A transformação pela qual a sonoridade do Black Stone Cherry passou é notável. Do hard rock dos primeiros discos, que apresentavam até sutis influências do hard californiano dos anos 1980, a música do quarteto de Kentucky evoluiu para um southern rock pesado e extremamente atual.
Family Tree, sexto disco do grupo, comprova essa metamorfose com ênfase. Sucessor de Kentucky (2016), o álbum foi produzido pela própria banda e mostra o Black Stone Cherry afundando de vez os pés nos pântanos e bebendo na rica herança de nomes como Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Molly Hatchet e Allman Brothers. O hard rock de outrora convive harmonicamente com os temperos sulistas, com bem encaixadas tendências country, pitadas de blues e as sempre agradáveis guitarras gêmeas. Atestando o pedigree do trabalho, Warren Haynes, do icônico Gov’t Mule e com uma longa passagem pela bandas dos irmãos Allman, dá a sua benção participando de “Dancin' in the Rain”.
Ao todo temos treze faixas em 52 minutos de som, todas sólidas e muito bem construídas. A voz de Chris Robertson soa mais madura, uma espécie de amálgama entre os timbres de Gregg Allman e do já citado Haynes. A cozinha vem forte, descomplicada e com uma pegada contagiante, enquanto Ben Wells engrossa a parede de guitarras com Robertson e reveza-se nos solos com o vocalista.
Family Tree é um excelente disco de uma banda que apresentou uma evolução enorme nos anos recentes. Maduro, sólido e com canções que caem de imediato no gosto do ouvinte, é um dos trabalhos mais fortes do Black Stone Cherry e tem tudo para levar o nome da banda ainda mais longe. E o que é melhor: ganhou edição nacional pela Hellion Records e está disponível para quem gosta de boa música e um rock dos bons, aproveite!
Décimo-segundo álbum do Candlemass, The Door to Doom marca o retorno do vocalista Johan Längqvist após mais de trinta anos. O cantor, que gravou apenas o clássico disco de estréia com o grupo – o mítico e profundamente influente Epicus Doomicus Metallicus -, é um dos grandes diferenciais do novo álbum da banda sueca.
Sucessor de Psalms for the Dead (2012), o disco põe fim também ao maior período entre um trabalho e outro do grupo, tempo esse que foi muito produtivo para o principal compositor do quinteto, o baixista Leif Edling. Nesses sete anos, Leif montou o Avatarium e gravou três álbuns, além de criar também outra banda, o The Doomsday Kingdom, que soltou o seu disco de estreia em 2017.
Essa parada fez bem para o Candlemass. Respirar novos ares refrescou a criatividade dos músicos, que apresentam em The Door to Doom um de seus discos mais sólidos. Edificado pelos riffs da dupla Mats Björkman e Lars Johansson, o álbum apresenta uma sonoridade clássica e cativante, é pesadíssimo, conta com um trabalho vocal exemplar e mostra o grupo caminhando com absoluto domínio pelo terreno denso do heavy metal.
O Candlemass é e sempre foi, na verdade, uma daquelas bandas que justificam a teoria de que o imortal terceiro álbum do Black Sabbath, Master of Reality (1971), deu vida, sozinho, a dezenas de ramificações do metal. The Door to Doom atesta esta verdade e a deixa mais evidente do que nunca. Pra não ficar dúvidas, o próprio Tony Iommi dá a sua benção fazendo o solo de “Astorolus – The Great Octopus”, ratificando o universo sonoro compartilhado entre as duas bandas.
Com oito ótimas faixas dispostas em 48 minutos, The Door to Doom é um dos melhores álbuns da carreira do Candlemass e um dos destaques do heavy metal em 2019. Um senhor disco e que, sinceramente, considero impossível de não ser apreciado por toda pessoa que já se emocionou com a energia de um riff pesado e repleto de distorção.
O álbum ganhou edição nacional pela Hellion Records.
Existe uma parcela do público que acha que o rock pesado dos anos 1970 se resumiu a apenas três bandas: o famoso trio Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Porém, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento sobre o assunto sabe que as coisas não foram bem assim. Bandas como Grand Funk Railroad, Rainbow, Thin Lizzy, Blue Öyster Cult, Wishbone Ash, Budgie e inúmeras outras também fizeram história naquele período e foram vitais para o desenvolvimento da música pesada. Uma das maiores foi o Uriah Heep.
