilizaria pelas ilustrações das capas dos futuros discos do Iron Maiden, trazendo sempre como figura central o mascote, Eddie. Originalmente, a ilustração da capa de The Number Of The Beast foi feita para a capa do single de “Purgatory”, música do álbum Killers. Porém, ao ver a arte, Rod Smallwood, empresário do Maiden, achou a obra boa demais para servir de capa para um simples single. Preferiu mandar guarda-la para usar na capa de álbum. E foi o que aconteceu: a arte foi imortalizada na história do heavy metal como capa de The Number Of The Beast.

Um detalhe interessante é que quando The Number Of The Beast foi lançado, não era para ter existido aquela tonalidade azulada ao fundo da ilustração da capa do álbum. A ideia era para ser um tom mais acinzentado, mais sombrio. Só a partir de uma reedição The Number Of The Beast de 2008, foi que a capa sofreu uma alteração e o fundo ganhou tons mais cinzentos e sombrios conforme se havia pensado quando a capa foi criada 26 anos antes.

The Number Of The Beast começa com “Invaders”, um heavy metal épico que retrata a invasão dos vikings à Grã-Bretanha por volta do século VIII, quando os saxões, os povos nativos, travaram uma batalha sangrenta contra os invasores. “Invaders” traz um ótimo casamento harmônico entre as guitarras de Adrian Smith e Dave Murray.

A invasão dos vikings na Grã-Bretanha no século VIII é o tema de "Invaders",
música que abre o álbum The Number Of The Beast.

“Children Of The Damned” tem a sua primeira metade em ritmo lento de balada, onde Bruce Dickinson tem a oportunidade de mostra o poder da sua extensão vocal e a sua capacidade dramática como intérprete de uma canção. Já a segunda metade da música assume um ritmo mais veloz e intenso. A letra foi inspirada nos filmes de terror Village of the Damned (1960, A Aldeia dos Amaldiçoados no Brasil), do diretor Wolf Rilla (1920-2005), e a sua continuação Children of the Damned (1964, A Estirpe dos Malditos no Brasil), do diretor Anton Leader (1913-1988), ambos os filmes adaptados do livro The Midwich Cuckoos (1957), do escritor John Wydham (1903-1969).

“The Prisioner” começa com um trecho de um áudio de uma fala do personagem do ator Patrick McGoohan (1928-2009) de um episódio do seriado The Prisioner, exibido pela tv britânica entre 1967 e 1968. Após o áudio, um riff de guitarra hard rock dá início à música.

O lado A do álbum encerra com “22 Acacia Avenue”, segunda música de uma trilogia de canções que conta a história da prostituta Charlotte. A trilogia começou com a música “Charlotte The Harlot”, presente no primeiro e homônimo álbum do Iron Maiden lançado em 1980, e se encerra com “From Here To Eternity”, do álbum Fear Of The Dark, de 1992. “22 Acacia Avenue” possui alternâncias de andamento, que variam entre um ritmo mais direto e uma levada mais “cavalgada”, típica do estilo do Iron Maiden.

Iron Maiden em 1982, da esquerda para a direita: Adrian Smith, Clive Burr,
Bruce Dickinson, Dave Murray e Steve Harris.

O lado B do álbum começa com “The Number Of The Beast”, a música que dá nome ao disco.  A música começa com a voz em tom aterrador do ator Barry Clayton (1931-2011) citando os trechos do livro Apocalipse (12:12 e 13:16), da Bíblia. Em seguida, um riff de guitarra dá início a um dos maiores clássicos da história do heavy metal. Com uma performance vocal impecável, Bruce Dickinson solta um grito intenso, saído das suas entranhas, que só encontra uma similaridade com o grito ecoado por Roger Daltrey em “Won’t Get Fooled Again”, do Who. A princípio, o Iron Maiden pretendia contratar o ator Vincent Price (1911-1993) para narrar o texto bíblico no início da música, mas o astro dos filmes de terror pediu um cachê muito alto. Foi então que a banda optou por outro ator, Barry Clayton (1931-2011), conhecido por fazer leituras de contos de terror na Capital Radio, de Londres.

A letra de “The Number Of The Beast” foi escrita por Steve Harris a partir de um pesadelo que ele teve após assistir ao filme Damien: Owen II (no Brasil, A Profecia 2), do diretor Don Taylor, de 1978. “The Number Of The Beast” causou a maior polêmica nos Estados Unidos, onde líderes religiosos acusaram o Iron Maiden de fazer apologia ao satanismo.  

