segunda-feira, 12 de maio de 2025

Steelhouse Lane - Metallic Blue [1998] & Slaves Of The New World [1999]

 



Mesmo em seus piores momentos na indústria da música, o Hard Rock de arena contou com fiéis representantes nos Estados Unidos. E poucos foram tão insistentes como Mike Slammer, guitarrista com passagem pelo Warrant, City Boy e Streets, além de produtor e compositor de grupos como House Of Lords, Big Bang Babies e Hardline. Com o apoio de bons amigos angariados após anos de trabalho, montou o Steelhouse Lane, investindo em um som genuinamente oitentista, com grandes influências de Journey, Van Hagar e afins. Apesar do cenário desfavorável, conseguiu uma pequena, porém ferrenha legião de fãs com seus dois lançamentos. Não são poucos que citam estes trabalhos como referenciais dos tempos de vacas magras do estilo.

Contando com o vocalista Keith Slack – indicação de James Christian – e o baterista Dewayne Barron, Mike lançou Metallic Blue. O disco trazia regravações de suas músicas que haviam sido utilizadas por outros artistas, como a potente faixa-título (House Of Lords), “Dr. Love” (Hardline) e “Addicted” (Wall Of Silence). Outros destaques vão para a baladaça “Find Your Way Home”, a cadenciada “Feel My Love” e a indefectível melodia de “Fire With Fire”. “Brighter Day” fecha de maneira instrospectiva, com uma influência que remete a tempos ainda mais distantes, especialmente na performance vocal de Slack, mostrando sua versatilidade.


A repercussão ao debut foi tão boa que não demorou mais que um ano para Slammer preparar um segundo disco. Dessa vez com uma formação completa, o resultado foi ainda melhor. Slaves Of The New World mostra-se um grande trabalho, ainda mais coeso, com melodias mais trabalhadas. Novamente algumas idéias foram reaproveitadas, como a ótima “Son Of A Loaded Gun”, escrita para a banda Eyes, além de “Find What We’re Looking For”, destinada originalmente ao Boston. Flando na turma das antigas, Steve Walsh (Kansas) aparece de co-autor em duas músicas, “If Love Should Go” e “The Nightmare Begins”.

A excelente “Give It All To Me” abre o play com a corda toda. Riff espetacular, vocalizações perfeitas e um refrão mais grudento impossível. É ouvir, sair cantando e nunca mais esquecer. A faixa-título traz uma pegada mais moderna e muito peso – claro que, de acordo com o estilo em que se encaixa. Lógico que tinha que rolar uma balada com forte carga emocional. E “All I Believe In” cumpre sua função, fazendo muitos recorrerem aos lenços de papel. Mas o Hard festeiro retoma o comando em “Into Deep”. Duas pérolas marcam a reta final, com as excepcionais “All Or Nothin’” e “Seven Seas”, que caíram na preferência dos adeptos.



Os dois discos tiveram lançamento nacional à época – na verdade, o segundo antes do primeiro, mas apenas um detalhe. Talvez, garimpando em algum sebo da vida, você consiga encontrar um perdido. Mais rercentemente, foram disponibilizados lá fora no formato 2 em 1. Apesar de não ter seguido em frente, o Steelhouse Lane deixou seu nome marcado e mostrou mais uma vez toda a capacidade de Mike Slammer. Dois trabalhos indispensáveis nas coleções dos admiradores de um Rock melódico bem tocado.


Mike Slamer (guitars, keyboards, bass)
Keith Slack (vocals)
Dewayne Barron (drums)

01. Metallic Blue
02. Surrender
03. Addicted
04. Find Your Way Home
05. Dr. Love
06. Still
07. Best Years of My Life
08. Can't Fight Love
09. Feel My Love
10. Fire With Fire
11. Can't Stop
12. Brighter Day


Mike Slamer (guitars, keyboards)
Keith Slack (vocals)
Chris Lane (guitars)
Alan Hearn (bass)
DeWayne Barron (drums)

01. Give It All to Me
02. Find What We're Lookin' For
03. Son of a Loaded Gun
04. Turn Around
05. Slaves of the New World
06. All I Believe In
07. Into Deep
08. The Nightmare Begins
09. All or Nothin'
10. Seven Seas
11. Where Are You Now




Black Sabbath - Master of Reality [1971]

 



Na época de sua fundação, o Black Sabbath nunca foi muito compreendido pela crítica (apesar das inesperadas altas vendas). A música obscura, pesada e depravada dos ingleses, enfim, só iria ser considerada genial muitos anos depois, como de praxe. E, como se não bastasse, em 1971, depois dos clássicos Black Sabbath Paranoid, Iommi e seus companheiros lançaram aquele que é um dos mais pesados de sua carreira.

