Vai fazer três anos que o Brasil perdeu uma de suas mais notáveis intérpretes. A baiana da voz de cristal nos deixou em novembro do ano passado, quando sua cinebiografia estava em plena produção, contando com apoio da própria e dos parceiros de jornada, Caetano e Gil. A cantora é interpretada de forma magistral pela atriz Sophie Charlotte, em mais uma atuação que a credencia ao posto de diva da dramaturgia brasileira, naipe Fernanda Montenegro, para um futuro próximo, já que empilha papéis diversos e exuberantes seja em filmes, peças, séries ou novelas. Entretanto, o filme, que assisti no último fim de semana, deixa um gostinho de que Gal merecia mais pela sua importância cultural para o Brasil. Mas é impossível não se emocionar.
A morte de Gal, aos 77 anos e ainda em pleno vigor, abalou o meio musical e está envolta em uma misteriosa trama que implica sua companheira e empresária Wilma Petrilo. Parceira em mais de 20 anos, ela é acusada de abusos e golpes pelos amigos mais próximos da cantora e está sendo investigada em processo sigiloso. O filme, no entanto, não focaliza essa fase ou toda a longa e rica carreira da cantora. Restringe-se ao período inicial, quando ela deixa a Bahia em 1966, aos 20 anos, para mostrar seu talento no fervilhante cenário do Rio de Janeiro da época, incentivada pelos amigos Caetano e Gil e no embalo do sucesso recentemente conquistado pela também baiana Maria Bethânia.
Meu nome é Gal tem direção dividida entre Lô Politi e Dandara Ferreira, que também interpreta Bethânia. A produção mistura cenas reais de um Brasil conturbado pelo acirramento da ditadura militar, das ferrenhas disputas dos lendários festivais de música e o nascimento do fundamental movimento tropicalista, pontuado pelos baianos junto a uma geração de artistas brilhantes, que emergiu no período motivado pela resistência à alienação truculenta da sociedade, imposta pelo regime de exceção. Aos poucos, a charmosa timidez da cantora vai dando lugar a uma personagem cada vez mais engajada, libertadora e ativa, especialmente ao mostrar sem filtros sua sexualidade e quando seus amigos são presos e obrigados a se exilar no exterior. E esse é o limite temporal do filme, que termina de forma abrupta dando um gosto de incompletude ou de que ela merecia mais, muito mais.
Outro aspecto pouco cuidadoso da produção é a rápida transposição dos diferentes períodos da história, que podem tornar confusa a compreensão do espectador menos antenado. As passagens de tempo são marcadas pelas mudanças de visual e vestimentas dos personagens, o que também não deixa de ser um recurso interessante, mas de identificação restrita aos que conhecem melhor as artimanhas daqueles tempos de transformação e desbunde.
O elenco é um tanto quanto irregular. Além da impecável atuação de Sophie, o destaque vai para Luis Lobianco, que interpreta o empresário Guilherme Araújo, responsável por lançar a carreira de Gal e que acompanha os passos de Caetano até hoje. Com um humor equilibrado, Lobianco ameaça roubar a cena sempre que aparece. Outro bom desempenho é o de Chica Carelli, que interpreta a mãe da cantora. Rodrigo Lélis está okay no importante papel de Caetano Veloso, mas Dan Ferreira se mostra bem deslocado e mal caracterizado como Gilberto Gil, outro importante personagem na história de Gal, assim como Dedé Gadelha, namorada de Caetana na época, que recebeu interpretação bem equilibrada de Camila Márdila.
A irregularidade do elenco não chega a comprometer, nem mesmo a atuação caricata e bem aquém do talento de George Sauma, numa inverossímel interpretação de Waly Salomão, parceiro fundamental de Gal na composição do sucesso Vapor Barato, junto com Jards Macalé. A propósito, há momentos do filme em que os personagens no entorno da protagonista parecem ser mais relevantes na história. Por mais fundamentais que eles sejam, o foco é a história da cantora, que só não cai para segundo plano por causa da atuação firme de Sophie.