Formado em Londres em 1969, o grupo está na ativa até hoje e lançou em 2018 o seu vigésimo-quinto álbum, Living the Dream, que está sendo disponibilizado em CD pela Hellion Records aqui no Brasil. Pra quem nunca ouviu a banda, pode-se dizer que há uma certa semelhança entre a sonoridade do quinteto liderado pelo guitarrista Mick Box e o Deep Purple, tanto pela presença de elementos prog quanto pela elevação do teclado ao grau de protagonismo, dividindo espaço com a guitarra. O resultado é uma hard rico em melodia, harmonias e mudanças de dinâmicas, que possui uma camada densa e sempre preenchida e que, depois de cinquenta anos de estrada, continua soando pesado e atraente.
Além da Box, a banda conta com Bernie Shaw (vocal), Phil Lanzon (teclado), Davey Rimmer (baixo) e Russell Gilbrook (bateria), um time experiente e entrosado, que não precisa provar nada pra ninguém e segue na estrada por puro amor à música. Esse aspecto é o responsável por fazer um álbum como Living the Dream, gravado por uma banda veterana como o Uriah Heep, soar refrescante e extremamente agradável aos ouvidos. Há um certo clima on the road propiciado pelos solos de guitarra e teclado, que transportam o ouvinte para uma estrada repleta de sons maravilhosos.
O Uriah Heep explora as mais diferentes facetas de sua sonoridade, indo desde o lado mais agressivo e viajante dos anos 1970 até os flertes com o mercado norte-americano na década de 1980. Ou seja, temos momentos de selvageria instrumental e vocais agressivos lado a lado com canções onde a melodia é dominante e a acessibilidade é consciente.
Living the Dream é um dos melhores álbuns do Uriah Heep. Um disco maduro, sólido e feito por músicos apaixonados para fãs fiéis. É uma banda dividindo a alegria de viver o seu sonho, e transformando isso em música de inegável qualidade.
E foi com American Beauty que o Grateful Dead alcançou um som genuinamente fantástico, com canções memoráveis e clássicos típicos da virada dos anos 1960 para os 1970. E o disco é agradável por misturar na medida certa instrumentos elétricos e acústicos e com todos os músicos se destacando. A banda era um verdadeiro combo e entrou no estúdio formada por Jerry Garcia (guitarras pedal steel, piano e vocais), o jovem Bob Weir (guitarra base e vocais), Mickey Hart (percussão), Bill Kreutzmann (bateria), Phil Lesh (baixo, guitarra, piano e vocais) e o falecido beberrão Ron "Pigpen" McKernan (harmônica e vocais). Logo de cara temos a doce e delicada "Box of Rain", muito na veia de outra super banda da época, o Crosby, Still, Nash & Young. A canção transporta o ouvinte com um som suave em que Phil Lesh queria tanto cantar para seu pai que estava moribundo. Robert Hunter escreveu as letras que desfilam poesia em "Saia de qualquer porta sinta o seu caminho, sinta o seu caminho como no dia anterior/ Talvez você encontre direção em algum canto onde está esperando para conhecê-lo". Uma belíssima abertura de disco, sem dúvida alguma. "Friend of the Devil" invoca um espírito mais brincalhão na linha de Simon & Garfunkel, arrancando um sorriso de quem a escuta. Na letra, um homem que está fugindo da lei passa por quase todos os Estados Unidos - cortesia de Jerry Garcia. A instrumentação acústica é linda, incluindo um excelente trabalho de bandolim do convidado David Grisman, e é a primeira de três músicas deste disco que capta exatamente o que o Dead adorava fazer: a vida na estrada. A coisa começa a ficar mais mais séria em "Sugar Magnolia", um clássico instantâneo animado e bem alto astral imortalizado na voz de Bob Weir com um ar rock country, se tornando uma das favoritas dos fãs.