Na sequência vem “Run To The Hills”, um dos maiores sucessos da carreira do Iron Maiden. A letra de “Run To The Hills” trata sobre o massacre que os homens brancos promoveram ao exterminar povos indígenas na América do Norte para ampliar os seus domínios territoriais. O ritmo cavalgado da bateria parece fazer alguma alusão às cavalarias dos soldados americanos, que partiam para o oeste dos Estados Unidos para confrontar os povos indígenas e exterminá-los.

“Gangland” é a faixa mais hostilizado do álbum. Para uma parcela de fãs, “Total Eclipse”, que foi incluída no lado B do single de “Run To The Hills”, merecia estar no álbum ao invés de “Gangland”. Os próprios membros do Iron Maiden, anos mais tarde, se arrependeram de não terem incluído “Total Eclipse” em The Number Of The Beast. A partir do final dos anos 1990, as novas edições de The Number Of The Beast  passaram a incluir “Total Eclipse” na lista do repertório de músicas do disco. A letra de “Gangland” versa sobre um ex-gangster atormentado pelos crimes que cometeu no passado.

Capas de The Number Of The Beast: do lado esquerdo a versão de 1982,
e do lado direito, a nova versão a partir de 2008.

The Number Of The Beast chega ao fim com “Hallowed Be Thy Name”, um heavy metal épico que descreve os últimos momentos de um prisioneiro antes de ser mandado para a forca. Os versos são cantados na primeira pessoa, como se Bruce Dickinson fosse o próprio prisioneiro condenado à morte: “Aguardando em minha cela fria / Quando o sino começa a tocar / Refletindo sobre a minha vida pregressa / E já não me resta muito tempo”.

Comercialmente, The Number Of The Beast teve um desempenho brilhante e mostrou que a mudança de vocalista agradou grande parte dos fãs, ainda que houvesse uma parte deles que preferiam Paul Di’Anno. Nos Estados Unidos, The Number Of The Beast vendeu na época mais de 1 milhão de cópias e alcançou o 33° lugar da Billboard 200. No Reino Unido, o álbum vendeu 300 mil cópias e chegou ao 1° lugar da parada de álbuns. Ao longo das décadas, The Number Of The Beast vendeu mais de 14 milhões de cópias em todo o mundo.

O single de “Run To The Hills”, lançado em fevereiro de 1982, um mês antes do álbum, chegou ao 7° lugar na parada de singles do Reino Unido, onde vendeu 200 mil cópias. Já o single de “The Number Of The Beast” chegou apenas ao 18° lugar, embora tenha vendido também 200 mil cópias assim como “Run To The Hills”.

Durante todo o ano de 1982, o Iron Maiden se ocupou com a bem sucedida turnê The Beast On The Road, que começou em fevereiro e terminou em dezembro. A turnê teve 188 shows e passou pelos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Escócia, França, Espanha, Suíça, Bélgica, Alemanha, Holanda, Austrália e Japão. 

The Number Of The Beast marcou a estreia de Bruce Dickinson no Iron Maiden, mas ao mesmo tempo, foi o último álbum do baterista Clive Burr (1956-2013), que deixou a banda no final de 1982. Foi substituído por Nicko McBrain, ex-baterista da banda Trust. Curiosamente, após deixar o Maiden, Burr entrou na banda Trust para ocupar o lugar de McBrain. O sucesso de The Number Of The Beast representou uma nova e vitoriosa fase na carreira do Iron Maiden.

Faixas

Todas as faixas foram escritas e compostas por Steve Harris, exceto onde anotado.

 

Lado A

  1. "Invaders"                  
  2. "Children Of The Damned"               
  3. "The Prisoner" (Adrian Smith - Steve Harris)
  4. "22 Acacia Avenue" (Adrian Smith - Steve Harris)   

 

Lado B

  1. "The Number Of The Beast"             
  2. "Run To The Hills"                 
  3. "Gangland" (Smith - Clive Burr)        
  4. "Hallowed Be Thy Name" 

 

Iron Maiden: Bruce Dickinson (vocais), Steve Harris (baixo e vocais de apoio), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra e vocais de apoio), Clive Burr (bateria)

 


"The Number Of The Beast"
(videoclipe original)


"Run To The Hills"
(videoclipe original)

“Ronaldo Foi Pra Guerra” (RCA Victor, 1984), Lobão e Os Ronaldos




Lobão andava na maior maré de azar no final do ano de 1982. Enquanto a sua ex-banda, a Blitz, estava no topo das paradas, lotava shows e tinha “Você Não Soube Me Amar” como a música do ano no Brasil, Lobão via o seu primeiro álbum solo, Cinema Mudo, às moscas nas lojas, um fracasso retumbante em vendas. E para completar, Lobão estava sem grana, na maior penúria. Àquelas alturas, é bem possível que Lobão tenha sentido lá no fundo um certo arrependimento de ter deixado a Blitz.