Master of Reality capta uma fase da banda em que as drogas faziam parte de seu cotidiano (e principalmente do de Ozzy). Isso pode ser facilmente notado em várias faixas do play, como por exemplo na letra de "Sweet Leaf", que é praticamente uma declaração de amor para a própria erva. Por essas e por outras, o terceiro disco da carreira dos ingleses é considerado um dos pilares para a criação do chamado Doom Metal, gênero representado por bandas como Candlemass e Saint Vitus, que nunca negaram a influência do Sabbath em seu som.



Destaques ficam para a abertura com a chapada Sweet Leaf, para a ótima After Forever, para a porradona Children of the Grave e para o encerramento com a genial Into The Void. Outro clássico de uma das mais influentes bandas de toda a música.



Ozzy Osbourne - vocais
Tony Iommi - guitarras
Geezer Butler - baixo
Bill Ward - baquetas

01. Sweet Leaf
02. After Forever
03. Embryo
04. Children of the Grave
05. Orchid
06. Lord Of This World
07. Solitude

08. Into The Void





White Widdow - Serenade [2011]

 



 A cena do Hard/Melodic Rock foi pega de surpresa com a chegada de um verdadeiro furacão musical da Austrália. Com seu álbum de estréia, o White Widdow arrebatou uma verdadeira legião de seguidores. E não era para menos, já que o disco era um “crime perfeito” para os adeptos de um AOR extremamente pegajoso, totalmente influenciado pelos 1980s. Visando aproveitar o grande momento, o grupo não demorou a preparar um segundo petardo. Serenade mantém a estrutura do debut, sem correr riscos desnecessários. E tem tudo para arrebatar ainda mais fãs para a banda.

Desde a abertura, com “Cry Wolf”, fica clara a proposta. Melodia grudenta, execução pomposa, com guitarras e teclados se revezando na linha de frente – no solo, Enzo Almanzi incorpora George Lynch em seus momentos mais inspirados. “Strangers In The Night” tem potencial para single, com seu refrão marcante, assim como “Do You Remember?”, mais uma daquelas semi-baladas no melhor estilo Def Leppard de ser. O momento pede uma daquelas que faz a galera pular em show. E “Reckless Nights” faz a sua parte, com uma levada de empolgar. Quando parece que nada mais nos atinge, “How Far I Run” funciona como uma máquina do tempo, nos transportando a cada nota. Para ouvir e sair cantando junto.


Recém chegamos à metade. Será que haverá fôlego para manter o nível lá em cima? A faixa-título começa a nos responder. De início, parece que estamos diante de uma bela balada. Mas a impressão se dissipa segundos mais tarde, com uma pegada contagiante, além do refrão simples e direto. “Show Your Cards” vai fazer os fãs de grupos como Giant, Honeymoon Suite e Survivor vibrar, enquanto “Mistake” é estruturada nas seis cordas, trazendo um feeling mais pesado. A balada do play surge em “Patiently”, com mais um belo solo de Enzo, o grande destaque. Fechando em alto astral, “Love Won’t Wait”, lembrando o grande sucesso da estréia, “Broken Hearts Won’t Last Forever”.

É clichê? Sim, mas muito bem feito e empolgante, com músicos do mais alto nível, que conhecem o caminho que estão percorrendo como poucos. Se ainda havia alguma dúvida, agora dá para afirmar sem medo: o White Widdow é a maior revelação dos últimos anos no estilo! Fãs de Rock Melódico, eis a nova banda a figurar entre as suas preferidas de todos os tempos.