"Operator" traz um clima mais cadenciado cantado por Pigpen, um blues com ar bem folk. "Candyman" é outro momento de brilho de Jerry Garcia. Hipnótica, a canção é um blues mais arrastado e bucólico, com um instrumental intimista apoiado nas guitarras acústicas. A balada "Ripple" segue a mesma linha, mas desta vez um pouco mais country do que a canção anterior . O segundo petardo que trata da vida na estrada é "Brokedown Palace" e relata uma jornada de um viajante - mais precisamente os Deadheads que viajavam de cidade em cidade com a banda em suas turnês - mais fiel. Uma justa homenagem da banda aos seus fiéis acompanhantes, que ficaram mundialmente famosos pela dedicação e fanatismo. "Till the Morning Comes" é mais alegre, com um ar de anos 1960 ainda pairando e trazendo a banda entrosada nas passagens - indicando que os anos de estrada e horas de jams ao vivo trouxeram resultados positivos. A banda parece tocar por instinto. Uma bela surpresa deste grande álbum. A lenta e potente "Attics of My Life" tem um clima bem Grateful Dead, com destaque ao piano emoldurando e bela harmonia - que fica espetacular com os vocais em coro. Estamos diante uma das músicas mais bonitas do disco, com harmonias vocais de Garcia, Weir e Lesh combinando perfeitamente. A terceira e última música que fala da vida da estrada fecha o disco de maneira brilhante! "Truckin'" é praticamente uma história autobiográfica sobre a vida na estrada literalmente, onde todos os locais se misturam em um "quem é quem" das cidades americanas. No final das contas, a canção lembra que todos os locais são os mesmos e o que importa é ir tocar para seus fãs e depois descansar em casa, recuperar as energias para cair na estrada novamente. Cidades se misturam: "Chicago, Nova York, Detroit, está tudo na mesma rua". "Truckin'" é o hit do álbum e sua música mais famosa, ao lado de "Sugar Magnolia". É também o número mais impressionante aqui, já que a jornada até agora da banda é narrada: "Às vezes a luz está brilhando em mim / Outras vezes mal consigo ver / Ultimamente me ocorre / Que viagem longa e estranha tem sido". Se tivesse que escolher apenas uma música do disco? American Beauty é o retrato sonoro do talento do Grateful Dead. Vale destacar "Truckin'", por contar a vida da banda sem papas na língua!
E ao quinto álbum, Mitski traz-nos o seu melhor trabalho até agora. Um disco denso e emocional, para ouvir vezes sem conta e sem cansar.
Mitski tem vindo a surpreender a cada álbum que lança mas é neste Be The Cowboy que apresenta o seu melhor trabalho. São 14 faixas complexas, repletas de densidade e de sentimentos. Parece que Mitski abre o coração e deixa sair cá para fora todas as dores e dúvidas existenciais, suportada pelos instrumentos poderosos e pela voz envolvente e elástica que a caracteriza.
O single, “ Nobody”, nem sequer é a melhor música do álbum. O disco arranca com a excelente “Geyser”, diferente de tudo o resto, mais sonoro e cheio, mais produzido. Segue-se “Why Did You Stop Me?”, que até permite uns requebros na pista de dança, para voltarmos ao piano em “Old Friend”, uma das faixas mais emblemáticas deste trabalho, na simplicidade do que de facto se faz com amigos (“take coffee and talk about nothing […] take anything you wanna give me”).
Em “A Pearl” há uma exposição de todas as ansiedades e incertezas, bem expressas quer na letra quer nas mudanças ao longo da música, nas modulações da voz de Mitski, que chega quase a um descontrolo e que não se parece importar com a sua própria vulnerabilidade.
Destaque ainda para a declaração de amor que é “Pink In The Night”, a afirmação crua, quando canta “I thought I’d traveled a long way but I had circled the same old sin”, em “A Horse Named Cold Air” e a estranheza (que se entranha) de “Washing Machine Heart”. A fechar, “Two Slow Dancers” traz-nos a delicadeza, o cansaço de Mitski, a desilusão conformada que vai martelando delicadamente no piano, “two slow dancers, last ones out”.
Mitski, no fundo, oferece-nos o seu coração, as suas ansiedades, incertezas, paixões e desilusões, embrulhadas numa musicalidade ímpar e numa produção cuidada, que faz deste disco um dos mais bem conseguidos trabalhos do ano.
Independança foi um pequeno OVNI que demorou a aterrar e a ser entendido na história do pop-rock made in Portugal. As dissonâncias e as avarias apresentadas no disco roubaram o discernimento ao público consumidor, e o insucesso comercial foi garantido. No entanto, é um disco importante e histórico. Um marco do início do boom do rock português dos anos 80.
