sexta-feira, 14 de abril de 2023

Resenha Outro Lado Álbum de Violeta de Outono 2022

 

Resenha

Outro Lado

Álbum de Violeta de Outono

2022

CD/LP

Estreando em disco em 1986, quando lançou pelo selo da loja Wop Bop um EP homônimo que se tornou um dos discos independentes mais vendidos no Brasil em todos os tempos (foram respeitosas 10 mil cópias), a banda Violeta de Outono, comandada pelo guitarrista e vocalista Fábio Golfetti, fazia parte do que poderia ser considerado um segundo ou terceiro escalão do chamado “BRock 80”, que era integrado por grupos considerados alternativos quando comparados com Paralamas do Sucesso ou Titãs: Mercenárias, 365, O Último Número, Nau, Fellini, Varsóvia, Divergência Socialista, entre tantos outros. Todavia, o Violeta (que surgiu em São Paulo e foi formado originalmente por ex-integrantes do Ultimato e do Zero) se diferenciou da maioria por não ter tido grandes pausas em sua carreira e por ter lançado, até aqui, dez discos de estúdio (dois EPs e oito albums), três ao vivo (com um quarto a caminho) e um CD de tributo (homenageando Syd Barrett), todos ainda em catálogo em mídia física.

Por causa dessa atitude de sempre olhar para frente, causou certa estranheza quando, em 2017, Golfetti colocou na geladeira seus companheiros da formação mais recente do Violeta de Outono, o baixista Gabriel Costa, o baterista José Dinola e o tecladista Fernando Cardoso, para reunir o power trio original, ao lado de Cláudio Souza (bateria) e Ângelo Pastorello (baixo), e fazer shows celebrando o aniversário de 30 anos do primeiro LP, editado originalmente pelo subselo Plug, da RCA. Como era de se esperar, a reunião gerou um registro ao vivo, o (excelente) disco Dia Eterno, de 2020. 

Se por um lado a iniciativa fez a alegria dos fãs mais antigos, por outro deixou a impressão de que o Violeta de Outono tinha dado um passo atrás ao se render a uma já bem manjada estratégia utilizada por inúmeras bandas veteranas, no Brasil e no mundo, para conseguir capturar uma nova audiência que não tinha visto seus artistas favoritos em seu período áureo e, é claro, para ouvir o tilintar da caixa registradora. Mas no caso do Violeta, a coisa foi um pouquinho mais além: Golfetti, Pastorello e Souza lançaram,  no ano passado, o que foi anunciado como sendo “um novo álbum de estúdio”, mas que, na verdade, não era tão novo assim.