Julez Mephisto (vocals)
Enzo Almanzi (guitars)
Trixxi Trash (bass)
Xavier Mephisto (keyboards)
Jim (drums)

01. Cry Wolf
02. Strangers In The Night
03. Do You Remember
04. Reckless Nights
05. How Far I Run
06. Serenade
07. Show Your Cards
08. Mistake
09. Patiently
10. Love Won’t Wait




Spirit - Twelve dreams of Dr. Sardonicus

 




O Spirit provavelmente era eclético demais para seu próprio bem. Embora tivessem o mais alto nível social no mundo do rock naquela época (saindo com Hendrix em apartamentos de Nova York e tudo mais), o adolescente Randy California e sua turma nunca conseguiram criar aquele som de sucesso definitivo ou uma direção acordada que os tornaria tão conhecidos quanto, bem, quem quer que seja.

Álbum de rock psicodélico extremamente bom e com som raro. Músicas muito diversas e emocionantes... composição épica com músicas que fazem transições suaves umas para as outras. Um clássico honesto de álbum, e uma banda que provavelmente deveria merecer mais crédito por isso.

Um álbum que não vendeu bem quando foi lançado, mas continua nas listas dos dez melhores de muitos críticos e fãs. Todas as músicas são ótimas. A versão relançada em CD tem vários cortes bônus ou alternativos — bom ter, mas as músicas originais valem o preço sozinhas.

O Spirit retorna ao caminho das incipientes propostas progressivas para nos deleitar com uma obra de caráter conceitual que se compõe de belíssimas passagens acústico-folk com grandes melodias pop e encantadoras harmonias vocais que dividem espaço com cenários intimamente ligados ao: hard rock, country e jazz; outros se baseiam nas “influências principais” de The Jimi Hendrix Experience, Traffic, The Beatles e Cream. Uma obra FUNDAMENTAL e de CULTO.

Doze Sonhos, Uma Visão: A Ponte Entre a Psicodelia e o Progressivo

Em seu quinto álbum, Twelve Dreams of Dr. Sardonicus , o Spirit embarca em uma empreitada tão ambiciosa quanto envolvente. O álbum não só apresenta uma proposta sonora rica e multifacetada, mas também insinua —do título à execução— um desejo por arte total, onde cada faixa é um fragmento onírico dentro de uma grande tapeçaria conceitual. Falar em doze sonhos dentro do rock pode parecer pretensioso ou excessivamente pomposo, mas nas mãos dessa banda californiana, a fórmula encontra um equilíbrio que beira o visionário.

Nesse ponto de sua carreira, Spirit começa a abraçar sem medo uma estética muito mais ligada à arte e à experimentação. Há uma mudança clara em direção ao progressivo, não necessariamente na virtuosidade técnica, mas na maneira como o álbum é concebido como uma experiência holística. A banda toma liberdades, se eleva e constrói, com notável solvência, uma obra que exala vanguarda, ousadia e, por vezes, um refinado senso de delírio. Ouvi-lo é como entrar num laboratório sonoro onde as intuições psicodélicas dos anos 60 se fundem com os primeiros traços do rock progressivo que começava a ganhar forma pelo mundo. A semente já havia germinado com o Rei Carmesim como um dos grandes estandartes, enquanto em cantos mais distantes do mapa — de Traffic Sound, no Peru, a Omega, na antiga Iugoslávia — as primeiras visões daquele "progressismo primitivo" estavam sendo tecidas, que ainda não havia estabelecido uma escola, mas já era anunciado. O Dr. Sardonicus é, nesse sentido, uma peça-chave para entender como o germe progressivo se movimentou em suas primeiras mutações. Concebida no final dos anos 60 e nascida no início dos anos 70, esta obra oferece um vislumbre dos princípios insurgentes de uma nova maneira de entender o rock: mais ambiciosa, mais narrativa, mais artística. É um elo natural entre a psicodelia e o movimento progressista que estava chegando com força.

Pessoalmente, acredito que este álbum vai além do status cult: ele se tornou merecidamente um dos clássicos imortais. Tem uma performance sólida, arranjos muito bem elaborados e uma execução instrumental que rivaliza com os maiores nomes do gênero. Foi este álbum que abriu meus ouvidos para novas maneiras de apreciar o período entre 1969 e 1971, uma época de expansão, laboratório criativo e empreendimentos ousados. Há uma doçura em seu conceito, uma precisão quase alquímica na maneira como Spirit consegue fundir estilos, gerar atmosferas e produzir músicas psicodélicas com elegância singular. Eu não diria que eles estão no nível do Caravan ou do Genesis, mas certamente beiram essa linhagem com dignidade. Talvez eu esteja exagerando, talvez meu entusiasmo esteja me traindo, mas é assim que me sinto toda vez que deixo o Dr. Sardonicus me levar a um de seus sonhos. Até mais.

