sábado, 20 de maio de 2023

Review: Celso Blues Boy – Indiana Blues (1996)


Grande pioneiro do blues brasileiro, Celso Blues Boy deixou uma discografia repleta de clássicos e formada por álbuns excelentes como Som na Guitarra (1984), Marginal Blues (1986) e Celso Blues Boy 3 (1987). Porém, o álbum que ficou para a posteridade foi Indiana Blues (1996).

Sexto disco de Celso, Indiana Blues levou quatro anos para ser gravado e traz um som mais maduro que os trabalhos anteriores. Tendo como grande chamariz a participação do lendário B.B. King em uma das faixas (e o Blues Boy de seu nome é uma homenagem a King, de quem sempre foi muito fã), Indiana Blues é um álbum fundamental para entender os caminhos do estilo em terras brasileiras.

Além de ser um guitarrista com um feeling enorme e de um domínio técnico incontestável, Celso Blues Boy era também um excelente compositor e um grande letrista. Isso intensifica a identificação com canções como as lindas “Onze Horas da Manhã” e “Tempos Difíceis”, que falam de forma direta com o ouvinte ao contar histórias e trazer situações que são comuns ao músico e ao seu público.

Os bons momentos se sucedem no rock and roll “Cachorro Louco”, na instrumental que dá nome ao disco, na acústica “Homem das Ruas” (onde fica claro que, além de um guitarrista sensacional, Celso também era um vocalista com enormes recursos) e no hard blues de “Amor Vazio” (com um piano safado dando um toque todo especial, além da famosa frase “sentindo calor, tremendo de frio"). “Baby Blue” fecha o disco com Blues Boy cantando em um registro e de uma forma semelhante a Zé Ramalho, o que deixa a canção ainda mais incrível.

“Liberdade” é uma parceria de Celso com Raul Seixas, com quem chegou a tocar no início da carreira. Raul deixou uma carta endereçada a Celso, que lhe foi entregue após a morte do baiano. Nela, Raul relata a amizade entre os dois e a experiência que sentiu ao conhecer o bluesman, que musicou trechos do relato do maluco beleza.

Há também em Indiana Blues versões para clássicos presentes em outros discos de Celso Blues Boy. As releituras para “Tempos Difíceis” (lançada em Som na Guitarra), para o hit “Aumenta que Isso é Rock and Roll” (também de Som na Guitarra, e aqui turbinada por um arranjo de metais), a belíssima “Sempre Brilhará” (de Celso Blues Boy 3, aqui em uma arrepiante versão acústica) e “Amor Vazio” (também do disco de estreia) estão em pé de igualdade com as gravações originais, e em alguns casos inclusive às superam.

E claro, Indiana Blues tem “Mississipi”, com participação de B.B. King e cuja letra conta a lenda de Robert Johnson e seu pacto com o diabo. Uma música inspiradíssima, com uma letra sensacional e um dueto de guitarras entre os dois Blues Boys: Celso, o brasileiro e fã, e B.B., o original nascido no delta do Mississippi, aqui abençoando um de seus discípulos mais fiéis.

Indiana Blues é um disco pra lá de excelente. O único ponto a se lamentar é a dificuldade em encontrar o álbum nos dias de hoje. A edição mais recente foi lançada em 2001 pela Spotlight Records, o que faz do disco um item bastante raro. Isso, somado ao fato de o trabalho não estar disponível nos serviços de streaming, limita o alcance da obra de Celso Blues Boy para a geração atual de ouvintes, que por pura falta de conhecimento acaba privada de conhecer um dos melhores álbuns já gravados por um músico brasileiro e, provavelmente, o maior clássico do blues feito no Brasil.

 


Review: Anthrax – Attack of the Killer B’s (1991)

 


Primeira compilação do Anthrax, Attack of the Killer B’s foi lançada em 25 de junho de 1991 e marca o fim da primeira passagem de Joey Belladonna pela banda. O vocalista foi demitido no final de 1992 por diferenças criativas e musicais com os demais integrantes, e seu substituto foi John Bush, do Armored Saint. Bush, que muitos consideram o melhor vocalista que o Anthrax já teve, permaneceu no quinteto até 2005. Como curiosidade, vale mencionar que o próprio Metallica chegou a convidar John Bush para fazer parte da banda nos primórdios do quarteto, mas o cantor preferiu seguir com o Armored Saint.