Outro Lado, o tal do novo disco de estúdio da formação original do Violeta de Outono que foi para o mercado em outubro de 2022, nada mais é do que um compilado de faixas escritas entre 1992 e 2002 e já lançadas em outros CDs da banda, mas que foram regravadas com o intuito de que finalmente soassem como tinham sido inicialmente imaginadas. A maior parte do repertório foi pinçado do disco Mulher na Montanha, de 1999, que na verdade era um álbum de demos acrescido de três músicas que tinham sido compostas e registradas para saírem como um EP independente. Outras quatro são novas versões, com novos arranjos, de canções do disco Ilhas, de 2005. A única música que não pertence a nenhuma das duas levas é “Algum Lugar”. O Violeta de Outono ficou conhecido nos anos oitenta por misturar o rock psicodélico do final da década de 1960 (os Beatles de Revolver e Sgt. Pepper e o Pink Floyd da fase Syd Barrett) com o pós-punk de sua época (Echo & The Bunnymen, Durutti Column). Isso fez com que o trio conquistasse a admiração de plateias de diferentes tribos: punks, dark/góticos, neohippies e até mesmo fãs de rock progressivo. Mas, ao contrário do esperado, Outro Lado não é um retorno à essa proposta que os tornou famosos. Sim, aqui as referências à chamada “Cena de Canterbury” e ao jazz rock, principais influências dos discos da fase mais recente do Violeta, ficaram de fora, o que favoreceu uma abordagem menos intrincada e mais direta (canções curtas, compassos simples); mas o aceno ao pós-punk ficou definitivamente para trás. O que restou foi o lado sessentista da banda. Isso também poderia ser considerado um retrocesso junto à decisão de se lançar algo que, na prática, ja havia sido lançado. Entretanto, Outro Lado é um disco tão bom que, quando ele termina, você não somente abstrai por completo sua falta de senso de propósito, como também fica se perguntando (indignado) por que ele acaba tão rápido. O álbum abre com “Numa Pessoa Só”, que na verdade é uma novíssima versão para “Blues”, do CD Ilhas. A letra manteve-se fiel à da primeira versão, mas a abordagem musical é completamente distinta. Aqui ela ela soa como se o Violeta estivesse tentando resgatar uma hipotética simplicidade existente nas primeiras versões que, com o tempo, teria se perdido. A conjunto de faixas que haviam aparecido primeiramente como demos e ensaios em Mulher na Montanha - “Espelhos Planos”, “Outro Lado”, “Lírio de Vidro”, “Mulher na Montanha” e “Total Silêncio” - mostram que, afinal, não foi uma decisão equivocada regravá-las. Embora o trio não tenha mexido nos arranjos dessas músicas, aqui podemos afirmar que elas realmente adquiriram uma cara definitiva. O som delas ficou mais “cheio”, com mais reverb. E faltava justamente essa amplitude nas gravações já conhecidas. Já “Estarei Com Você” - outra faixa de Ilhas que, originalmente, se chamava “Mahavishnu” - teve muito pouco do arranjo original alterado. Neste caso, o sintetizador foi subtraído e a bateria soa mais pesada, com mais punch. A versão que se conhecia até então contou com Gregor Isidro nas baquetas, que por sua vez havia optado por menos compressão no som do seu instrumento quando da gravação de Ilhas. “Através das Estrelas” também conservou boa parte dos elementos presentes em sua primeira versão, que se chamava tão somente “Estrelas”. Aliás, talvez essa tenha sido uma das faixas menos simplificadas dentre as da leva do Ilhas. A faixa que provavelmente suscitará dúvidas no ouvinte é “Júpiter”. Ela é um dos pontos altos tanto de Ilhas quanto deste Outro Lado, mesmo que com arranjos diferentes. Quiçá “Júpiter” seja a melhor canção do Violeta desde seus tempos de glória na década de oitenta e isso talvez explique o por que ela soa tão maravilhosamente bem em ambas versões. Mas a regravação parece mais orgânica e visceral. Aliás, essa é uma qualidade predominante em todo Outro Lado. Nesse aspecto, ele talvez seja o disco que mais se aproxima, em termos de sonoridade, do vibrante álbum de estreia da banda: o CD nos transmite aquela sensação de disco feito à moda antiga, com o repertório todo pronto e já experimentado nos palcos sendo gravado praticamente ao vivo no estúdio, sem recursos digitais e com pouquíssimos overdubs acrescidos. O leitor deve ter percebido que cheguei ao final da resenha passando pano para a atual falta de originalidade do Violeta de Outono, que, como zilhões de bandas veteranas pelo mundo afora, não resistiu à tentação de prosseguir estrada adiante como se estivesse dirigindo com os olhos fixados no retrovisor. Ok, faz parte do jogo, isso é o music business e mesmo as bandas alternativas não estão totalmente fora ou à margem dele. Mas no caso específico do Violeta, uma explicação possível para esse movimento em marcha-a-ré é que o tempo para se dedicar ao processo criativo talvez esteja ficando cada vez mais escasso, tendo em vista que Fábio Golfetti agora é integrante fixo de outro grupo das antigas, o Gong (fundado em 1967 pelo falecido guitarrista australiano Daevid Allen), com quem ele tem se apresentado pela Europa regularmente. Só nos resta ficar na torcida para que o Violeta de Outono não fique tanto tempo em segundo plano e que volte a nos brindar com material totalmente inédito.


Resenha Caravan Álbum de Caravan 1968

 

Resenha

Caravan

Álbum de Caravan

1968

CD/LP

Ainda que, longe de soar com o mesmo brilhantismo atingido em discos seguintes, a estreia da banda Caravan pode ser considerada facilmente uma estreia muito boa, suas músicas no geral são interessantes, mas há alguns problemas nesse disco que não existe possibilidade algum de serem ignorados, a mixagem é fraca e a produção - feita pela própria a banda – me faz pensar se eles realmente estavam gravando algo para ser lançado profissionalmente, ou somente era uma brincadeira despretensiosa, para que alguns detalhes cruciais para o bom desenvolvimento de um disco profissional fossem meio que ignorados aqui. Na versão remasterizada de d002, tudo soa melhor, inclusive, é essa que tenho aqui para fazer a resenha no momento, mas achei válido comentar esses pontos baixos da versão original.   