Naquele momento, o então diretor de trilhas sonoras da TV Globo, Guto Graça Mello, até que tentou ajudar Lobão. O ex-baterista da Blitz havia gravado uma bateria para uma vinheta da Globo a pedido de Guto Graça Mello, e este pediu a Lobão um exemplar do seu primeiro álbum solo para ouvir. Quem sabe, poderia surgir uma chance de uma das músicas do disco entrar para trilha sonora de alguma novela da Globo, o que para Lobão, que estava na pindaíba, seria um ótimo presente de fim de ano. Daria visibilidade à sua carreira solo e alavancaria as vendas do seu álbum solo que não vendia nada.

Lobão foi até ao departamento de divulgação da RCA Victor, gravadora que havia lançado o seu disco, para lá conseguir uma cópia promocional do seu álbum. No entanto, por algum motivo, o responsável do setor, com muita arrogância, se recusou a fornecer uma cópia do álbum. De nada adiantou Lobão explicar os motivos. O cantor foi ao gabinete do presidente da gravadora, mas foi informado pela secretária que ele estava em São Paulo para uma reunião. Desesperado, Lobão invadiu o gabinete do presidente, e de alguma forma, conseguiu ligar para o local onde acontecia a reunião do presidente companhia em São Paulo. Porém, o cantor não conseguiu falar com ele, o presidente da RCA muito ocupado.

Tomado por uma fúria, Lobão destruiu todo o gabinete do presidente da gravadora RCA, e depois foi embora, deixando a secretária e a todos perplexos. Dias depois, Lobão foi chamado pela direção da gravadora e foi informado que o prejuízo seria descontado nas vendas do seu álbum solo, que já eram pífias. E apara piorar a situação, talvez como um castigo, a companhia deixou Lobão “na geladeira”, ou seja, não o demitiu, mas tão cedo não iria gravar nenhum trabalho novo dele.

Capa do primeiro álbum solo de Lobão, Cena de Cinema, lançado em 1982.

Enquanto Lobão nadava naquela maré de azar, um amigo seu de infância, o guitarrista Guto Barros (1957-2018), estava retornando para o Brasil após uma temporada nos Estados Unidos. Guto havia participado com Lobão da criação da banda Blitz, no começo de 1981. Ao lado de Evandro Mesquita, Ricardo Barreto e Zeca Mendigo, Guto Barros é um dos autores do megahit da Blitz “Você Não Soube Me Amar”. Guto retornava para o Brasil cheio de novidades e compondo muitas canções.

Logo que soube do retorno do amigo, Lobão foi procurá-lo. Não demorou muito, e já estavam trocando ideias e ensaiando as canções que Guto estava compondo num estúdio na casa do baterista Baster Barros (irmão de Guto), que também se juntou a eles nos ensaios. Quem também apareceu e participou dos ensaios foi o baixista Odeid Pomeranblum. Lobão e Guto assumiram os vocais e as duas guitarras.

Na prática, uma banda de rock já estava pronta... ou quase pronta. A formação nos ensaios se completou com a chegada de Alice Pink Pank, que havia terminado de gravar o primeiro álbum da Gang 90 e as Absurdettes. O namoro de Alice com o líder da Gang 90, Júlio Barroso (1953-1984), havia chegado ao fim e, consequentemente, a sua permanência naquela banda também. Não demorou muito e Alice entrou naquela banda nova que estava se formando, assumindo os vocais de apoio e um sintetizador Cassiotone MT 40.

A essas alturas, já era o começo do ano de 1983, e de repente, saiu uma notícia que deixaria Lobão regozijando de felicidade. Toda a diretoria da RCA Victor brasileira, a mesma que pôs o cantor “na geladeira”, foi mudada por ordem da matriz americana. Provavelmente por questões estratégicas. Mas sabe-se lá o motivo de verdade, Lobão era só sorriso, e fez questão de ir à sede da gravadora no Brasil ver seus algozes arrumando suas coisas para deixar os cargos.

E parece mesmo que a sorte resolveu sorrir para Lobão. A nova direção convocou Lobão e decidiu apostar naquele jovem roqueiro, já que o rock brasileiro estava num momento promissor. As gravadoras concorrentes estavam com seus artistas de rock no topo das paradas, e a RCA não queria perder aquela oportunidade. Na renovação de contrato com a gravadora, Lobão expôs que estava formando uma nova banda, Os Ronaldos. Com isso, a banda assinou contrato com a gravadora, com igual porcentagem para cada integrante. Na assinatura do contrato, por comum acordo, a banda foi renomeada para Lobão e Os Ronaldos, embora a ideia não tenha partido de Lobão.