Ao invés de ser uma convencional coletânea de hits, Attack of the Killer B’s reúne alguns dos mais matadores lados B gravados pelo Anthrax até o início da década de 1990. São ao todo doze faixas até então inéditas ou presentes apenas em singles, o que tornou o disco um item bastante desejado pelos fãs da banda nova-iorquina. A única exceção nessa lógica é “Bring the Noise”, colaboração do grupo com o Public Enemy e que desde sempre foi uma de suas canções mais famosas. Como uma espécie de resposta para Attack of the Killer B’s, o Anthrax lançou em novembro de 1999 a compilação Return of the Killer A’s, essa sim focada em seus maiores sucessos.

Na época a banda contava com Belladona na voz, a dupla Scott Ian e Dan Spitz nas guitarras, Frank Bello no baixo e Charlie Benante na bateria. O apelo não é apenas colecionável, pois o tracklist é excelente e entrega ótimas faixas. Covers para canções do Kiss (a clássica “Parasite”), Discharge (“Protest and Survive”), The Chantays (um dos hinos da surf music, a imortal “Pipeline”) e Trust (“Sects), somadas às releituras de “Milk (Ode to Billy)” e “Chromatic Death, ambas da banda irmã S.O.D. (projeto crossover que contava com Scott e Charlie, além de Dan Lilker, baixista fundador do Anthrax), deixam a audição muito divertida.

O catálogo do grupo é visitado em ótimas versões ao vivo para “Keep in the Family” e “Belly of the Beast”, ambas gravadas em Birmingham, na Inglaterra, durante a turnê de Persistence of Time (1990). O bom humor tradicional do Anthrax é explicitado na irônica “Startin’ Up a Posse”, onde a banda critica a famigerada PMRC. “I’m the Man”, um dos maiores hits do grupo, ganha aqui uma versão focada no hip hop que difere de sua gravação original, onde o lado metal era o protagonista. E o álbum fecha com a linda “N.F.B. (Dallabnikufesin”), onde o quinteto tinha a intenção de fazer uma paródia das baladas acústicas marcantes do glam metal e acabou entregando, talvez sem querer, realmente uma grande canção – a curiosidade é que o título nada mais é do que uma abreviação para a frase “nice fuckin’  ballad”, que também está escrita de trás para frente no nome da faixa.

Attack of the Killer B’s nunca teve uma edição brasileira. Aliás, entre as bandas do Big Four, o Anthrax sempre foi deixado meio de lado pelas gravadoras nacionais, o que certamente influenciou na percepção geral do público em relação à banda, já que muitos fãs Brasil afora desconhecem grande parte da obra e da relevância do Anthrax, uma banda que sempre soou inovadora e nunca teve medo de experimentar novos caminhos em sua música. Attack of the Killer B’s é um ótimo exemplo do poderio do quinteto natural de Nova York, e irá surpreender quem só foi ouvir o grupo após o retorno de Joey Belladona em Worship Music (2011).



Review: Accept – Too Mean to Die (2021)

 


O Accept intensifica em seu novo disco uma tendência que já era perceptível nos últimos trabalhos do grupo: a diminuição do apelo épico e dos arranjos grandiosos em favor de uma sonoridade mais direta, na linha do hard & heavy tão popular na primeira metade da década de 1980.