01.Prelude/Nothin' To Hide
02.Nature's Way
03.Animal Zoo
04.Love Has Found A Way
05.Why Can't I Be Free
06.Mr Skin
07.Space Child
08.When I Touch You
09.Street Worm
10.Life Has Just Begun
11.Morning Will Come
12.Soldier

CODIGO: G-23

MUSICA&SOM ☝




Red Dirt - Same

 




Esta raridade de uma grande gravadora com a capa icônica de Geronimo é um álbum bem variado, desde a excelente abertura psicodélica e sonhadora "Memories" com cordas até o blues rock sujo e cruel com vocais ásperos, canções de blues despojadas com boa slide guitar até algum tipo de canção folk acústica "Death of a Dream". Bela reedição limitada (500) tirada das fitas master originais.

Blues rock lo-fi e metálico com um toque folk. Parece que foi gravado em um salão alugado, com os microfones mais baratos disponíveis.

Imagino que esses caras provavelmente se tornaram vendedores de vinil, dizendo a si mesmos que faziam parte da cena psicodélica dos anos 60/70.

Um bom álbum em sua mistura de blues e da psicodelia pesada da cena freak britânica, embora um pouco difícil de digerir no começo. A voz e algumas músicas meio country são o que tornam o álbum um tanto irregular.
Alberto Carrelero

Acho muito legal que ele valha tanto (o álbum), mas é difícil entender que algo tão valioso nunca tenha sido totalmente utilizado, nunca tenha rendido dinheiro com ele. Eu abri mão da minha vida por cinco anos em troca de nada. Perdi meu emprego só para ganhar dinheiro para aquela banda. Descobrir que as pessoas estão lucrando com algo que não me pertenceu há 40 anos é um saco. Tenho uma cópia original, é uma marca branca, e não a comprei na época porque estava sem dinheiro, não tinha dinheiro para comprá-la! É muito tentador, mas eu não a venderia, pois é a única lembrança que me resta da banda.
Steve Howden

Terra Vermelha: Os Filhos da Lama Não Têm Pai

LONDRES, 1970 – Há álbuns que explodem nas paradas e se tornam lendas nos estádios. E há outros, como Red Dirt , que rastejam pelos corredores do anonimato, evitando a fama, acumulando poeira... até que um dia eles ressurgem como o cálice sagrado do rock underground. Ninguém esperava muito daquele álbum. A produção foi um caos de cronograma e exaustão. O lendário estúdio Morgan deu a eles uma janela de gravação que beirava o ridículo: da meia-noite às 6 da manhã. Doze horas contra o relógio, sem descanso ou rede de segurança. Eles gravaram tudo de uma vez. Sem pausas. Sem segundas tomadas. Não há espaço para pensar. O resultado? Um disco cru, sujo e áspero. E ainda assim, com um fogo que transparece pelas costuras. Um álbum que não brilha pela performance, mas sim pelo que representa: um chute desesperado na porta do esquecimento.

A gravadora Fontana Records mal deu atenção a isso. Cem cópias jogadas ao vento — sim, 100 cópias — e uma distribuição limitada apenas à Inglaterra. Nenhuma turnê promocional, nenhuma entrevista, nem mesmo um mísero anúncio nos jornais locais. Era como se eles quisessem que o álbum morresse antes de nascer. E, no entanto, o Red Dirt já tinha uma reputação construída nos bares, nas noites elétricas de Yorkshire, onde seus shows se tornaram rituais de suor e distorção. Eles eram uma banda cult antes de lançarem um álbum. Mas a indústria, com seu olfato apático, não conseguiu enxergar o que tinha em mãos. Com o passar dos anos, o álbum se tornou um mito. Quem tem uma cópia original, tem uma relíquia. Uma pedra sagrada comercializada como contrabando em feiras de colecionadores. Gravações de baixa fidelidade estão circulando na Internet. E, no entanto, aqueles que os ouvem juram que algo especial bate lá dentro. Red Dirt não é perfeito. Ele não quis dizer isso. É um álbum gravado com unhas e dentes, no limite do tempo, por uma banda que nunca teve a chance que merecia. Mas é justamente por isso, por esse gostinho de derrota digna, que conseguiu entrar no Olimpo dos álbuns cult.

