sábado, 10 de agosto de 2024

Review: Kiko Shred – Royal Art (2019)

 


Historicamente, o metal neoclássico surgiu na segunda metade dos anos 1970 e teve como banda catalisadora o Rainbow de Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio. Descontente com a sonoridade que o Deep Purple adotou a partir da chegada de David Coverdale e Glenn Hughes, o guitarrista saiu do grupo e montou o Rainbow tendo como um de seus objetivos principais explorar as influências de música clássica que sempre estiveram em sua maneira de tocar guitarra. E foi exatamente o que fez nos três excelentes álbuns gravados com Dio – Ritchie Blackmore’s Rainbow (1975), Rising (1976) e Long Live Rock ‘n’ Roll (1978). O caminho aberto por Blackmore foi aprofundado por um dos seus maiores discípulos, o sueco Yngwie Malmsteen, que durante a década de 1980 pesou ainda mais a mão nos elementos clássicos e deu a cara moderna do gênero através de álbuns que definiram o estilo como Rising Force (1984), Marching Out (1985) e Trilogy (1986).

É esse universo que o guitarrista brasileiro Kiko Shred explora em sua carreira. Com passagens pelas bandas de apoio de Tim Ripper Owens e Mike Vescera, o músico chega ao seu terceiro álbum, Royal Art, lançado pela Heavy Metal Rock. Ao lado de Kiko estão o veterano vocalista Mario Pastore, o baixista Will Costa e o baterista Lucas Tagliari.

A música apresentada em Royal Art traz, além do neoclássico, aspectos de power metal, o que torna a sonoridade mais agressiva. Ao todo temos dez faixas, com a presença de algumas instrumentais onde o foco na guitarra, já destacado nas demais composições, é evidenciado ainda mais.

Royal Art é um bom disco, com boas performances individuais – notoriamente de Pastore e do dono da banda, Kiko Shred – e apresenta uma produção competente. Ainda assim, falta um certo molho, um algo mais, que faça as suas músicas se destacarem e conquistarem de maneira mais profunda o coração do ouvinte. Potencial para uma evolução nesse sentido existe, principalmente se a mesma formação for mantida e ficar ainda mais azeitada e entrosada com shows e a convivência. Espero sinceramente que isso ocorra e que o grupo não foque essencialmente na figura de seu guitarrista, pois se isso acontecer temo que a força do projeto acabe se dissolvendo.



Review: Half Deaf Clatch – Short Songs for the Barely Conscious (2019)

 


Half Deaf Clatch é um bluesman inglês que iniciou a carreira na virada da década. Seu primeiro disco, Who Needs Shelter, é de 2012. Desde então, gravou uma penca de álbuns, todos explorando o blues acústico com algumas pitadas de folk e country. Short Songs for the Barely Conscious é o mais recente e foi lançado no final de janeiro. O disco vem com doze músicas em pouco mais de 43 minutos.

Para efeitos comparativos e de localização do ouvinte, há uma certa semelhança entre o universo musical de Tom Waits. A voz rouca, marcada por anos de bebidas, cigarros e noites mal dormidas, dá o tom de canções sombrias e extremamente contemplativas. A instrumentação é econômica, mínima, resumindo-se ao violão e algumas intervenções percussivas pontuais. Isso faz com que o aspecto rústico da música de Half Deaf Clatch seja o ponto principal, um artifício que imprime um ar de autenticidade profundo ao que sai das caixas de som.

Short Songs for the Barely Conscious contrasta violentamente com o plastificado cenário musical atual, onde tudo parece fake e feito sob medida para agradar um público cada vez mais mimado e menos exigente. Half Deaf Clatch vai na contramão disso tudo e se enquadra naquele grupo de artistas que teima em não estar extinto e seguir existindo, criando canções que possuem o objetivo de expor as suas opiniões, os seus pontos de vista, e não em andar ao lado do que se espera ouvir.