Décimo-sexto álbum da banda alemã, Too Mean to Die é o sucessor de The Rise of Chaos (2017) e também o quinto disco com Mark Tornillo como vocalista. É preciso dizer que essa fase atual do Accept, iniciada com Blood of the Nations (2010), está em pé de igualdade com o período clássico do quinteto, quanto o grupo conquistou o mundo com trabalhos como Restless and Wild (1982), Balls to the Wall (1983) e Metal Heart (1985). Dito isso, é importante frisar que Too Mean to Die é o primeiro disco do grupo sem o baixista Peter Baltes, que deixou a banda em 2018 e tocou em todos os álbuns do Accept. Seu substituto é Martin Motnik. Além disso, a banda agora é um sexteto com a entrada de um terceiro guitarrista, Philip Shouse. O guitarrista Wolf Hoffmann é o único remanescente da formação original.

Produzido por Andy Sneap, Too Mean to Die entrega onze faixas inéditas em pouco mais de 50 minutos. As canções variam entre momentos inspirados e outros em tanto. Não há aqui a energia e o elemento surpresa de Blood of the Nations e nem a inspiração onipresente de Stalingrad (2012), mas o disco entrega bons momentos como a abertura com “Zombie Apocalypse”, o metal oitentista da música título, o hard rock de “Overnight Sensation”, a agradável balada “The Undertaker” e “Sucks to Be You”, essa última com uma clima meio AC/DC. As influências de músicas clássica de Wolffmann são responsáveis por duas das melhores canções, a grudenta “No Ones Masters” e a cativante “Symphony of Pain”, essa última com direito até à uma citação da 9ª Sinfonia de Beethoven.

Too Mean to Die não apresenta o brilhantismo dos dois primeiros discos da fase com Tornillo, mas está longe de ser um disco ruim. Os bons momentos superam os problemas, resultando em um álbum que os fãs farão questão de ter e que agradará também quem procura apenas um bom disco para ouvir.



Ayreon: Arjen Lucassen lança clipe de “They Took us by Storm”, faixa do álbum de estreia de seu novo projeto Supersonic Revolution


O progger holandês Arjen Lucassen anunciou em fevereiro o seu mais novo projeto, dentre tantos que já conduzira e conduz.

Trata-se do Supersonic Revolution, orientado para o hard, prog e glam rock e contando com Joost van den Broek (ex-After Forever), então braço direito de Arjen, às teclas e produção, Timo Somers (Delain) as 6 cordas, Koen Herfst (Vandenberg) às baquetas e John “JayCee” Cuijpers (Praying Mantis), figurinha carimbada nos trabalhos do Ayreon, ao microfone.

Na ocasião ele liberou o 1º single do projeto, “The Glamattack”, que integra o álbum de estreia “Golden Age Of Music

Agora Arjen liberou o clipe do single “They Took us by Storm“, como o próprio explicou:

As capas dos álbuns sempre foram tão importantes para mim naquela época, nos dias originais dos LPs de vinil! Eu comprei muitos álbuns apenas por causa da arte da capa. E minha empresa de design favorita absoluta era a poderosa equipe Hipgnosis. O chefe deles se chamava Storm Thorgerson, o que explica o jogo de palavras em ‘Storm’ no título da música. Essas letras falam sobre quatro das minhas capas favoritas do Hipgnosis: obviamente ‘Houses Of The Holy’ do Led Zeppelin e ‘Dark Side Of The Moon’ do Pink Floyd, duas das capas mais icônicas de todos os tempos. Os outros dois não são tão conhecidos: ‘Electric Warrior’ do T. Rex (o primeiro álbum que comprei) e ‘Phenomenon’ do UFO. Aliás, só descobri anos depois que na capa do OVNI o cara está jogando uma calota para o ar e a senhora está fotografando sorrateiramente como se fosse um OVNI de verdade!

Espero que gostem da música e desse clipe muito legal feito por David Letelier! Por favor, deixe-nos saber no comentários abaixo.