Há álbuns que sobrevivem, lutam e conseguem fazer seu nome na história. Este não teve os holofotes, a imprensa ou o orçamento. Mas havia verdade nisso. E nesse negócio, a verdade não pode ser comprada: ela é gravada às três da manhã, em meio a bocejos, guitarras desafinadas e microfones emprestados. Red Dirt é o tipo de disco que você não procura: ele te encontra. Ele pega você quando você baixa a guarda. Quando você não espera mais nada. E isso nos lembra por que continuamos escrevendo sobre música, mesmo que ninguém nos peça.

Impressões Pessoais: Crônica de uma sessão de escuta entre terra vermelha e miragens

Red Dirt começa a girar como certas memórias giram: sem aviso, sem permissão, sem bússola. É um álbum que me deixa uma impressão difícil de definir, algo como um gosto que não dá para nomear. Não é ruim, mas também não brilha. É mais um animal estranho que não sabemos se abraçamos ou deixamos fugir em seu próprio delírio.

O álbum é versátil, mutável, errático. Ele tem uma atitude convincente, um jeito sujo e um tanto arrogante que às vezes beira o psicodélico, o ácido, o corrosivo. Fiquei cativado pela textura, aquele som como se tivesse sido gravado no subsolo, num porão com cheiro de cabos queimados e bebida barata. E ali, no meio desse turbilhão, o country e o folk se infiltram — e confesso que é aí que as coisas começam a vacilar. Torna-se mais irregular, como se a banda de repente duvidasse de sua própria linguagem, de sua própria raiva. Ele se dissolve. Mas mesmo nessa diluição, algo permanece. Há pólvora nessas canções. Um fogo queimando abaixo da superfície. Um som grosso, quase lamacento, que me lembra do The Doors tocando em uma tempestade de lama ou do Captain Beefheart fazendo seu show com suas botas sobre brasas. Não é uma coincidência. A influência está lá, como uma tatuagem mal disfarçada.

Red Dirt é uma colagem, um mosaico feito de pedaços de rock, blues, psicodelia, folk e country. É como uma pintura que, vista de perto, parece uma bagunça, mas de longe adquire uma certa harmonia indecifrável. Não há hinos aqui. Nenhuma música surge como padrão. São devaneios bastante mornos, passagens lisérgicas que flutuam entre a aspereza e a calma, buscando uma forma, uma direção, uma razão. E ainda assim... há algo. Um flash. Um gesto. Uma pitada de coragem. Porque, embora o álbum não consiga se destacar musicalmente como outros grandes totens do gênero, ele deixou muita carne na grelha. Ele deixou sua marca. Ele deixou a atitude. Deixou um mistério. E isso, nestes tempos em que tudo parece já ter sido dito, vale ouro. Não é um álbum para todos os dias, mas é para aquelas noites em que a alma precisa chafurdar na lama da imperfeição. E ali, bem ali, Red Dirt encontra seu lar. Trabalho de culto. Sim. Eles estão servidos. Até mais.


01. Memories
02. Death Letter
03. Problems
04. Song for Pauline
05. Ten Seconds to Go
06. In the Morning
07. Maybe I'm Right
08. Summer Madness Laced with Newbald Gold
09. Death of a Dream
10. Gimme A Shot
11. Brain Worker
12. I've Been Down So Long Bonus
13. Mixed Blessing
14. Wilting Tree
15. Three Fair Maidens
16. Back Alley Sally

CODIGO: M-7

MUSICA&SOM ☝





Skin Alley - Same

 




No princípio era a nota da flauta
O álbum abre com a música "Living in Sin", que funciona como uma espécie de tour de force perdido do Jethro Tull, e depois desse começo efetivo o álbum continua da maneira mais efetiva também. "Vimos a lua vermelha, encontramos estrelas suaves, brincamos numa encosta, estivemos em montes de areia. Compreendemos a tortura, distinguimos o céu do inferno..." O estilo é um rock progressivo elaborado com uma dose generosa de música barroca, então o álbum é muito exuberante e complexo.

Muito bom prog com toques de jazz, com sax, órgão e guitarra. O álbum foi gravado em novembro de 1969 e provavelmente representa seu auge. Daí em diante foi só ladeira abaixo.