A parte musical é uma atração especial do filme. Também é retratada de forma rápida e desprovida das principais referências, além do excesso de filtro para caracterizar gravações antigas. Há cenas em que a própria Sophie canta e há aquelas dubladas, num equilíbrio que parece ideal para uma produção do gênero. Longe de ser brilhante e mesmo com todos os defeitos, é um filme arrebatador e obrigatório para os amantes da rica música brasileira. A força e o carisma de Gal são essenciais para que o espectador saia satisfeito do cinema. Vale a pena assistir.
"Whipping Post", inesquecível canção da Allman Brothers Band, foi escrita por Gregg Allman. A versão original com 5 minutos em estúdio apareceu no álbum de estreia da banda (de nov/69). Ela era regularmente tocada ao vivo e tornou-se base para versões muito mais longas e intensas. Uma dessas históricas versões foi capturada no duplo ao vivo "At Fillmore East" (de jul/71) contando com quase 23 minutos de duração. Aliás, esta versão no Fillmore (gravada em 13/mar/70) já foi considerada uma das maiores performances de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Gregg Allman tinha apenas 21 anos quando a canção foi gravada pela primeira vez, mas sua composição data do final de mar/69, quando a banda foi formada. Gregg não tinha conseguido se firmar como músico em Los Angeles e pensava em parar de tentar, quando seu irmão Duane o contactou e disse que sua nova banda precisava de um cantor. Gregg lhe apresentou 22 canções suas, mas apenas "Dreams" e "It's Not My Cross To Bear" se encaixavam. Gregg, o único compositor do grupo na época, recebeu a incumbência de criar outras canções que se encaixassem melhor no contexto da nova banda e, nos 5 dias seguintes, ele escreveu várias, incluindo "Whipping Post". As dificuldades de Gregg no mundo da música forneceriam parte da inspiração temática para aquela nova canção. Mais tarde, ele contou: "Veio tão rápido. Eu nem tive chance de pegar papel. É assim que surgem as boas canções. Elas simplesmente te atingem como uma tonelada de tijolos". A letra girava em torno de um poste de chicotada metafórico, uma mulher má e muita tristeza existencial. A música tinha uma estrutura que permitia milhares de possibilidades em termos de expansão dos solos. O resultado foi descrito pela Rolling Stone como "um hino eterno repleto de imagens melancólicas e atormentadas do Blues". A versão original foi gravada no dia 7/ago/69 no Atlantic Recording Studios, em NYC. Adrian Barber foi o produtor. A banda passou o dia inteiro tentando a melhor performance. Mas nada poderia deixar entrever a performance registrada no "At Fillmore East". Berry Oakley inicia com a estrondosa abertura (que a Rolling Stone descreveu como "impulso assustador"). Esta introdução se desenvolvia com a chegada das "dual lead guitars" de Duane e Dickey Betts, antes do órgão Hammond de Gregg também se juntar a eles. A entrega vocal de Gregg estava em outro patamar e culminava no refrão no qual ele coloca ênfase no trecho "Like I've been tied to the whipping post". De arrepiar. Longos segmentos instrumentais se espalham entre interlúdios pungentes, solos complexos de Duane e Betts e a todo volume, até o clímax. Mas, ao invés de permanecer na forma esperada da canção e retornar aos vocais, aos 10 minutos, a banda toma um rumo inesperado. A dinâmica é reduzida a um silêncio quase completo e o andamento desacelera e quase desaparece criando uma parte livre/abstrata. Betts faz algumas linhas jazzísticas contra o baixo de Oakley, enquanto Duane fornece acordes melancólicos em contraponto junto com um ocasional órgão. rola até algumas canções de ninar, motivos eruditos, riffs de Blues... esta sublime parte já foi descrita como "um salto para o desconhecido", com um sentimento de que tudo poderia desmoronar a qualquer momento. Mas Dickey continua, Butch Trucks ganha destaque e, aos 21 minutos Gregg volta aos vocais antes de Duane liderar a banda para o final. Ainda nas últimas notas, o público explode em aplausos. A música então não para. As baterias continuam e os guitarristas soltam a linha principal de "Mountain Jam". No vinil original, esta versão acabava aqui. Mas quando foi lançado "Eat A Peach", todos nós conhecemos a continuação de 33 minutos! Acachapante é pouco. Para ser ouvida no volume máximo!