Com o boom do rock português do início dos anos 80 do século passado, muitas foram as bandas que começaram a debutar. Embora a música elétrica já por cá andasse a batalhar por um espaço próprio desde a década anterior, foi com os eighties que os discos e os sucessos de muitos deles conseguiram impôr-se no panorama musical da época. Se é verdade que esse momento novo teve Rui Veloso como pai (o álbum Ar de Rock, de 1980, inaugurou, de facto, um período importante na expansão da musica rock feita em Portugal), também não deixa de ser verdadeiro o facto de que o progenitor do pop-rock mais clever clever e mais antenado com algum experimentalismo foi assumido pelo Grupo Novo Rock, os GNR do nosso contentamento. O álbum que os viu nascer teve Independança como nome de batismo e destacou-se por ser verdadeiramente novo e inesperado. Fugiu ao estilo do rock mais básico e vulgar feito na altura (sem quaisquer juízos de valor na adjetivação que utilizamos, note-se) e embrenhou-se por caminhos mais sinuosos e vanguardistas. O resultado dessa aposta foi, a curto prazo, o escasso sucesso comercial. No entanto, o tempo veio a dar razão às vontades que terão presidido à sua feitura. Independança é um marco importante e incontornável na história do rock português e um momento único na carreira da banda portuense que agora festejamos no Altamont.
Independança é um disco bastante atrevido, ousado e corajoso, quando o que importava, na altura em que foi produzido e lançado, era fazer mais do mesmo, Alexandre Soares, Vítor Rua, Tóli César Machado, Miguel Megre e Rui Reininho apostaram em algo diferente e arrojado. O destaque maior vai para o ritmo, para a vertente dancável da música, tudo feito com elevado grau de independência criativa. A junção destas ideias justifica plenamente o título do disco, como é fácil perceber. Apesar de em Independança se encontrar “Hardcore (1º Escalão)”, tema que serviu de single de apresentação do élepê e que viria a ser um clássico do grupo, o disco não teve sucesso comercial, embora a crítica lhe tenha dado a devida importância e reconhecimento. Na verdade, não havia no álbum nenhum “Chico Fininho” que pudesse ser cantarolado por uma multidão crescente de portugueses ávidos de rock cantado na língua de Camões. Dos oito temas originais que dele fazem parte, nem um seguia esse caminho mais comercial, digamos assim. Antes pelo contrário. De temas como “The Light” (belo e soturno como poucos, com estranho e fragmentado início, para depois ceder espaço ao piano e à voz), “Independança” (curto e instrumental) e principalmente “Avarias”, que preenchia totalmente a rodela B do álbum, repleto de alguma loucura e desvario experimental, não se poderia esperar outra coisa que não fosse estranheza e inquietação por parte dos sôfregos consumidores lusos. Foi, nesse sentido, um delicioso tiro nos pés, o que os GNR deram com Independança. Em vez de um simples álbum de tendência pop-rock, fizeram um disco de veia arty bem saliente, onde se nota um ou outro piscar de olhos aos sons dos Joy Division (“Bar da Morgue”) ou Velvet Underground (“The Light”), por exemplo.
A passagem do tempo, ao mesmo tempo que pode provocar esquecimento, também nos surpreende muitas vezes em sentido contrário. Essa mesma instância arbitrária da duração das coisas, tantas vezes castradora e fúnebre, também pode assegurar vida renascida e imortalidade. Os temas “Agente Único”, “O Slow Que Veio do Frio” e “Dupond & Dupont” são a prova do que dizemos, assim como também aconteceu, de forma ainda mais evidente, com o já referido “Hardcore (1º Escalão)”.
Independança foi o primeiro passo de uma extensa história discográfica de muitos e bons álbuns, de muitas e belas canções que foram ficando mais hinos do que apenas canções, de inúmeros e fantásticos concertos em terras lusas e até mesmo fora das nossas fronteiras geográficas. Os GNR sempre primaram pelo bem gosto, por vezes inusitado e requintado, um bocado fora da box do entendimento comum. Independança será, talvez, o melhor e mais perfeito exemplo disso. Ainda bem que assim foi. Ainda bem que assim (ainda) é.
Em 1984, ano distópico por excelência, os GNR lançam um disco sombrio e claustrofóbico cheio de referências pós-punk: uma espécie de Joy Division à Gomes de Sá, metade negrume de Manchester, metade granito do Porto.
A história dos primeiros anos dos GNR é a história das desavenças estéticas dos seus três fundadores: Vítor Rua, Alexandre Soares e Tóli César Machado. Desta feita, é Rua que bate com a porta, indo Jorge Romão para o seu lugar. A sonoridade do novo disco reflecte esta mudança, substituindo o groove dançante de Independança por um baixo melódico à Peter Hook. Adicione-se uma bateria robótica e uns quantos salpicos de guitarra ácida, e o rock gótico de Defeitos Especiais estará pronto a servir. Não estranhámos: “Bar da Morgue”, do disco anterior, já tinha morcegos na lapela.