Abraços da Holanda,

Tracklist:

  1. SR Prelude
  2. The Glamattack
  3. Golden Age Of Music
  4. The Rise Of The Starman
  5. Burn It Down
  6. Odyssey
  7. They Took Us By Storm
  8. Golden Boy
  9. Holy Holy Ground
  10. Fight Of The Century
  11. Came To Mock, Stayed To Rock
  12. Children Of The Revolution (T-Rex cover – Bonus Track)
  13. Heard It On The X (ZZ Top cover – Bonus Track)
  14. Fantasy (Earth, Wind & Fire cover – Bonus Track)
  15. Love Is All (Roger Glover cover – Bonus Track)


Yusuf / Cat Stevens revela a inédita “All Nights, All Days”

 


Faixa estará em “King of a Land”, álbum que o lendário artista lançará em 16 de junho

Yusuf / Cat Stevens estreia seu novo single All Nights, All Days, que estará em seu décimo sétimo álbum de estúdio, King of a Land. Previsto para 16 de junho, o disco tem sido antecipado por uma série de canções delicadas com forte discurso social. Acompanhada por um vídeo de animação realizado pelo Studio Linguine, “All Nights, All Days” traz uma impactante letra contra os poderes vigentes.

Ouça “All Nights, All Days”: https://yusufcatstevens.lnk.to/AllNightsAllDaysPR 

Assista ao vídeo de “All Nights, All Days”:

Faça pré-save de “King of a Land”: https://YusufCatStevens.lnk.to/KingOfALandPR 

A faixa critica como os ricos exploram os pobres e, com um humor irônico, Yusuf sugere uma solução real para o mundo: trancar os líderes políticos que permitem essa situação no Zoológico de Londres.

“A única maneira de vivermos em paz é nos livrarmos da maioria deles. Talvez não todos, mas a maioria”, reflete o artista.

E no vibrante vídeo, que caminha entre uma animação tradicional e stop motion, esse cenário distópico se torna realidade. A interpretação visual da música conta com referência ao cultuado filme Ensina-me a viver, de 1971, do qual Yusuf fez a icônica trilha sonora. O clipe se une aos singles Take the World Apart e King of a Land como registros da nova fase do artista.

O lançamento do novo álbum é mais um marco de um ano especial para o artista, que em volta do seu aniversário de 75 anos, irá estrear no palco principal do Glastonbury. “King of a Land” está sendo realizado há mais de uma década e traz um conto épico com ar literário sobre terras mágicas, imaginação e ingenuidade como um escapismo para um lugar onde possa existir um final feliz.

O artista reflete:

“Olhando minha jornada na música, desde os anos 60, sinto que este novo trabalho é como um mosaico. E no fim mostra, claramente, onde eu estive e quem eu sou hoje”.

O próximo álbum foi gravado em diferentes e icônicos estúdios europeus, como o Hansa Studios, em Berlim (lar da trilogia berlinense de David Bowie e de Achtung Baby, do U2), e finalizado no estúdio pessoal de George Harrison, o Friar Park.

“Foi uma honra ser um dos primeiros artistas de fora a estar naquela sala de estúdio para mixar o álbum. George Harrison é uma influência pra mim na música e na espiritualidade. Se você ouve o disco, você vai sentir o espírito de George”

Stevens lançará “King of a Land” pela Dark Horse Records, fundada pelo próprio Harrison, via BMG.

Enquanto isso, é possível conferir “All Nights, All Days” em todas as plataformas de música.

Tracklist:

1. Train on a Hill

2. King of a Land

3. Pagan Run

4. He is True

5. All Nights, All Days

6. Another Night in the Rain

7. Things.

8. Son of Mary

9. Highness

10. The Boy Who Knew How to Climb Walls

11. How Good it Feels

12. Take the World Apart.

Disco Imortal: John Fogerty – Centerfield (1985)

 Álbum imortal: John Fogerty – Centerfield (1985)

Warner Bros., 1985

Não foi fácil fugir de Creedence. Nasciam os anos 80 e uma onda de heavy rock prometia dominar o mundo, deixando para trás aquelas músicas melodiosas que estiveram na moda nas duas décadas anteriores, e nas quais os Creedences haviam estabelecido o padrão, criando um estilo que se identificava como "música de estrada". ” e em que eles eram os chefes. Não queremos nos aprofundar nas diferenças musicais que existiam entre John e Tom Fogerty, e que levaram a banda a se dissolver no início dos anos 70, preferimos ficar com o fato de que a música deles ainda soa como uma influência real para muitas bandas este dia.