O fogo secreto do ecletismo: quando uma banda menor entrega uma obra maior

Nos dias em que o sol batia em Londres com mais ideias do que luz, o Skin Alley acendia seu motor de alquimia musical. O ano era 1969 e a música progressiva britânica ainda carecia de padrões definitivos, mas uma febre de liberdade estrutural e exploração tímbrica já estava no ar. Nesse ambiente efervescente, essa banda de segunda linha (pelo menos em termos de fama) fez uma estreia de primeira, uma joia sombria que brilha mais quanto mais é esquecida.

O deles não é um virtuosismo extremo nem uma sinfonia ambiciosa, mas sim uma delicada colisão de gêneros, em um som que respira blues, flerta com jazz, evoca folk e é envolto em psicodelia. As flautas, os saxofones, o sempre presente Hammond: tudo é arranjado com aquele frescor que só acontece quando as regras ainda não estão escritas e os músicos compõem como se estivessem esculpindo um sonho. Skin Alley parece mais uma manifestação de desejo do que uma proclamação de poder. Há atitude, há energia, há um charme um tanto desleixado, mas encantador, que percorre os sulcos desta obra. É uma música que corta a neblina com sua própria lanterna, sem precisar ser grandiloquente, mas deixando sua marca em quem olha além da superfície. E embora a banda nunca tenha alcançado o Olimpo da música progressiva — permanecendo na sombra de gigantes como King Crimson, Caravan e Gentle Giant — este primeiro álbum revela uma clareza criativa que seria diluída em lançamentos posteriores, mais polidos, mas menos corajosos.

É uma obra essencial? Talvez não. Mas é uma peça emblemática da música progressiva embrionária, aquela fase em que a admiração ainda pulsava e onde o ecletismo era sinônimo de liberdade, não de indecisão. Um álbum cult, sem dúvida. Não porque ele é perfeito, mas porque ele não ousa ser. Até mais 

01. Living In Sin
02. Tell Me
03. Mother Please Help Your Child
04. Marsha
05. Country Aire
06. All Alone
07. Night Time
08. Concerto Grosso (Take Heed)
09. (Going Down This) Highway
 

CODIGO: I.1-27

MUSICA&SOM ☝





Frame - Frame of Mind

 




Este único LP desses roqueiros progressivos alemães é um disco muito bom. Nada excepcionalmente bom, mas no geral é um pacote sólido e vale a pena experimentar se você gosta de prog, heavy psych ou krautrock. O maior destaque aqui é a longa "All I Really Want Explain", que é uma faixa muito boa. O álbum é um conjunto bastante equilibrado e todas as músicas cumprem muito bem o seu papel.

Evocação em tom menor: estrutura mental e a miragem da métrica progressiva
por The Mothman

Na cena alemã do início dos anos 1970, onde o krautrock rugia como uma fera livre e as texturas experimentais ultrapassavam os limites do cânone progressivo britânico, surgiu o Frame, uma banda que escolheu não pisar totalmente no acelerador psicodélico, mas, em vez disso, permanecer no limiar entre o hard rock melódico e o art rock limpo. Seu único álbum, "Frame of Mind" (1972), é uma excentricidade deliciosa: não por ser revolucionário, mas por seu compromisso ousado com uma fórmula familiar, executada com convicção quase teatral.

A primeira coisa que você sente ao entrar em seus grooves é o domínio absoluto do Hammond, como um farol envolvente que guia as estruturas de cada música em direção a uma zona de conforto adornada com ecos de Cressida, aromas de Still Life e lampejos daquele barroco sonoro que definiu uma geração de músicos alemães fascinados pela escola inglesa. É verdade: Frame não está aqui para reinventar o jogo, mas sim para jogá-lo com a elegância de alguém que conhece as regras de cor. A guitarra não foge, mas segura firme. A bateria se permite mudar o andamento, mas sempre com sobriedade. E os teclados... ah, os teclados! Eles são o coração pulsante deste álbum, impregnado de um romantismo sonoro que não tem medo de excessos ou dramas refinadamente ajustados.

No que alguns chamariam de "obra de segunda categoria", outros descobrem uma peça de resistência digna das coleções mais seletas. Não por grandiloquência, mas por caráter. Frame of Mind não é um monstro do prog, mas é uma prova sólida de como um álbum pode flutuar entre gêneros sem naufragar, com uma identidade que se revela a cada audição, como os detalhes ocultos em uma pintura de Brueghel.