Reininho cataloga Defeitos Especiais como “o nosso disco mais Rock Rendez Vous”, de tal forma este som lúgrube à Bauhaus dominava os meios alternativos de então. “Piloto Automático”, com o seu mantra “vodka, vodka”, tem também o dom de captar os ares do tempo, tornando-se um hino de boémia e transgressão.
Não se pense, porém, que os GNR se limitam a copiar as referências britânicas de então. O que é interessante na pop portuguesa dos anos 80 é que essa abertura cosmopolita ao que acontecia lá fora era sempre enxertada com uma identidade portuguesa e intransmissível. Veja-se o caso de “Muçulmania”, com a sua citação da amaliana “Canção do Mar”; ou “Pershingópolis”, com o seu piscar de olho ao corridinho algarvio.
Apesar de terem abandonado o experimentalismo radical de “Avarias”, os GNR de Defeitos Especiais são ainda orgulhosamente anti-comerciais, vendendo poucos discos mas recebendo o elogio da crítica. Não se estranha por isso que o encantador single “I don´t Feel Funky (Anymore) tenha sido olimpicamente ignorado pelo grande público. A valsa “Mau Pastor” aponta timidamente os caminhos pop do futuro, mas só a bomba atómica “Dunas”, do disco seguinte, mudaria realmente tudo…
For Ever é o mais recente disco dos Jungle, uma banda difícil de não gostar. Os londrinos Josh “J” Lloyd-Watson e Tom “T” McFarland regressam quatro anos depois do primeiro álbum, com um trabalho aparentemente mais consistente.
À primeira audição, For Ever soa fresco, soalheiro e dá vontade de dançar, ou pelo menos de nos abanarmos ligeiramente e forma quase imperceptível, como as folhas das árvores ao vento ligeiro, até que um colega fique a olhar fixamente para nós, porque claramente estamos a mexer-nos mais do que nos apercebemos. A vantagem para o duo é que, entre 2014 e 2018 ainda passam uns anos, as referências e a estética musical continuam boas, (sempre foram) e várias canções aguentam muito bem como singles, música ambiente ou parte de um qualquer dj set tocado ao pôr-do-sol ou junto à praia com um copo na mão e demasiada gente vestida em tons claros. O pior é que, mal voltamos ao primeiro álbum dos Jungle, sentimos imediatamente que pouco ou nada evolui nesta banda.
Quase seguindo a máxima de que em equipa que ganha não se mexe, o duo continua o seu soul-pop-disco com bons resultados auditivos e muito boa produção. Basicamente é uma banda difícil de não gostar. For Ever mantém a estética do anterior trabalho da banda e quase podia ter sido lançado com o primeiro disco. Éuma audição fácil mas que implica não ficarmos aborrecidos com falsettos durante 46 minutos, senão desistimos ao fim de três faixas.
Este mais recente trabalho dos Jungle foi gravado em Los Angeles, onde Lloyd-Watson viveu uma relação que não resultou. Reflexo da desilusão com o amor e a cidade, as letras são pouco optimistas, como “House In LA” (So ask me to stay/ oh God, in the hope that you can heal my pain), “Cherry” (Life won’t grow if we never change) ou mesmo a irónica “Happy Man” (Buy yourself a dream and it won’t mean nothing), o que dá uma camada extra de sentido aos mais atentos.
Contudo, sem uma abordagem mais profunda à audição, tudo soa bastante superficial, na medida em que as letras podiam na verdade ser sobre qualquer tema, tendo em conta que é o groove que carrega o peso do disco, e isso é muito bem feito, embora sem surpresas. O resultado é uma alegre dança ao sol sobre desilusões amorosas. Quem nunca?
E ao terceiro disco, mais um delicioso fracasso comercial, mais um disco apreciado pela crítica! Com Os Homens Não Se Querem Bonitos, os GNR faziam o pleno dos extremos. Por um lado palmas, por outro o desinteresse do grande público. A exceção deu-se com “Dunas” e também um bocadinho com “Sete Naves”. O álbum, esse, ainda hoje se ouve com muito gosto e muita satisfação.