John Fogerty é um criador nato. Começou a carreira solo sem grandes sucessos mas teve paciência para lançar, em 1985, sua maior contribuição para a música: o álbum "Centerfield", o disco de maior sucesso do músico após a dissolução do Creedence Clearwater Revival.

Revendo as pistas, encontramos de tudo um pouco mas muito bem trabalhadas. Fogerty tocou todos os instrumentos ouvidos usando gravações. O álbum o trouxe de volta ao estrelato depois que só o conhecemos por causa de seus problemas legais com a antiga gravadora.

“Centerfield” foi o primeiro trabalho de Fogerty em nove anos, e quando você ouve fica claro que foi muito bem tocada e produzida. Para te deixar viciado e com vontade de seguir em frente, ele escolheu um corte poderoso: “The Old Man Down the Road”. A guitarra soa poderosa, misturando-se com uma letra dirigida no mesmo tom: Quem será esse velho na estrada? O assunto é tão estranho mas ganhou muita notoriedade, pelo que Fogerty foi obrigado, praticamente, a fazer um vídeo, algo extremamente necessário naqueles tempos. O resultado foi algo super estranho mas lembrado por isso mesmo.

Continuamos e nos deliciamos com “Rock and Roll Girls”, uma música bem no estilo Creedence mas com arranjos oitentistas. O refrão é muito cativante, ecoa o dia todo na cabeça, e o solo de saxofone dá um toque diferenciado. “Big Train (From Memphis)” é um retorno ao melhor país do autor. Tanto que um halo de nostalgia soa na música, é lírica, muito gostosa.

Em uma década que se caracterizou, em parte, por guitarras poderosas, Fogerty tenta abordar o hard rock com “Mr. Ambição". O ritmo é vital, gigantesco, a letra vai até o osso, é muito direta, acusatória, você quer saber a quem eles dedicaram isso? Grande música.

Baixamos as rotações com “Searchlight”, que serve justamente para nos acalmar, para tomar fôlego, uma música bastante transitória, porque o que vem a seguir é um golpe de facão, uma marca que fica para sempre na história e nas contribuições de John Fogerty.

“Centerfield” pode ser definido de muitas maneiras. Lendário, arrebatador, com um estilo único, com uma mensagem motivacional. É dedicado aos seus heróis do beisebol (ele é um fã desse esporte), sendo a única música que foi incluída no Hall da Fama do Beisebol. Não sei nada sobre esse esporte, mas quando o ouço, imediatamente evoco essas imagens e faz com que muitas pessoas, seguidores de Fogerty e sua música, também se aproximem do beisebol.

“I Can't Help Myself” é um regresso aos ritmos frenéticos, decorados com boas baterias eletrónicas, recurso muito utilizado pelas bandas new wave.

E a música que fecha o álbum é “Vanz Kant Danz”. É uma afronta, uma batalha, uma acusação para o cara que ele diz ter matado os Creedences: o dono da Fantasy Records, Saul Zaentz. A música fala sobre "um porco que espera que você se descuide para roubar seu dinheiro". Era mais do que óbvio para quem se dirigia, pois esse pequeno personagem ficava com quase todos os lucros da banda. Um pesadelo total, mas como assunto é cheio de frenesi.

Mas não vamos nos alongar nas desavenças que Fogerty teve com Zaentz por anos, mas sim vamos curtir esse grande álbum que está comemorando 30 anos, e que trouxe de volta ao estrelato um tremendo criador, um grande instrumentista e que segue em turnê pela vasta trilha musical do Creedence história, e isso já é motivo de elogio.

O álbum "Centerfield" alcançou o primeiro lugar nos Estados Unidos e em vários países europeus.