Whipping Post / Pelourinho
I been run down, I been lied to / Eu fui passado para trás, fui enganado
I don't know why I let that mean woman make me a fool / Não sei porque deixei essa mulher me fazer de bobo
She took all my money, wrecked my new car / Ela levou todo meu dinheiro, bateu meu carro novo
Now she's with one of my goodtime buddies / Agora, ela está com um dos meus melhores parceiros
They're drinkin' in some crosstown bar / Estão bebendo em algum bar de beira de estrada
Sometimes I feel, sometimes I feel / Às vezes eu sinto, às vezes eu sinto
Like I been tied to the whipping post / Como se estivesse amarrado ao pelourinho
Tied to the whipping post / Amarrado ao pelourinho
Tied to the whipping post / Amarrado ao pelourinho
Good Lord, I feel like I'm dyin' / Bom Deus, eu me sinto como se estivesse morrendo
My friends tell me, that I've been such a fool / Meus amigos me dizem que eu tenho sido um idiota
And I have to stand by and take it baby, all for lovin' you / E eu tenho que ficar quieto e aguentar, querida, tudo porque te amo
Drown myself in sorrow, and I look at what you've done / Me afoguei em tristeza, e olhe o que você fez
But nothin' seems to change, the bad times stay the same / Mas nada parece mudar, os tempos difíceis continuam os mesmos
And I can't run / E eu não consigo fugir
Sometimes I feel, sometimes I feel / Às vezes eu sinto, às vezes eu sinto
Like I been tied to the whipping post / Como se estivesse amarrado ao pelourinho
Tied to the whipping post / Amarrado ao pelourinho
Tied to the whipping post / Amarrado ao pelourinho
Good Lord, I feel like I'm dyin' / Bom Deus, eu me sinto como se estivesse morrendo
Grupo magistral que mistura o fino do folk britânico, com prog e jazz, o Magna Carta desfrutou de alguma repercussão durante sua existência, mas por aqui (e com o passar do tempo) mergulhou na obscuridade. Natural de Yorkshire, sua trinca de álbuns iniciais, lançada pelo lendário selo Vertigo é de uma beleza monstruosa. Sua sonoridade rica e melodiosa transmite uma paz inebriante até para o mais sanguinário miliciano do Hamas. A banda começou como um trio, continua ativa e lançou álbuns até a década passada, sempre em torno de seu fundador, o baterista, violinista, vocalista e multi instrumentista Chris Simpson. Destaque total para o primeiro, de 1969; Seasons, de 1970 e o terceiro, de 1971, Songs for Wasties Orchard. Lord of Ages, de 1973 também vale uma atenta conferida. E o ao vivo, de 1972 não se pode desprezar.
Depois de se formar na faculdade, Simpson trabalhou em diversas atividades, incluindo assistente de necrotério e engenheiro de tráfego, mas o que ele gostava mesmo era de tocar guitarra à noite, fosse em bares ou em sarais em casas de ricos e famosos. Até para a Família Real ele se apresentou. Acompanhado de orquestra ou banda, ele foi desenvolvendo sua musicalidade e quando Bob Dylan e Joan Baez desembarcaram no Reino Unido para um tour ainda nos anos 60, ele anteviu um movimento que estava para surgir forte.
Sempre muito bem visto no meio musical, não foi difícil para ele reunir um ótimo trio e conquistar a confiança do então incipiente projeto do selo Vertigo, uma aposta da Philips/Phonogram para adentrar no promissor mercado do rock que se desenhava no alvorecer dos anos 70. No primeiro disco, o baixista Danny Thompson fazia parte do grupo, que se tornou um trio paras dois álbuns seguintes, com Lyell Tranter na guitarra e vocais, e o tecladista e excelente vocalista Glen Stuart. O grupo se notabilizou por conseguir acompanhamento de ótimos músicos, como Rick Wakeman, que participa do segundo trabalho. O futuro guitarrista de Elton John, Davey Johnstone gravou parte das guitarras no terceiro disco, já que Tranter deixou a banda no decorrer das gravações. Daí por diante as mudanças seriam constantes, mas a qualidade se manteria intacta.