Depois de Defeitos Especiais, disco com título muitíssimo bem esgalhado, os GNR aproximavam-se um pouco mais da pop que os veio a caracterizar um pouco mais tarde. Nesse sentido, o da definição derradeira do caminho a traçar no futuro, Os Homens Não Se Querem Bonitos poderá ser entendido como um álbum de transição, espécie de arma de fogo musical com muitos gatilhos prontos a metralhar em direção a alvos variados e de diferentes latitudes sonoras. Um desses disparos, uma dessas balas, que não necessariamente perdida, rumou a África, por exemplo. A canção “Apartheid Hotel” é disso um bom exemplo. É um quase-instrumental, ouvindo-se nela a voz dada da mlerifiana Anabela Duarte, num dos momentos mais experimentais do disco. É o penúltimo dos seus nove temas. No derradeiro, nova experiência, desta vez com alguns contornos orientais, se assim podemos dizer. “Azraël”, é esse o titulo da faixa que encerra o álbum, terá incomodado os mais incautos pela aposta da banda em encerrar, mais uma vez, um longa-duração de maneira estranha, embora não tão repleta de avarias.
A ideia de começarmos este texto pelas canções que finalizam o álbum não é totalmente inocente, até porque elas poderão muito bem ser entendidas como as últimas a desempenhar essa estranha coerência instrumental final que teve início em Independança, passou por Defeitos Especiais e terminou em Os Homens Não Se Querem Bonitos. Tal coisa nunca mais aconteceu, pelo que resolvemos destacar o facto. Mas voltemos a rodela preta para o início do seu Lado A. O disco tem início com “Santa Polónia”, tema pouco mais do que interessante, espécie de “comboio sem apitar”, como por lá se canta. Segue-se a ritmada e esfuziante “Sonora”, canção bem à maneira new wave daqueles já longínquos tempos, a lembrar os sempre saudosos The B-52’s, misturando inglês com castelhano. “Freud & Ana” tem uma pegada mais roqueira, brincado (como sempre) com palavras e expressões do nosso imaginário (“Mão morta / Mãe morta / Vai bater àquela porta”), embrenhando-se depois num xadrez lírico onde se comem cabeças de bispos e de damas à vontade sem regras de Rui Reininho. Depois, para muitos, o disco começa e termina em “Dunas”. Na verdade, dificilmente se encontrará início mais icónico em toda a história do rock português. Bastam aquelas batidas no princípio da música para que todos a reconheçam. Será, eventualmente, o sucesso dos sucessos da banda, e assim continuará de geração para geração. As “dunas” serão sempre os “divãs” do nosso eterno contentamento. “Sentidos Pêsames” é uma bonita balada (gostamos especialmente das inflexões de voz da voz de Rui Reininho, que pontuam a canção de forma muito particular) que não ficou para a história luminosa dos temas best of dos GNR, mas que teria lugar de destaque, se tal coisa houvesse, num worst of de excelência musical que a banda sempre soube produzir. “Sete Naves” é um tema algo datado, embora o baixo forte de Jorge Romão ainda hoje soe bem. Não fosse o “efeito eucalipto” de “Dunas”, “Sete Naves” poderia ter sido um hit discreto de Os Homens Não Se Querem Bonitos. Enfim, talvez tenha sido, mas “Dunas” tudo abafou. Curiosa é ainda a canção “Made In Oporto”, a última gravada a ter a voz de Alexandre Soares no lugar da de Rui Reininho. E, diga-se, é excelente, embora pareça um pouco deslocada de todas as outras, sobretudo se privilegiarmos uma certa visão de conjunto, o que não parece, na verdade, exercício muito sábio a ter em conta. Ou seja, num disco ainda feito em busca de uma (futura) voz mais própria, a principal riqueza caleidoscópica de Os Homens Não Se Querem Bonitos é essa mesma, a da diversidade criativa.
Em conclusão, passa-se com os discos, o mesmo que se passa com os homens: não é forçoso que tenham de ser bonitos. Basta, aos discos e aos homens, que sejam bons, que tenham qualidade, como é claramente o caso.
Tal como a rapariga da capa, com Psicopátria os GNR dão um mergulho olímpico rumo à sua consistência como banda.