Disco Imortal: Arcade Fire – The Suburbs (2010)

 

Disco Imortal: Arcade Fire – Os Subúrbios (2010)

Merge Records / City Slang / Mercury Records, 2010

Não faz muito tempo desde seu lançamento, mas alguns anos deixaram claro para nós que “The Suburbs” do Arcade Fire é um disco que poderia ser preservado religiosamente ao longo do tempo. Talvez décadas atrás eles digam outra coisa, talvez não soe com a facilidade e efervescência dos anos setenta de “Exile on Main St.” dos Rolling Stones ou a ferocidade e atitude sem sinais de expiração da estreia de Rage Against The Machine, mas sem dúvida algo nos faz dar uma reviravolta de vez em quando, mesmo depois da "loucura da grande descoberta" e do primeiras audições.

E claro, o tempo é um fator fundamental neste disco, englobando ideias sobre a infância vivida por Win Butler e seu irmão nos subúrbios, ou nos subúrbios de Houston, Texas. Nostalgia, mas com uma reviravolta muito interessante: como o homem assumiu a responsabilidade de destruir o que um dia amou: a natureza, a inocência, nosso meio ambiente. O de voltar ao seu lugar de origem e partir o coração que tudo seja diferente de como você viveu. "The Suburbs" na entrada e aquelas guitarras são pura melancolia, e a letra fala de beleza e dor ao mesmo tempo justamente nesse sentido.

O álbum avança dando-nos faixas quase perfeitas, variedade, um exemplo brutal de nos mostrarem como são capazes de compor boas canções, de alcançar grandes nomes como Bowie, U2, REM nesta área, 'Ready to Start' é a segunda faixa , tem tudo para ter sido o ponto de partida, desde o nome àquela marcha cativante das guitarras e pancadas até às caixas que tudo animam, talvez AF quisesse "The Suburbs" como conceito para ter a entrada principal, embora digam que o ordem dos fatores não altera o produto.

A coisa da maturidade musical nos atinge quando ouvimos a adorável 'Modern Man', algumas vezes e você só quer gritar seus refrões e refrões a plenos pulmões, onde quer que seja. Mais emocionante vem uma das melhores ideias que a banda já teve: 'Rococó', com aqueles violinos onde já começa a aparecer a bela participação de Régine Chassagne, outra grande parte desta história e desta banda. É o equilíbrio perfeito para a banda ser o que é e chegar onde está. Não são nem os violinos, o que basta dizer, quando o riff de guitarra entra na música praticamente te deixa louco. Novamente falando da magia da infância apaziguada pela destruição/evolução: "Eles construíram apenas para queimá-la."

'Rococo' se encaixa muito bem com as seguintes, formando uma espécie de trilogia dos sonhos, pela primeira vez uma força intempestiva destrói tudo em 'Empty Room', desta vez com Régine como vocalista principal, pianos incessantes, caos, guitarras slide, e as percussões a mil por hora. 'City with no Children' fecha esse quarteirão, com aquele riff que inegavelmente nos soa como a melodia de 'Street Fighting Man' dos Stones, um grande sucesso, não dá para uma cópia vulgar.

Com apenas essas seis primeiras músicas, os canadenses poderiam ter se gabado de conseguir um álbum contundente, mas ainda há mais, 'Half Light I' soa para nós de forma intermitente, sonhadora, como uma espécie de pausa para poder dimensionar um álbum tão estranhamente belo . A segunda parte desta música devolve energia ao álbum, cotas eletrónicas, mas novamente melancolia, geografia, memórias.

Win Butler catalogou este álbum de forma simples e direta como a mistura de Neil Young com Depeche Mode, também daqueles "sons estranhos" que ouvia quando criança, nostalgia de novo, e claro, acenos a várias bandas são replicados, mas também soa como composições clássicas e cativantes, mas com cotas bizarras quando ocorrem.

Da intensidade final de 'Suburban War' a um boogie woogie rock and roll com guarnições algo paranóicas, conta-nos que no mês de Maio acontecem coisas violentas e que as pessoas enlouquecem. É 'Month of May', uma das músicas mais rock do disco e só dá vontade de dançar como nos anos 50, 60, tem algo daquela loucura das revoluções musicais de antigamente.