Em julho de 1984, foi lançado Ronaldo Foi Pra Guerra, o primeiro álbum da banda Lobão & Os Ronaldos. O álbum é essencialmente new wave, muito embora em algumas faixas, se perceba elementos sutis do pós-punk.

Ronaldo Foi Pra Guerra começa com o clima festivo de “Corações Psicodélicos, que traz Alice Pink Punk fazendo vocais de fundo sensacionais para Lobão cantar versos que demonstram toda a sua devoção para a sua musa amada: “Sim pro sol, sim pra lua / Eu quero você toda nua / Sim pra tudo que você quiser”. E a musa amada de Lobão era a própria Alice, pois, além de colegas de banda, os dois se tornaram namorados.

Lobão e Os Ronaldos, da esquerda para a direita: Lobão, Odeid Pomeranblum, 
Alice Pink Pank, Guto Barros e Baster Barros.


Em “Não Tô Entendendo”, o guitarrista Guto Barros é a voz principal da música. A letra hilária trata sobre Goretti, uma garota que resiste a todas as investidas insistentes do seu namorado por carícias mais envolventes. Ela faz jogo duro, no máximo segurar a mão, e sexo, só depois do casamento, para desespero do namorado.

“Tô À Toa Tokio” aborda aventura, sedução, paixão e mistério na cidade de Tóquio. A música possui elementos sonoros que criam todo um clima que remete à capital nipônica.

Depois de uma sequência de três rocks, o ritmo diminui com “Abalado”, uma balada escrita pelo casal Lobão e Alice Pink Pank. A letra melancólica versa sobre solidão e traz um interessante jogo de sentidos antagônicos nos versos: “A loucura é tão clara / Como o escuro da lucidez / E ser claro a essa altura / É o mesmo que riscar um fósforo / Pela segunda vez”.

A princípio, “Os Tipos Que Eu Não Fui” era a faixa que a gravadora queria como a primeira música de trabalho de divulgação do álbum Ronaldo Foi Pra Guerra. Mas isso não aconteceu. Embora seja uma boa música, “Os Tipos Que Eu Não Fui” não é uma música que tenha apelo radiofônico.

Encerrando o lado 1, “Bambina”, uma das faixas mais interessantes do álbum Ronaldo Foi Pra Guerra. A letra de “Bambina” é toda em inglês, exceto um ou outro verso em italiano. Alice e Guto Barros cantam os versos desta música. Musicalmente, “Bambina” traz uma sonoridade que mescla referências do pós-punk britânico e da new wave do B-52’s.

Quem abre o lado 2 é a faixa “Me Chama”, uma balada romântica que versa sobre solidão, sobre estar sozinho em casa num dia chuvoso e triste, pensando na mulher amada que está em algum lugar distante. O destaque fica para o guitarrista Guto Barros que faz um solo de guitarra fantástico, um dos mais marcantes do rock brasileiro.

“Rio do Delírio” é uma ode à cidade do Rio de Janeiro: “Rio do Delírio e sol / Acontece tudo por aqui / O desejo e o pavor são tão normais / Desvario e prazer / Se fantasiam em todos os carnavais”. “Inteligenzia” é um roquinho new wave com tecladinhos primários em que Alice canta versos sobre um homem aparentemente normal, casado, pai de família, um voraz leitor de livros de agente secreto, e que nas horas vagas, gosta de bancar o James Bond.

“Teoria da Relatividade” é uma new wave animada e divertida, escrita por Guto Barros. Os versos retratam um sujeito que dá mais atenção aos livros do que à namorada. Enquanto ele fica entretido com os livros, ela o trai com um amante dentro da residência do casal. Outra faixa divertida é “Dr. Raymundo”, que conta a história de um médico que tem cura para tudo.

O álbum termina com a faixa-título, um rock veloz e urgente. “Ronaldo Foi Pra Guerra” é uma das músicas mais antigas de Lobão e Os Ronaldos, e inspirou o nome da banda.  A letra trata sobre Ronaldo, um sujeito que já foi de tudo na vida, de hippie a jogador de futebol, mas que num belo dia, foi convocado para ir à guerra.