Comecemos por colocar em cima da mesa um ditado popular bastante conhecido e utilizado na cultura portuguesa, que serve para início de conversa sobre este álbum – agradar a gregos e troianos. Aparentemente (sem moralizar?), é tarefa impossível para os comuns mortais, e há muitos que a utilizam como desculpa para assim encolherem os ombros e levarem a sua ideia avante. Mas há também quem queira desafiar esta impossibilidade, mostrando que, com afinco e inteligência, seria possível agradar a ambos os povos que habitavam nas margens do Mar Egeu. Nesse ponto se encontravam os GNR em 1986, com vontade de juntar o reconhecimento da crítica especializada com o do grande público, na que será, quiçá, a mais hérculea das tarefas dos fazedores de arte nas suas diversas formas em Portugal. É debate que tem barbas, e, seja nos domínios do cinema, música, literatura, televisão, pintura, escultura, contam-se pelos dedos das mãos quem tenha conseguido subir a esse Olimpo. Psicopátria será um desses casos.
Enquanto que nos três discos anteriores houve sempre espaço para devaneios, aqui quis-se minimizar esse lado, contraindo-se a vontade de fazer mais canções propriamente ditas. Alexandre Soares tinha perdido o protagonismo (com a sua saída da banda em 82 e regresso pouco depois, mas com estatuto de repescado) e era agora Reininho e Tóli que comandavam o leme (o primeiro ao nível de letras e o segundo ao nível da concepção musical). Tal como o próprio Tóli assume: “No Psicopátria a maior parte das canções são minhas e há a oportunidade de tentar fazer um disco de canções à séria, que se conseguiu muito bem (…) Sentíamo-nos bem a tocar aquilo, funcionava e era bom. Já havia coisas que soavam mais a canção, com cabeça, tronco e membros: Tinha um refrão, uma bridge. Nem sempre o tínhamos conseguido fazer e ali conseguimos.” Eis, pois, o caminho iluminado para um disco marcante do pop rock português.
O ano de 1986 foi um dos mais importantes para a história portuguesa. Com a entrada na CEE (que já tinha sido demandada pelos próprios GNR, cinco anos antes) o futuro estava já ao virar da esquina e Portugal teria a possibilidade de se tornar moderno. Toda uma catrefada de produtos novos iriam aparecer nos supermercados. Todo um vocabulário novo passaria a ser usado. E os GNR listam isso mesmo na música que abre o disco – “Pós-Modernos” é um hino pop, atirando para cima da mesa os kleenex, a kitchenette, os duplex, o ketchup, o video-club, o joystick, o squash. Claro que o travo de ironia e sarcasmo de Reininho também marcam presença – “Ah! Os pós modernos agarram na angústia / E fazem dela uma outra indústria”, mostrando que talvez (mas só talvez…) os problemas não ficassem todos resolvidos assim. “Bellevue” é um registo mais tranquilo, onde sobressai a capacidade lírica de Reininho com os seus trocadilhos corrosivos – “Era só para brincar ao cinema negro / Os corpos no lago eram de gente no desemprego.” Uma grande música, de uma densidade tremenda.
A concepção dos discos era, na altura, pensada para o seu próprio formato (vinil), com o lado A e o lado B. Hoje, poucas vezes se pensa nisso, mas a escolha da ordem das músicas era em muito influenciada por este aspecto. A este propósito “Coimbra B”, puramente instrumental, servia de encerramento ao Lado A e agora é simplesmente a sexta música do álbum, antecedendo o single que carregou o disco para o grande público – “Efectivamente”, uma das maiores canções da cancioneiro português. Logo de seguida, outra canção imponente, “Ao Soldado Desconhecido”, ou como fazer um retrato do dilema constante de se ser recruta:
“Sempre que fui combater rastejei pelo chão Onde nem a beladona cresce tocando o musgo com a mão Descarnado de alma, mas mantendo a calma Dilacerado esforço em vão”
Em “Nova Gente” pisca-se o olho ao tropicalismo, com laivos de calypso, ao passo que “Choque Frontal” merecia estar na lista dos grandes êxitos da banda. Para fechar, e como não podia deixar de ser, temos resquícios de experimentalismo GNRiano (ou deveria dizer soaresiano?), em “To Miss”, cantada em inglês.
Após o lançamento de Psicopátria, os GNR atiraram-se de cabeça aos palcos, com ganas de mostrar o álbum a toda a gente. Segundo Reininho, foram mais de 100 concertos, inclusivé em Espanha e França, mas sobretudo chegando às salas grandes do país, os almejados Coliseus. O sucesso chegou antes das auto-estradas.