Se você está mais interessado em uma música progressiva, talvez esse disco não entregue a dosagem necessária para suprir sua demanda, afinal, diferentemente de outros álbuns e que seriam lançados no auge do grupo, aqui temos muito mais um disco de música psicodélica e que encontra o rock progressivo apenas em alguns lugares pontuais.  O disco apresenta 8 faixas, a maioria das vezes, descontraídas. Os vocais são equilibrados, a seção rítmica entrega um trabalho muito orgânico, enquanto as guitarras são bem executadas e as teclas possuem uma onipresença de órgão e ocasionalmente piano.  

“Place Of My Own” já inicia o disco mostrando que a entrega musical da banda ainda está fortemente enraizada na música psicodélica dos anos 60. Uma bateria isolada logo ganha a companha dos demais instrumentos e os primeiros vocais. Durante o interlúdio instrumental, o destaque é do órgão. “Ride” começa por meio de uma percussão, enquanto uma guitarra suave vai surgindo e aumentando o seu volume lentamente. Novamente, um som bastante psicodélico e até certo ponto, de tendências enigmáticas, os backing vocals possuem alguns efeitos de eco e que faz com que há um aumento de sensação de viagem na experiência auditiva. Certa vez li, que segundo palavras do próprio Pye Hastings, essa peça foi inspirada no tipo de som que o Traffic produzia naquele período.  

“Policeman”, aqui quem assume os vocais é Richard Sinclair – também as guitarras, enquanto Pye muda para o baixo -, sendo ele, também, o compositor da peça. É bastante nítido que tanto os seus dotes composicionais, quanto vocais ainda se encontram meio mirrados, digamos assim. De qualquer forma, a peça tem uma melodia bem legal e um estilo de composição que faz com que venha o Syd Barrett em mente.” Love Song With Flute” é um dos destaques do disco. Tem as melhores harmonias vocais do álbum em uma estrutura musical excelente. Vale destacar também a participação do convidado, Jimmy Hastings - irmão mais velho de Pye -, que entrega um trabalho de flauta sensacional.  

“Cecil Rons”, sem dúvida alguma, pode ser considerada uma das músicas mais insólitas de todo o catálogo da banda. Há um bom método de equilíbrio entra a sua loucura sonora e uma dissonância caótica de alguns gritos desesperadores. Na sua parte final, há um estranho, porém, eficaz trabalho de órgão. “Magic Man” é mais uma música muito bonita e com fortes raízes psicodélicas. Os vocais conduzem a peça de forma distinta, enquanto a melodia tem a sua beleza elevada principalmente pelos trabalhos de teclas que criam criativas progressões de acordes.  

“Grandma's Lawn” é talvez a música do disco que possui o maior DNA do rock psicodélico dos anos 60. Dave mais uma vez desfila com o seu órgão de forma ácida. Mesmo sendo bastante simples, mantem o nível do álbum. “Where But For Caravan Would I?”, era inicialmente uma música composta por Brian Hopper e Pye Hastings para a Wilde Flower, sendo retrabalhada e lançada aqui. Com quase 9 minutos, é de longe a música mais longa do álbum. Até perto dos 2 minutos e meio é uma música bastante relaxante, então entra uma jam poderosa que eleva a energia da faixa com o órgão sendo o instrumento que lidera a trilha até o ritmo relaxante regressar junto de vocais evocativos. O refrão é bastante envolvente. Por volta dos 7 minutos e meio há novamente alguns ataques de órgão que permanecem até o fim da música.  

Apesar de ser um disco que fica aquém do que a banda faria em seus próximos, pelo menos, 4 álbuns, essa estreia mostra claramente alguns vislumbres promissores em relação ao que o grupo estava preparando para o futuro. Não é a melhor porta de entrada se você procura a essência do Caravan, de qualquer forma, há uma entrega musical muito boa.  

Resenha Bookends Álbum de Simon and Garfunkel 1968

 

Resenha

Bookends

Álbum de Simon and Garfunkel

1968

CD/LP

Lançado em 3 de abril de 1968, "Bookends" disputa constantemente com "Bridge Over Troubled Water" o título de melhor álbum da dupla de folk americana Simon and Garfunkel. Temos aqui um grande momento vivido por Paul Simon em termos de criatividade e perfeccionismo, tendo trabalhado exaustivamente, inclusive em cada linha vocal, para entregar o melhor disco possível. E conseguiu. Um álbum imperdível, delicioso para curtir e relembrar.