Ronaldo Foi Pra Guerra gerou dois singles que se tornaram grandes sucessos comerciais “Me Chama” e “Corações Psicodélicos”. O sucesso de “Me Chama” e “Corações Psicodélicos” nas paradas radiofônicos levaram o Lobão e Os Ronaldos a fazer uma grande turnê pelo Brasil, que contou com 160 shows. Com a popularidade em alta no cenário do rock brasileiro em 1984, Lobão e Os Ronaldos chegaram a ser sondados para serem uma das atrações da primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985. Mas a banda acabou ficando de fora.

“Me Chama” fez um sucesso tão grande que foi uma das músicas mais executadas nas rádios brasileiras na década de 1980. “Corações Psicodélicos” foi incluída na trilha sonora da novela Um Sonho A Mais, da TV Globo, em 1985, e teve grande execução no rádio e na TV.

Se por um lado, Lobão e Os Ronaldos eram uma das bandas mais populares do rock brasileiro entre 1984 e 1985. Contudo, internamente, a relação entre os integrantes não estava boa. Para começar, Alice Pink Pank decidiu deixar a banda, em 1985, e voltou para a sua terra natal, a Holanda. Mesmo em crise e sem Alice, a banda decidiu seguir em frente. Lobão escreveu a canção “Décadénce Avec Élégance” sob encomenda para a trilha sonora da novela Ti-Ti-Ti, da TV Globo, porém foi rejeitada. Embora rejeitada para a novela, “Décadénce Avec Élégance” foi gravada por Lobão e Os Ronaldos e lançada num single, trazendo no lado B a música “Mal Nenhum”, uma parceria de Lobão e Cazuza, e que fora incluída na trilha sonora do filme Areias Escaldantes (1985), do diretor Francisco de Paula.

Em meio aos preparativos para a pré-produção do segundo álbum, a relação interna dentro da banda estava insustentável. Os integrantes da banda não aguentavam mais a vida desregrada de Lobão, regada a abuso de álcool e drogas. Seu comportamento estava atrapalhando os objetivos do grupo. Lobão foi dispensado da banda através de um telefonema do baixista Odeid, que falou em seu nome e em nome dos outros companheiros.

Demitido da banda, Lobão retomou a sua carreira solo e começou a pensar no seu segundo álbum solo, que foi lançado em março de 1986, sob o título O Rock Errou, e que emplacou a faixa-título e a balada “Revanche”. Quanto aos ex-colegas de Lobão, eles tentaram prosseguir com a banda como Os Ronaldos, mas não foram muito longe e logo encerraram as atividades.

No final das contas, Ronaldo Foi Pra Guerra se tornou o primeiro e único álbum de estúdio de Lobão e Os Ronaldos, uma banda que teve uma carreira meteórica, mas que deixou  um registro que é um dos maiores clássicos da new wave brasileira.

 

Faixas

Lado 1

  1. "Corações Psicodélicos" (Lobão - Julio Barroso - Bernardo Vilhena)          
  2. "Não Tô Entendendo" (Guto Barros)
  3. "Tô à Toa Tokio" (Lobão - Alice Pink Punk)              
  4. "Abalado" (Lobão - Alice Pink Punk)            
  5. "Os Tipos Que Eu Não Fui" (Lobão - Bernardo Vilhena)      
  6. "Bambina" (Lobão - Alice Pink Punk - Baster Barros - Bernardo Vilhena) 

 

Lado 2

  1. "Me Chama" (Lobão) 
  2. "Rio de Delírio" (Lobão)        
  3. "Inteligenzia" (Alice Pink Punk - Bernardo Vilhena)            
  4. "Teoria da Relatividade" (Lobão - Guto Barros)      
  5. "Dr. Raymundo" (Guto Barros)        
  6. "Ronaldo Foi pra Guerra" (Guto Barros – Lobão - Hélcio)

 

Lobão e Os Ronaldos: Lobão (vocais e guitarra), Alice Pink Punk (sintetizadores e vocais), Guto Barros (vocais e guitarra solo), Odeid Pomeranblum (baixo) e Baster Barros (bateria e vocais de apoio)

 

"Corações Psicodélicos"


"Não Tô Entendendo"


"Tô à Toa Tokio"


"Abalado"


"Os Tipos Que Eu Não Fui"


"Bambina"


"Me Chama"


"Rio de Delírio"


"Inteligenzia"


"Teoria da Relatividade"


"Dr. Raymundo"


"Ronaldo Foi pra Guerra"

Destaque

Bad Company – Bad Co (1974)

Em seu primeiro álbum, o Bad Company — liderado pelo ex-vocalista do Free, Paul Rodgers, e pelo guitarrista original do Mott, Mick Ralphs — ...