Este disco é um pequeno achado. Uma joia encontrada por acaso pela caminho e que faz a gente parar tudo, respirar fundo, limpar a mente e avaliar tudo que está ao nosso redor.

O resultado é arrebatador, experimente.



Diabo na Cruz – Lebre (2018)

 

Connan Mockasin – Jassbusters (2018)

 

Snail Mail – Lush (2018)

 

Crosby, Stills, Nash & Young – Déjà Vu (1970)

 

Unknown Mortal Orchestra – IC-01 Hanoi (2018)

 

Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik (1991)


 

Blood Sugar Sex Magik foi editado em 1991, no início de uma década em que o grunge arrasava como um furacão e num ano de discos históricos como Ten, dos Pearl Jam ou Nevermind, dos Nirvana.

De Seattle a Los Angeles vai uma grande distância e um modo de viver bem diferente mas problemas como as dependências e as perdas, geram sentimentos semelhantes, ali como em todo o lado. Diferentes são também as maneiras de ultrapassar as dificuldades e angústias: uns exorcizam através de gritos exasperantes e guitarras dissonantes e pesadas, outros fazem-no através de um groove funk/soul e rimas saltitantes e transbordantes de sexo.

Blood Sugar Sex Magik nada tinha de grunge, mas possuía algo que unia uma geração: uma atitude diferente perante a vida e perante um mundo em mudança. Uma geração que transportava angústia e alienação e que se distanciava de ideais racistas e sexistas. Trazia igualmente peso na sonoridade e força nas palavras, o que resultava em descargas brutais de energia. Os Red Hot Chili Peppers acrescentavam ainda algo diferente: divertimento, uma festa funk/rock. O mestre e produtor de música Rick Rubin, fundador de uma das primeiras casas do hip-hop, a Def Jam, levou os quatro rapazes para uma antiga mansão conhecida por ter sido habitada pelo ilusionista Houdini, onde viveram durante todo o período das gravações. O ambiente de camaradagem naquela mansão transformada em estúdio gigante (que também parece ter albergado os Beatles e Jimi Hendrix) foi um dos fatores apontados por todos os elementos da banda (inclusive pelo produtor) que terá contribuído para o resultado perfeito do disco. Foi preciso chegar ao quinto álbum para que a banda, com equipa certa, Anthony Kiedis, Flea, John Frusciante e Chad Smith, depurasse a sonoridade multifacetada que até ali os caracterizava – funk, punk, rock, metal, pop – agora elevada a um nível superior, produzindo o seu álbum mais generoso.

Todos os discos de Red Hot são festivos e este também o é mas foi enriquecido com uma estrutura mais trabalhada, do princípio ao fim, notória nas baladas mais intensas, como “Breaking the Girl” e “I Could Have Lied”, onde experimentam pela primeira vez o formato acústico. A qualidade instrumental é inegável – há poucos baixistas como Flea e poucos guitarristas como Frusciante – mas aquilo que mudou realmente com este álbum foi a contribuição lírica de Kiedis (incitado por Rubin) em praticamente todos os temas do disco e a compreensão simbiótica que os restantes membros da banda tiveram ao ouvir as letras. São letras que se ocupam de assuntos como o sexo (quase obsessivamente), amor, o estado do mundo, do Homem, do ambiente, de perda, de dependências e de divertimento, claro.

O resultado é uma deliciosa miscelânea de estilos que tem o poder de nos fazer saltar como doidos, com “Give it Away”, ou de chorar como bezerros desmamados em “Under the Bridge”. Dá que pensar, porque é que os Peppers não se enfiaram numa mansão assombrada com o Rick Rubin mais vezes? Não era a minha banda de eleição antes deste álbum nem passou a ser com os álbuns seguintes mas Blood Sugar Sex Magik é arte. Arte funk e arte rock.


Kamasi Washinton – Heaven and Earth (2018)

 

The Midnight Hour – The Midnight Hour (2018)


Destaque

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