Curiosidade: o álbum foi gravado no lendário Dierks Studios, conhecido por receber grandes nomes do kraut e do heavy metal alemão. Apesar disso, Frame permaneceu à margem, como aqueles cometas que cruzam o céu uma vez e desaparecem, deixando apenas o rastro de seu brilho fugaz.

A capa, embora intrigante, não é muito fiel à música que contém. É mais uma sugestão simbólica do que uma descrição sonora. Em vez disso, o conteúdo cumpre uma promessa implícita: ser uma jornada culta, construída com chaves, paixão e aquela pitada de excentricidade que transforma um álbum comum em memorável.

Resumindo: Frame of Mind é um álbum cult não por sua inovação, mas por sua capacidade de sugerir outras realidades possíveis dentro do mapa progressivo. Como uma carta esquecida nas dobras da história, este álbum merece ser lido, ouvido e redescoberto com pouca luz e com a mente aberta. Ideal para quem acredita que o Hammond é uma religião e que o rock progressivo, mesmo em suas formas mais contidas, continua sendo um convite à viagem. Até mais.

01.Frame Of Mind
02.Crusical Scene
03.All I Really Want Explain
04.If
05.Winter
06.Penny For An Old Guy
07.Childrens Freedom
08. Truebsal

CODIGO: I.1-16

MUSICA&SOM ☝






Beefeaters - Meet you There

 




Este segundo álbum dos Beefeaters é quase tão bom quanto seu antecessor S/T. Dessa vez o material é ainda mais voltado para o blues rock e na maioria das vezes essas músicas cumprem muito bem o seu papel. Há alguns elementos psicodélicos e jazzísticos neste disco, mas, como eu disse, ainda é basicamente um álbum de blues rock do começo ao fim.

Um ótimo álbum discreto de blues dinamarquês. Quem diria. Se você tiver em vinil, o lado 1 estará praticamente perfeito.

Encontro você lá: sussurros dinamarqueses entre teclas e fumaça azul

Em meio à agitação cultural que foi a segunda metade da década de 1960, enquanto Londres fervilhava de minissaias, cítaras e expressões psicodélicas, algo brilhou mais ao norte: a Dinamarca, o país mais conhecido pelos contos de fadas, pela cerveja preta e pelos vikings do que pelo rock, tinha algo a dizer... e disse isso com Fuzz.

Os Beefeaters, uma banda dinamarquesa formada em 1963, não foram apenas pioneiros do beat e da psicodelia escandinavos, mas também serviram como uma ponte entre a invasão britânica e a contracultura nórdica. O som deles tem aquela mistura perigosa: guitarras com delay líquido, órgãos Farfisa polvilhados com poeira lunar e uma vibe de porão onde os sonhos soam como ecos elétricos. O álbum "Meet You There" (embora seja mais uma coletânea de singles e raridades do que um LP oficial), tornou-se com o tempo uma daquelas peças que os colecionadores veneram em sussurros, como se falar muito alto pudesse fazer o vinil se desintegrar. Sua mistura de garage, blues e psicodelia antiga lhe dá aquele sabor cru, visceral e hippie que parece gravado em uma noite de neblina com LSD.

Naquela época, a Dinamarca estava começando a se tornar um centro underground da psicodelia europeia. A comunidade de Christiania ainda não existia (nasceu na década de 1970), mas o espírito já estava germinando em clubes como o Klub 47, onde bandas como os Beefeaters abriam para visitantes britânicos e fumavam eletricidade com estilo. Eles eram os filhos bastardos dos Animals, dos Pretty Things e dos Yardbirds, mas com um sotaque nórdico e um ritmo próprio.

Impressões pessoais:  Notas que não arranham, mas aquecem

Às vezes, os discos não chegam como um raio, mas como um vapor que se infiltra por baixo da porta. Este foi “Meet You There”, um álbum que não grita, não exige, mas se instala suavemente como um convidado elegante que sabe o que veio buscar. Coloquei-o sem muitas expectativas numa tarde quente e enevoada e, sem perceber, o Hammond já estava conversando comigo em uma língua que eu não conhecia, mas entendia.