De volta às guitarras e ritmos mid-tempo com 'Wasted Hours'; com 'Deep Blue' traduz fielmente o que o seu nome evoca: melancolia, tristeza profunda que se torna um tanto paradoxal e irónica com aqueles refrões 'la la la la la', um dos que bate forte no álbum, falando de vazio, o desesperança. Trilha para o tesouro.

'We used to Wait' nos deixa com um gostinho de pop eletrônico, mas em uma música muito bem estruturada, como Bowies históricos, Butler secretamente tem algo de Duke em seu jeito de cantar, aqui pode vir à tona com mais clareza.

E como se o álbum não tivesse contrastes, o final bate-nos com o melodramatismo de 'Sprawl I' colocado em paralelo com uma das melhores composições e o 'quase' toque final desta maravilha: Régine Chassagne declara-se cantora pop numa canção encantadora , com acenos à literatura e que foi acompanhado por um vídeo maravilhoso como 'Sprawl II', um cruzamento entre a doçura de Bjork (vocalista que muito influenciou Régine) e um clássico tema new wave de Blondie, mas a verdade é que seria seria um pecado encobrir nas comparações, a música é única e uma das grandes façanhas que mostram que quando Arcade Fire quer rock eles são ótimos e quando tocam direct pop fazem como os melhores e com uma visão impressionante para o futuro.

Sem dúvida, "The Suburbs" é um álbum que vai envelhecer bem, e esperemos que o Arcade Fire o faça junto com ele, uma banda que desde o seu aparecimento até hoje só soube dar uma nova energia ao rock, à música em geral e sem dúvida que nos proporcionou grandes momentos. O mais novo “Disco Imortal” comentou em nosso site, que diz que não é preciso ser um clássico de 30 anos atrás para se manter ali, no trono dos melhores da história


Sérgio Godinho – Ligação Directa (2006)


 

Ligação Directa marca o regresso de Sérgio Godinho aos álbuns de originais, passados seis anos do anterior. O melhor que se pode dizer é que os anos não passam por ele.

Em 2006 Sérgio Godinho interrompeu o interregno que levava desde Lupa (2000) para mostrar que ainda tinha “Ligação Directa” ao mundo da música. Depois de álbuns ao vivo (Afinidades, com os Clã), de colaborações (Irmão do Meio) e espectáculos musicais (Portugal – uma comédia Musical), este álbum é inspirado e mostra que o autor ainda estava (e está ainda) longe de perder o seu jeito de escritor de canções.

Nas dez canções do álbum, duas delas não foram escritas pela pena de Godinho. São elas o Big-One da Verdade e o Ás da Negação, escritas por Hélder Gonçalves e Nuno Rafael, respectivamente. O disco tem participação ainda de Manuela Azevedo, Joana Manuel, Tomás Pimentel, Nuno Cunha, Jorge Ribeiro e Jorge Teixeira como músicos convidados.

O primeiro contacto com Ligação Directa é “A Deusa do Amor”, onde os coros abrem suavemente para a voz de Sérgio Godinho. Como as letras são invariavelmente irrepreensíveis, o difícil aqui é não passar todo o texto a citar boas passagens. Logo depois sentimos que a abertura é suplantada pelo pizzicato inicial de Às Vezes o Amor. A canção muito bem escolhida para single tem ainda a curiosidade de ter sido feita por uma equipa onde estava Ana Rocha de Sousa, galardoada com um Leão de Ouro e outros prémios no Festival de Cinema de Veneza em 2020.

O disco prossegue com “Marcha Centopeia” e “Não Há Duas Como Ela”, duas canções completamente diferentes mas enraizadas no universo musical de Godinho. A primeira mais alegre e a segunda mais séria, têm ambas arranjos que não destoavam se fizessem parte de discos dos anos 70. Já “O Velho Samurai” e as lânguidas cordas, acordeão, farfisa ou algo da família, servem de cama à música sobre um sobrevivente, como o seu autor.

Logo a seguir a coisa anima-se com “O Rei do Zum Zum”, uma sátira sempre actual à fama a todo o custo e” No Circo Monteiro Nunca Chove”, uma espécie de “Being For The Benefit Of Mr. Kite” à portuguesa.