"Bookends" é um álbum conceitual que aborda, de maneira fictícia, a jornada de uma vida iniciando na infância até a velhice. O lado A do disco (faixas de 1 a 7) traz cada fase sucessivamente, com o tema como suporte, falando de juventude, decepções, relacionamentos, envelhecimento e mortalidade. E o lado B é composto quase que integralmente de singles lançados anteriormente e de composições que não foram utilizadas para a trilha sonora de "The Graduate". Curiosamente, Paul Simon contou com o auxílio do produtor John Simon, que foi de grande valia, contribuindo e incentivando Paul na luta contra um bloqueio criativo. Foi por conta disso inclusive que o disco levou quase um ano para ficar pronto.

Nota: John e Paul Simon terem o mesmo sobrenome é apenas coincidência.

Art Garfunkel faz, como sempre, um belíssimo trabalho vocal, mas, está nítido que a estrela maior é Paul Simon, seja cantando, compondo ou tocando. E "Bookends" lhe projeta ainda mais como um dos maiores compositores da história. Foram cinco singles: "A Hazy Shade of Winter", "Fakin' It" e "Mrs. Robinson" são mais rockers, sendo que a última é conhecida por muitos sem saber quem é o seu dono. Foi também a primeira faixa de rock and roll a levar o Grammy para Record of the Year no 11th Annual Grammy Awards de 1969 e fez parte da trilha sonora do já mencionado filme "The Graduate". Além delas, temos a lindíssima balada "America" e a pop "At The Zoo". Mas, é impossível parar por aí: "Overs", "Old Friends" e "Punky's Dilemma" complementam com classe e de maneira delicada em conjunto com a vinheta "Bookends Theme", que é reproduzida em duas versões no início e fim do lado A.

Com um pouco menos de 30 minutos de duração, "Bookends" acaba pronto para ser ouvido novamente, tamanha sua qualidade. Foi um sucesso em vendas e um grande passo para a dupla. Pena que seu fim estava próximo, já que o próximo disco viria a ser o ponto final em sua breve mas extremamente próspera carreira. Fato é que os santos de Paul e Art nunca bateram.

Um álbum clássico e simplesmente imperdível.

Faixas:

Bookends Theme (Instrumental)	
Save The Life Of My Child	
America	
Overs	
Voices Of Old People	
Old Friends	
Bookends Theme	
Fakin' It	
Punky's Dilemma	
Mrs. Robinson	
A Hazy Shade Of Winter	
At The Zoo

Americanos do Love Ghost unem pop punk e rock alternativo em novo single “Jealousy” Divulgação

 

Americanos do Love Ghost unem pop punk e rock alternativo em novo single “Jealousy”

"Jealousy" é uma música rock grunge alternativa do compositor Finnegan Bell da banda americana Love Ghost: “Eu sempre coloquei meu coração na manga, e ser tão apaixonado pode doer às vezes. Posso agradar as pessoas que não se importam tanto comigo e estou tentando me livrar desse hábito doentio. Eu havia sido traído recentemente e muitas inseguranças antigas e PTSD foram criados por causa disso. Eu escrevi a música “Jealousy” para um, apenas para lidar com o que eu estava passando, mas também permitir que as pessoas sentissem que não estavam sozinhas com o que estão passando. Muitas pessoas experimentaram coisas semelhantes ao que passei, como solidão, rejeição e mentiras também. Espero que essa música funcione como um curativo mental para eles de alguma forma.”

Future – DS2 (2015)

 

À terceira é de vez: DS2 é a obra-prima de Future. Trap sombrio encharcado em sedativos.

Os dois primeiros discos de Future foram uma desilusão: flácidos e melosos, mau putedo pop. A redenção só chega com DS2, um álbum honesto de trap, sem concessões de qualquer espécie. A verdade compensa: público e crítica rendem-se à sua melancólica perfeição.