As influências mais nítidas na sonoridade do Magna Carta são a dupla americana Simon & Garfunkel e o grupo conterrâneo Fairport Covention, o que garante um selo de qualidade respeitável (Caravan e Moody Blues não ficam de fora nessas comparações). Nos discos seguintes ao trio inicial, o Magna flutuou por estilos diferentes, do prog raiz ao pop, passando por um jazz fusion melodioso, mas sempre com o carimbo folk. Compositor e poeta de mão cheia, Simpson levou adiante o Magna Carta, que se apresentou em inúmeros festivais e fez shows mundo afora, sempre muito bem recebido. Vale a pena conferir o som desse maravilhoso grupo, especialmente, seus primeiros trabalhos até meados dos anos 70. São de uma beleza rara!
Encontrei um vídeo (no YouTube - onde mais?) com os Bad Brains barbarizando em Berlim em 1983. Troço incrível. Na verdade, são dois em um, isto é, dois shows num único vídeo em Berlim. O primeiro é uma apresentação no The Loft, em 22/mai/83. O segundo começa por volta dos 37 minutos e segundo um comentário é de três noites antes, em Osnabrück, num local chamado Ostbunker. Apesar de alguns problemas de qualidade (tanto no vídeo, quanto no áudio), eles desaparecem um pouco à medida em que o vídeo avança. Posso lhe garantir: esta é uma das melhores filmagens existentes dos Bad Brains, se não a melhor. Putz, a banda está fumegando em completa brasa. Embora a qualidade esteja longe daquela do DVD "Live", disponível comercialmente e gravado no CBGB em 1982, o desempenho aqui em Berlim eclipsa totalmente aquele do CBGB. E a qualidade de som do segundo show é melhor do que a do primeiro. Alguns comentários pessoais: interessante ver a reação do público alemão. Certamente, uma reação bem mais contida/assustada do que seria num show nos EUA. O clímax é alcançado (literalmente) por volta dos 25 minutos quando a banda toca "Pay To Cum" (ré-ré-ré), faixa mais conhecida da época. Algumas canções do primeiro set, eu nem conheço. A banda se separou por um breve período após essa turnê, então talvez seja por isso que ela não as gravou. Os Bad Brains são de Washington/DC e foram formados (veja só) em 1976. Eles são amplamente considerados pioneiros do Hardcore Punk. A formação clássica (vista neste vídeo) inclui o cantor H.R., o guitarrista Dr. Know, o baixista Darryl Jenifer e o baterista Earl Hudson. Esta formação ficou intacta até 1987. Muita gente famosa já declarou os Bad Brains como grande influência: Beastie Boys, Nirvana, Foo Fighters, Guns N' Roses, Soundgarden, Red Hot Chili Peppers, Jane's Addiction, Faith No More, Rage Against The Machine, Deftones, Green Day, Offspring, Lamb Of God, Anthrax, Living Colour, etc. Parece que H.R e Dr. Know passaram por uns perrengues brabos nos últimos anos. H.R. foi diagnosticado com um distúrbio neurológico raro (que lhe causa dores de cabeças brabas) e Dr. Know teve uma parada cardíaca, mas ambos parecem estar se recuperando. Vamos lembrar de como os Bad Brains, no auge, eram uma força musical absolutamente implacável. Ouça no volume máximo:
Banda fundada em Bromley, hoje um distrito da grande Londres, em 1970, mas que se separou em 1972. Apesar deste breve período de existência, o Comus foi uma das bandas mais interessantes a emergir da cena Prog-Folk inglesa. Tudo começou quando Roger Wootton conheceu Glenn Goring, ambos com 17 anos, no Ravensbourne College Of Art, em Bromley, em 1967.
Ambos tocavam violão e compartilhavam admiração pelos trabalhos artísticos de John Renbourn e Bert Jansch (que estavam formando o Pentangle na época - Renbourn e Jansch já eram músicos populares na cena Folk inglesa com diversos álbuns solo cada e um em dueto, "Bert and John", de set/66. O uso de complexas partes de violão interdependentes criara uma espécie de "Folk barroco", uma característica própria da música deles). Wootton e Goring passaram a tocar em clubes Folk locais e, numa visita ao Arts Lab (um centro de artes alternativas), em Beckenham (localidade ao lado de Bromley), ficaram amigos de David Bowie (que usava o Drury Lane Arts Lab para ensaiar e havia fundado este, em Beckenham). A dupla passou a tocar regularmente no Arts Lab, lançando as bases para o que eventualmente se tornaria o Comus.