Não há fogos de artifício nem delírios cósmicos. Não há trajes prateados nem paredes derretidas. O que temos é maturidade, uma palavra que nem sempre soa sexy na contracultura, mas que aqui se veste de blues, jazz e uma sobriedade que não tem medo de ser charmosa. É como se a banda tivesse dito: "Podemos ser sofisticados, sim, mas sem perder aquela rudeza que nos fez músicos ". O Hammond… ah, o Hammond! Aqui ela não me acompanha: ela dita o tom, desenha o mapa e às vezes até respira por mim. As flautas seguem, sem roubar a cena, mas dando-lhe um aroma, como aquelas notas de incenso que permanecem depois de uma sessão. A guitarra não morde, mas acaricia com dedos manchados de fumaça e blues. E quando tudo isso se junta, o que você ouve não é apenas uma música: é uma arquitetura sonora equilibrada.

Este disco tem classe, mas também força. Ele caminha com firmeza, com sapatos de couro envernizado que pisam em poças d'água. É um blues que aprendeu a ler Coltrane e a olhar para o céu sem se confundir. Há momentos em que quase ouvimos os Beefeaters piscando para o futuro, com estruturas que flertam com o progressista, como se, através de tanta experimentação, tivessem acidentalmente aberto uma porta para o amanhã. Parecia um brinde tranquilo em um antigo bar de madeira, em um clube dinamarquês que não existe mais. E enquanto “Now I Know” tocava , pensei ter ouvido — muito discretamente — os aplausos de Alexis Korner, que certa vez subiu ao palco com eles e deixou sua marca como uma tatuagem invisível. Este álbum não quer conquistar o mundo. Ele só quer encontrar alguém disposto a ouvi-lo atentamente, com devoção, com fones de ouvido e uma taça de vinho tinto. E se você é um deles, então… sim. Nós nos encontramos lá. Até mais.


01.I'll Meet You There
02.You Changed My Way Of Living
03.Night Train
04.Now I Know
05.Serenade To A Cuckoo
06.Stormy Monday
 

CODIGO: E-40


MUSICA&SOM ☝






Darrell Banks - Here To Stay (1969)

 



Foram necessários apenas dois álbuns e um punhado de singles para que ele se tornasse uma lenda...

Para nós que amamos esse gênero e conhecemos a música de Darrell Banks , um sentimento amargo percorre nossas entranhas quando vemos que o reconhecimento e a difusão de seu trabalho são insuficientes . Apenas o single "Open The Door To Your Heart" teve um leve impacto nas paradas da época, injusto, mas é verdade...

Depois de gravar "Darrell Banks Is Here!" Pelo selo ATCO (um ótimo álbum que já postamos na época), nosso admirado músico dá o salto para a subsidiária da Stax Records , a lendária Volt . Todo o esquema foi arquitetado entre os estados de Michigan e Tennessee , com o produtor Don Davies no comando do projeto. "Here To Stay" tornou-se então um elo entre os sons do Northern Soul e do Southern Soul , um delicioso híbrido musical que, ao longo das décadas, atrairia a atenção dos fãs dos sons de Detroit e Memphis. 

Estamos diante de um maravilhoso vocalista do Soul , que nos leva inexoravelmente, como nos casos de  Otis Redding  ou  Sam Cooke , a nos fazermos a eterna pergunta sem resposta: Que mais preciosidades musicais ele poderia ter nos dado se sua vida não tivesse sido interrompida de forma tão trágica e retumbante?...

Para o deleite dos nossos ouvidos, a gravadora britânica ACE Records  recuperou com carinho e cuidado parte do legado desta lenda do Soul. Há apenas alguns meses, ele publicou o sensacional "I'm The One Who Loves You - The Volt Recordings" , onde além de "Here To Stay" você pode encontrar oito faixas, entre singles e material inédito, de sua última sessão de gravação para o Volt em dezembro de 1969 . Não hesite em comprá-lo se puder, pois definitivamente vale a pena.

1. Just Because Your Love Is Gone
2. Forgive Me
3. Only the Strong Survive
4. Don't Know What to Do
5. When a Man Loves a Woman
6. We'll Get Over
7. Beautiful Feeling
8. I Could Never Hate Her
9. Never Alone
10. No-One More Blinder (Than Who Won't See)
11. My Love Is Strictly Reserved for You







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