DS2 é quase um disco conceptual, um ensaio sobre a cultura de drogas que grassa no hip-hop. Falamos principalmente do dirty sprite aludido no título, uma mistura de codeína com gasosa que relaxa e entorpece. Tudo em DS2 evoca essa letargia opiácea: as batidas lentas e arrastadas; as rimas dormentes e entarameladas; os baixos claustrofóbicos e teclados góticos (evocando a dor que se tenta em vão adormecer). O disco vive deste hedonismo sombrio: gajas, drogaria e bens de luxo como espelhos do vazio e da depressão. Os vomitórios romanos estão de volta. Reabriram os cabarets de Weimar…

Num milénio empobrecido pelo excesso de nostalgia, DS2 é intransigentemente contemporâneo. Foram inovações como o trap e o auto-tune (ambas definidoras deste disco) que salvaram a honra do convento. A própria forma como o auto-tune é aqui utilizado – em directo, ouvindo-se a manipulação digital no momento da gravação – acrescenta mais modernidade ao projecto: Future como homem-máquina, biológico e mecânico ao mesmo tempo. Nada exprime melhor o desencanto deste século do que a sua voz de computador magoado…


Review: Eternal Idol – Renaissance (2020)

 


Fabio Lione possui vários empregos. Além de vocalista do Angra e da sua versão do Rhapsody ao lado do guitarrista Luca Turilli, participa de inúmeros projetos como convidado especial. E mais: ele também é vocalista do Eternal Idol, banda italiana formada em Vicenza em 2016 e que conta, além de Lione, com a vocalisa Claudia Layline, com o guitarrista e tecladista Nick Savio, com o baixista Andrea Buratto e com o baterista Enrico Fabris. O primeiro disco, The Unrevealed Secret, saiu em 2016, e o segundo, Renaissance, chegou às lojas em 2020.

O que chama a atenção no Eternal Idol é a união muito bem feita de power metal e metal sinfônico com características de AOR e melodic rock. Isso faz com que Renaissance mostre ao mundo uma faceta pouco explorada de Fabio Lione, que canta de forma bem menos épica e grandiosa da que estamos acostumados, além de explorar aspectos até então pouco conhecidos de sua musicalidade.

O álbum conta com dez faixas e surpreende muito positivamente pelo alto nível das composições, e digo isso porque não se trata da banda principal de seu nome mais conhecido – justamente Lione -, o que geralmente faz com que esses projetos menores não sejam assim tão surpreendentes. Aqui acontece exatamente o contrário. Os duetos com Layline permeiam todo o trabalho, que conta com uma execução exemplar dos demais integrantes. Refrãos fortes e repletos de melodia, elemento vindo direto do AOR, também saltam aos ouvidos, e são amplificados pelos arranjos super bem construídos. “Dark Eclipse”, por exemplo, é uma das músicas mais surpreendentes do álbum porque parece que estamos ouvindo algo de um nome contemporâneo do AOR como o H.E.A.T. e não uma canção cantada por uma das vozes mais emblemáticas do power metal.

O lado sinfônico marca presença, mas com uma abordagem mais acessível e menos complexa daquela que vemos em bandas como o Epica. Basta ouvir “Without Fear”, por exemplo, para perceber isso. Outros destaques estão em “Not the Same”, “Lord Without Soul” e na música que batiza o disco. Vale mencionar também o belo trabalho da guitarra de Nick Savio, com solos muito bem pensados e que agregam às composições e chamam bastante a atenção.

O Eternal Idol revela um lado desconhecido de Fabio Lione. E ouvir uma das maiores vozes do metal contemporâneo trilhando um novo caminho e de forma tão competente é uma ótima surpresa.


Padovani’s Death Lança Álbum Dream

 

Padovani’s Death Lança Álbum Dream

A composição do álbum começou no meio de 2022, quando ao compor a música Oneiric Boy viu que remetia a idéia de sonho e acabou sendo a inspiração para o novo trabalho. 
A gravação começou em agosto, Ramon Mantuan foi chamado para gravar a bateria em todas músicas exceto Apocalypse With You, Slow Down que a banda Topsyturvy gravou todos os instrumentos e My Grey é feita com beat box. 
A ideia de ter vários convidados veio conforme as músicas foram surgindo e por isso, o álbum é repleto de feats, além de The Beaking Point com Issui e Slow Down, tiveram também Jomori na Turn Away fazendo Guitarra e Back Vocais, Thiago Puddo tocou trombone e eufônio e Rodrigo Vicária trompete na Oneiric Boy, em The Song's Name a participação foi de Thania Só nos vocais, Juliana Cardoso no piano da Apocalypse With You e fechando Rafael Rodrigues fazendo slide guitar na Just a Dream.
A Bateria acústica foi gravada no The Moon em Mogi e o resto dos instrumentos na própria casa de Guilherme Padovani, a menos das guitarras e baixo de Slow Down que foram gravados na casa do Alê do Topsyturvy e parte dos vocais de The Breaking Point que foram gravados pela Issui no Japão.
As letras tem várias pirações falando sobre sonhos, quebra de rotina, velhice, conflito sobre seu desejo x sociedade, amor e outras loucuras.
A capa foi feita por Jeh Negoh com a ideia das flores do próprio Padovani e a fonte usada na capa foi inspirada no trabalho Dreams de Daniel Johns (ex-Silverchair).
A Mix e a master foram feitas pelo próprio Padovani.