As duas canções que não são da autoria de Sérgio Godinho são como se fossem dele. Isto é o maior elogio que se pode dar a quem escreve letras de canções. Tanto “Às da Negação” como “Big One da Verdade” têm a verve de Godinho presente em cada palavra.

Ligação Directa termina em grande. “Só Neste País” é um dos pontos altos num disco cheio deles. Sérgio Godinho estava em forma aos 61 anos e o seu lado de cantor de intervenção nunca ficou esquecido.

Conseguimos não citar uma única passagem de letras durante todo este texto. Godinho consegue estar sempre actualizado e merece “a fama e o proveito”. Bolas.



Sérgio Godinho – Mútuo Consentimento (2011)


 

Um disco apenas bom, traído por algumas canções menores. Destaque para a valsa gótica “Em Dias Consecutivos”, de uma beleza arrepiante.

Em Domingo no Mundo (1997), Sérgio Godinho revolucionou a sua estética, rodeando-se de malta mais nova, vinda do rock alternativo (Nuno Rafael à cabeça). Esta mudança radical de abordagem – com guitarras eléctricas musculadas e uma sensibilidade indie – alienou muitos fãs mais velhos mas atraiu toda uma nova geração de indefectíveis. Lupa (2000) e Ligação Directa (2006) aprofundam esse caminho, integrando também Hélder Gonçalves (dos Clã) no desenho dos arranjos. De maneira que, chegados a Mútuo Consentimento (2011), já ninguém se surpreende com a modernidade da sua linguagem.

O que não quer dizer que o disco seja consensual, longe disso. Os velhos do Restelo continuam a vociferar: “ó, Godinho, não te deixes assim vestir”, horrorizados pela roupagem new wave, uma suposta traição às suas raízes na música popular portuguesa (um tiro ao lado, porque Sérgio sempre foi avesso a purismos, espetando logo guitarras eléctricas encharcadas em fuzz no seu disco de estreia, mas enfim). O subtexto é conservador, uma espécie de jurisprudência estética, que obriga um artista a um mínimo de coerência estilística, sob pena de apedrejamento na praça pública. Ora, imaginem que se aplicava esta regra a Picasso, acusando o cubismo de traição ao período rosa…

Desmontada a crítica à mudança, per se, por mais radical que ela seja, poderia acontecer que os novos arranjos fossem legítimos mas infelizes. Não é isso que sucede. Nuno Rafael não sabe fazer maus arranjos, mantendo o requinte e depuração a que sempre nos habituou (o pulsar do baixo em “Bomba-Relógio”, sugerindo o bater do coração, é disso exemplo). Os outros arranjadores – Sassetti, Noiserv e Hélder Gonçalves – mantêm sempre lá em cima o padrão de gosto.

O busílis da questão está em outro lado, na qualidade intrínseca das canções, independentemente da roupa que lhes vistam. Sérgio Godinho habituou-nos mal pois todos os 15 álbuns que fez no século XX (desde Os Sobreviventes até Domingo no Mundo) são de uma consistência insana (até Dylan, que é o Dylan, se espalhou de vez em quando ao comprido, por amor de Deus!).

Ora a partir de Lupa, o nível desceu um pouco, aparecendo, pela primeira vez na sua obra, algumas canções dispensáveis. É o que sucede neste disco com a funky “Eu Vou a Jogo”, cujo groove avassalador tenta disfarçar, em vão, a sua pobreza melódica. Claro que para cada passo em falso há uma mão cheia de melodias encantadoras (como as de “Bomba-Relógio” e “Vá, Lá!”). E as colaborações não poderiam ser mais certeiras: a singela canção-título (música de Francisca Cortesão) e a assombrada “Em Dias Consecutivos” (Bernardo Sassetti) são irrepreensíveis, talvez os temas mais memoráveis do álbum.

Se fica um leve amargo de boca é porque as nossas expectativas são irresponsáveis. O disco desilude por ser apenas bom.



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