Roger Wootton e Glenn Goring com seus violões, em 1967.
Enquanto estavam na Ravensbourne, Glenn e Roger conheceram Chris Youle (que mais tarde se tornaria empresário do Comus) e o violinista/estudante de mídia Colin Pearson, que foi recrutado para a nova banda. O nome "Comus" foi sugerido para o projeto por Chris Youle, que estava estudando a máscara de mesmo nome de John Milton, poeta/intelectual inglês (nota: as máscaras foram uma forma de entretenimento festivo que floresceu na Europa do século 16 envolvendo música, dança, canto e atuação). Inspirado no texto de "Comus", Roger começou a trabalhar em algumas das canções que mais tarde apareceriam no álbum "First Utterance". O baixista Andy Hellaby foi o próximo a ingressar na banda, após uma abordagem de Goring e Wootton no Beckenham Arts Lab, onde tocava com outro grupo. Pouco depois, a cantora/percussionista Bobbie Watson, de 16 anos, também foi convidada a participar, depois de ser ouvida harmonizando algumas canções durante uma visita à casa em Perth Road, Beckenham, onde Wootton, Goring, Hellaby e Youle moravam. O sexto e último membro da banda original, o flautista Michael Bammi Rose, respondeu a um anúncio colocado no semanário Melody Maker. O período de Rose com a banda foi bastante curto e, ao sair, ele foi substituído por um amigo de Pearson e Watson chamado Rob Young. Embora o primeiro instrumento de Young tenha sido o piano, ele aprendeu flauta, oboé e bongô sozinho para tocar no Comus.
Hellaby, Goring, Wootton, Watson, Pearson e Young
Assim, no início de 1970, a formação clássica do Comus estava completa. A residência no Beckenham Arts Lab de David Bowie continuou, dando ao Comus tempo para se desenvolver como banda e para aprimorar seu set ao vivo. Enquanto isso, Chris Youle começou a trabalhar agendando shows, turnês e promoções em todo o Reino Unido. O público rapidamente reconheceu a paixão, a originalidade e a qualidade musical de tirar o fôlego de uma apresentação do Comus, e a banda logo se tornou uma das favoritas no circuito universitário.
Nessa época (início de 1970), o Comus fez um teste (e foi contratado) para o diretor canadense Lindsay Shonteff, para escrever a trilha sonora de seu longa-metragem "Permissive". Shonteff ficou impressionado tanto com a música, quanto com a determinação como Wootton continuou a tocar/cantar, mesmo tendo cortado o dedo nas cordas de seu violão, num certo momento (a banda escreveria e executaria também a trilha sonora de "Big Zapper", em 1971, e após a separação, os membros do Comus fariam trilhas para filmes subsequentes para Shonteff, "Zapper’s Blade of Vengeance"/"The Swordsman", em 1973 e "Spy Story", em 1975). Em jun/70, Chris Youle conseguiu um contrato de gravação com o selo Dawn (subsidiária da Pye Records) depois que o Comus fez um show muito comentado e prestigiado no Purcell Rooms (parte do complexo Royal Festival Hall, em South Bank, Londres), apoiando David Bowie, que, na época, estava surfando no sucesso de seu primeiro hit, "Space Oddity".