Ouça agora o álbum Dream! - open.spotify.com.

Resenha Fever Dreams Pts 1-4 Álbum de Johnny Marr 2022

 

Resenha

Fever Dreams Pts 1-4

Álbum de Johnny Marr

2022

CD/LP

Vamos primeiro aos fatos: Johnny Marr, ex-guitarrista da banda The Smiths, foi um dos arquitetos do rock alternativo contemporâneo. A dívida de subgêneros como o brit pop e o indie pop com os timbres, acordes, arpejos e melodias que Marr tirou de sua guitarra é simplesmente incalculável. Mas após o fim dos Smiths, em 1987, Johnny teve uma carreira marcada muito mais pelo empréstimo de seus talentos a outros artistas e bandas do que pela criação de material próprio. A lista de requisitantes de suas habilidades nas seis cordas (e como produtor também) nos anos 80, 90 e 2000 é longa e de respeito: Bryan Ferry, Billy Bragg, The The, Talking Heads, Pretenders, Pet Shop Boys, Beck, Modest Mouse, Blondie… 

Houve, ao longo de todo esse tempo, tentativas de emplacar algo autoral, com o Electronic (ao lado de Bernard Sumner, do New Order) e o Johnny Marr & The Healers (do qual fazia parte Zak Starkey, filho de Ringo Starr). O primeiro foi levemente bem sucedido, principalmente na época do seu álbum de estreia, e chegou a lançar, ao todo, três LPs e vários singles, sendo o mais destacado deles, sem dúvida, “Getting Away With It”. Já os Healers naufragaram rapidamente após o lançamento do disco Boomslang (2003). O que faltava para Marr era se engajar em uma carreira 100% solo, tal como havia feito a outra mente criativa dos Smiths, o letrista e cantor Morrissey, que se saiu muito bem sem sua antiga banda. Mas isso só aconteceu a partir de 2013, com o lançamento do ótimo álbum The Messenger. 

Em fevereiro do ano passado, Johnny Marr lançou o seu quarto disco solo de estúdio (e o melhor de todos até o momento): Fever Dreams Pts. 1-4. Esta não é a opinião apenas deste que escreve. O álbum chegou ao quarto lugar da parada inglesa, superando o altamente recomendável Call the Comet, o long play anterior (lançado em 2018). Mojo, The Independent e New Musical Express deram nota 4 de 5. Resumindo: Fever Dreams Pts. 1-4 foi aprovado com louvor tanto pelo público quanto pela crítica. E prova que Marr não perdeu a manha quando o assunto é compor boas canções com sons de guitarra que parecem nunca sair de moda. Mesmo os vocais, considerados um dos maiores pontos fracos de Johnny, se apresentam aqui com certa dignidade, o que significa que o músico/compositor tem total conhecimento de suas limitações e que ele não ousa em nenhum momento sair de uma zona de conforto quando opta em harmonizar o tom das músicas com seu restrito alcance vocal. Alguns podem chamar isso de “insegurança” ou até mesmo “comodismo”. Mas não é esse o caso. Estamos falando, na verdade, de experiência e maturidade artísticas, coisas que Johnny tem de sobra e que aprendeu a utilizar em seu favor quando finalmente resolveu voar sozinho. Se sua guitarra não soa mais como a novidade que outrora foi na já longínqua década de 1980, por outro lado os maiores méritos de Fever Dreams Pts. 1-4 se centram na qualidade das canções e no equilibro/consistência do repertório como um todo. É claro que, em se tratando de um álbum duplo, o risco de haver algum material mais frouxo aqui e ali existe. Esse é o caso, por exemplo, “Ariel” e, também, de “Hideaway Girl”, “Sensory Street" e “God's Gift”. Mas o resto é pura joia, a começar pelas faixas muito acertadamente escolhidas como singles: “Spirit Power and Soul” (que abre o disco e acena com a boa e velha mistura de rock e música pop eletrônica dos conterrâneos do New Order), “Tenement Time”, e “Night and Day” (com um riff de guitarra que é puro Johnny Marr). Em “Counter Clock World”, Johnny flerta com o pós-punk com um arranjo conduzido pela pulsante linha de baixo de Simone Marie Butler (ex-Primal Scream), que também contribui aqui com vocais de apoio. Simone reaparece em outras duas faixas do disco: “Lighting People” (na qual Marr assume os teclados, tal como fazia ocasionalmente nos Smiths e, também, no Electronic) e na excelente “The Speed of Love”. Vale a pena contar aqui como começou a parceria entre os dois: Johnny subiu ao palco para dar “canjas" nos shows do Primal Scream em diversas ocasiões, a maior parte delas durante o período em que Simone Marie esteve com a banda. Alguns anos depois, a baixista tornou-se DJ e apresentadora de rádio e em 2020 entrevistou o decano do rock alternativo em seu podcast “Closer With…”. O convite para participar de Fever Dreams Pts. 1-4 foi uma espécie de retribuição. Marr declarou, em uma entrevista para a revista Total Guitar, em março do ano passado, que “duas das três músicas que Simone gravou comigo foram de fato construídas em torno do groove, que era o que eu tinha em mente quando eu as escrevi. Eu fiz o baixo nas demos, mas soou meio desconexo. Ela resolveu o problema. Simone deu a essas músicas exatamente o que elas precisavam”. Marr também trouxe para o álbum seu filho, Nile (ex-Man Made e agora em carreira solo), que gravou alguns vocais de apoio. Mas sua principal parceria desde The Messenger é James Doviak, guitarrista, tecladista e engenheiro de som com quem Johnny divide a produção de seu último rebento. Além de Doviak, Fever Dreams Pts. 1-4 também reprisa a participação do baterista Jack Mitchell, que de igual modo vem trabalhando com Johnny em sua banda desde seu primeiro álbum solo. Mitchell tem um currículo de respeito como músico: passou pelo Marion (banda que teve um CD produzido por Marr), e, também, pelo Tailgunner (grupo do ex-produtor do Oasis, Mark Coyle), pelo Haven e por outro projeto paralelo de Bernard Sumner chamado Bad Lieutenant. Não é difícil, portanto, decifrar o o segredo por trás da consistência e qualidade de Fever Dreams Pts. 1-4. De um lado, temos um músico e compositor bastante rodado e vivendo um bom momento criativo; de outro, ele conta com o suporte de um ótimo time. O resultado é essa sensação de que não estamos diante de um mero “álbum solo”, mas, sim, de um disco que consegue a proeza de soar como obra de uma banda - e particularmente uma daquelas que logram colocar o todo acima da soma das partes. Tanto que ao longo do LP temos alguns momentos em que Johnny Marr abre mão do seu protagonismo, como é o caso da bela “Rubicon”, na qual o ovinte é brindado com a maravilhosa voz de Meredith Sheldon (Marina and the Diamonds e Evan Dando / Lemonheads) e com o teclado atmosférico de Doviak. Não nos esqueçamos que estamos falando de um guitarrista que é considerado, desde os tempos dos Smiths, a antítese do egocentrismo e da auto-indulgências dos "guitar heroes" da geração anterior. Para finalizar, creio ser pertinente informar o leitor que Fever Dreams Pts. 1-4 é, na verdade, uma coleção de EPs. As duas primeiras partes de Fever Dreams foram lançadas antes do long play, ainda em 2021, cada uma em um vinil contendo quatro faixas; a parte três foi lançada três meses após o álbum sair. O material desses três vinis corresponde, respectivamente, aos lados A, B e C do LP duplo. O lado D, o último, seria, ainda que virtualmente (já que não chegou a ser lançado de forma independente como os demais), o quarto EP (ou, melhor dizendo, a “parte 4”). Resumindo: Marr também aprendeu com sua larga experiência a importância de uma estratégia de marketing não ortodoxa para promover um trabalho, mesmo (ou principalmente) quando se trata de um disco lançado por uma gravadora alternativa (no caso, a New Voodoo Ltd., um subselo da BMG).

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