Em fev/71, o álbum "First Utterance" (tradução: primeira declaração) foi lançado, precedido pelo EP ""Diana / In the Lost Queen's Eyes / Winter is a Coloured Bird"", ambos com arte de capa feita por Wootton e Goring. A música era em grande parte Folk Art Rock acústico, misturando percussões orientais, Folk tradicional (slide, violões dedilhados de 6 e 12 cordas, climas pastorais), mais violinos/violoncelo/flautas/oboé e dois vocais (um masculino, de Wootton, e outro feminino, de Watson). As letras sombrias/perturbadoras envolviam assassinatos brutais, transtornos mentais e aspectos místicos. Sem elementos do Folk celta ou da Country Music, "First Utterance" preferia mirar numa perspectiva psicodélica/erudita gerando uma obra estupenda e embasbacante. Música emocionante, inventiva, vulnerável, às vezes soando como cânticos evocando feitiços antigos ou algum ritual pagão de eras passada, produzindo uma experiência única no ouvinte. Atmosferas místicas, algo estranhas/bizarras, deixando entrever perigo. Esqueça inclinações sinfônicas ou explosões roqueiras. Na verdade, o "Prog" aqui estava muito mais no espírito progressista. O Comus pegava música folclórica antiga, porém com um viés estranho/sinistro, e acrescentava uma sensação de improvisação experimental, amadorística, medieval, primitiva, com pitadas de drama. Uma incrível viagem, muito criativa e aventureira. Pense em algo como o Tyrannasaurus Rex (o duo acústico que Marc Bolan liderou no final dos anos 60, antes da fama Glam eletrificada do T-Rex) junto com Tim Burton numa noite escura fazendo um antigo ritual de evocação pagã numa floresta. Por isso, esqueça o tradicional Folk de bandas como Fairport Convention ou Steeleye Span. Confira um trecho da letra da faixa "Drip Drip" (que descreve um assassinato numa mata): "You dangling swinging / Hanging, spinning, aftermath / Your soft white flesh turns past me slaked with blood / Your evil eyes more damning than a demon's curse / Your lovely body soon caked with mud / As I carry you to your grave, my arms your hearse " (tradução: você balançando / pendurado, girando, consequência / Sua carne branca e macia passa por mim saciada de sangue / Seus olhos malignos mais condenatórios do que a maldição de um demônio / Seu adorável corpo logo coberto de lama / Enquanto eu carrego você para seu túmulo, meus braços, seu carro funerário"). É mole? Parecido com nada nesta seara, não é?
na frente sentados: Lindsay Cooper,Glenn Goring e Bobbie Watson; atrás: Roger Wootton, Andy Hellaby e Colin Pearson
Uma combinação de circunstâncias fez com que o álbum não conseguisse sucesso comercial e, embora Comus tenha continuado em turnê pelo Reino Unido e Europa, o ímpeto da banda começou a diminuir. Rob Young foi o primeiro a sair em jul/71 e, embora tenha sido habilmente substituído pela fagotista Lindsay Cooper (mais tarde, no Henry Cow, e esta nova formação ter desenvolvido novo material), o Comus se separou em 1972, após a perda do empresário Chris Youle para a Polydor Records, na Alemanha. Poucas semanas antes de deixar o Reino Unido e ir para a Alemanha, Chris Youle tentou garantir um segundo contrato de álbum para o Comus com a Pye Records, mas lamentavelmente não rolou. Três dos membros originais da banda, Wootton, Hellaby e Watson reuniram-se novamente em 1974, a pedido da recém-formada gravadora Virgin Records, para gravar um álbum seguinte, o calorosamente debatido "To Keep From Crying" (bem inferior à brilhante estreia). Mais uma vez, o sucesso comercial escapou e o Comus se desfez, separação esta que durou 34 anos.
Em 1995, "First Utterance" foi relançado em CD e, em 2005, surgiu um CD duplo reunindo os dois álbuns, o EP e algumas outras faixas (em resumo, tudo que o Comus havia gravado). Com o crescimento da internet, "tesouros perdidos" como o Comus e seu primeiro álbum passaram a ser desenterrados, debatidos e valorizados. Fãs famosos foram surgindo (Mikael Åkerfeldt, líder da banda sueca Opeth, é um desses a ponto de ter nomeado um álbum de 98 de sua banda como "My Arms, Your Hearse", uma citação da letra de "Drip Drip"). Para comemorar, o empresário Chris Youle buscou reunir todos os membros originais (inclusive o gerente de turnês, Wilf Wittingham) e, em mar/2008, a banda foi reformada para o Melloboat Festival (apenas Rob Young preferiu não prosseguir na fase de ensaios e acabou substituído por Jon Seagroatt, marido de Bobbie Watson). Foi um memorável e emocionante reencontro (alguns não se viam há mais de 30 anos). Seguiram-se algumas outras apresentações em festivais e um álbum novo, "Out Of The Coma", lançado em jun/2012 (contendo novas canções e uma gravação ao vivo de 1972 de material abandonado para o então planejado segundo álbum).