Um dos melhores álbuns de estréia favoritos da Holanda, o autointitulado "Earth and Fire", é um álbum basicamente orientado por riffs pesados, guitarra e órgão dominando com vocais femininos e masculinos. A banda viria a se tornar uma banda de Rock Progressivo mais sofisticada e sinfônica, e nesta época apenas mais um conjunto de músicos orientados ao Acid-Rock psicodélico, como uma versão crocante do JEFFERSON AIRPLANE, com influências de PINK FLOYD nas atmosferas nebulosas.
Cada faixa tem um som enérgico e cheio de vitalidade. A vocalista feminina Jerney Kaagman é uma comandante, resistente (enquanto ainda permanecem muito feminina e sexy) e extremamente charmosa e o ponto focal do grupo. Há tantos riffs cativantes e toques psicodélicos espalhados entre as faixas, toda cheia de melodias memoráveis e charme bruto. A partir dos primeiros segundos de "Wild and Exciting", há uma abertura de riffs hard rock e vocais poderosos e ácidos. Jerney dá um "soco" direto na cara! Um abertura melódica que prende a atenção imediatamente com o seu poder, um Rock cativante e viciante cheio de lamentados solos de guitarra!
A otimista "Twilight Dreamer" é vaga e psicodélica, com uma guitarra acústica forte e vocais masculino/feminino, Órgão cintilante adorável. Segue-se "Ruby Is The One" parecendo uma espécie de super-sexy hino lésbico. Um Pop-Rock com um refrão matador. Não é surpresa que foi escolhido como um single do álbum, feito com um B-Side igualmente impertinente "Mechanical Lover".
Adiante temos "You Know The Way" começando com vocais masculinos misteriosos, a canção logo deriva em uma balada acústica sonhadora e reflexiva com uma vantagem, o excelente vocal de Jerney. Em certo mmento a guitarra e órgão "caem matando". O riff pesado de "Vivid Shady Land" é apaixonante, com Groovys de guitarra agressivos e vocais masculinos fortes. A seção intermediária é muito influenciada pela fase final dos anos 60 e início dos 70 do PINK FLOYD com um órgão triste e efeitos de guitarra espacial criando uma ruptura muito flutuante no ambiente. É tudo cheio de energia muito edificante. Ambas "21st Century Show" and "Seasons" soam como JEFFERSON AIRPLANE, mais uma vez vocais masculinos e femininos. A guitarra frenética impulsiona um órgão enlouquecedor, bombeando baixo e percussão como um raio antes de um desvio acústico jazzificado no meio com uma flauta maravilhosamente atmosférica. Já "Seasons" tem um som pesado de um pop ácido, com Jerney, flauta e violão juntos. Seu lindo vocal melancólico carrega a música através de uma pensamentos reflexivos.
A suja e sexy de sete minutos "Love Quivers" tem riffs mais robustos, bateria parecendo metralhadoras, explosões em coro vocal e duas explosões de órgãos espaciais alucinantes. Os primeiros álbuns deELOY,JANEeGROBSCHNITT tem explosões no mesmo molde. Toda a banda tem muitos momentos de destaque. É provavelmente a peça que mais aponta para a direção de um Progressivo sinfônico que a banda utilizaria no próximo álbum. O álbum termina com uma balada linda de acidez acústica "What's Your Name", com vocais masculinos frágeis e flauta suave.
A versão remasterizada em CD tem um monte de faixas bônus fantásticas, que destacam a sua mudança de psych/ácido/Rock para um estilo mais progressivo. "Hazy Paradise", "Mechanical Lover", e o Mellotron que alimenta todo o ambiente de "Memories".
Tracks: 01. Wild And Exciting (4:27) ◇ 02. Twilight Dreamer (4:16) ◇ 03. Ruby Is The One (3:26) ◇ 04. You Know The Way (3:46) 05. Vivid Shady Lady (4:11) 06. 21st Century Show (4:14) 07. Seasons (4:08) 08. Love Quiver (7:36) 09. What's Your Name (3:36) Time: 39:40 Bonus tracks on 1993 CD release: 10. Mechanical Lover (2:16) 11. Hazy Paradise (3:46) 12. Memories (3:21) 13. Invitation (3:48) 14. From The End Till The Beginning (4:54) 15. Lost Forever (2:47) 16. Song Of The Marching Children (Single Version) (4:06) 17. Thanks For The Love (3:38) 18. What Difference Does It Make (3:10) Bonus tracks on 2009 remaster: 10. Hazy Paradise (Single B-side 1969 ) (3:47) 11. Mechanical Lover (Single B-side 1970) (2:18)
Musicians: - Jerney Kaagman / lead vocals - Chris Koerts / guitar, vocals - Gerard Koerts / piano, organ - Hans Ziech / bass - Ton van der Kleij / drums,percussion With: - Cees Kalis / drums (3,7,10,11)
Um punhado de canções maduras, carregadas de experiências, aprendizagens e conselhos para a vida. Depois de quatro anos sem sabermos dele, Mr. E. surpreende com The Deconstruction e suspeita-se que seja dos seus álbuns mais inspirados dos últimos anos.
Mark Oliver Everett, 54 anos, fundador, mentor e incontestado líder dos Eels desde 1995. Filho de génio, o famoso físico Hugh Everett III, com quem se relacionava na base da frieza, enfrentou o cancro mortal da mãe e o suicídio da irmã que nem um valente. Senhor de uma colecção de 12 discos em nome dos Eels, tem-nos sobretudo cantado episódios da sua relação de amor-ódio pela vida. Foi pai pela primeira vez depois dos 50, casou-se, divorciou-se e deixou-nos quatro anos em jejum.
Sim, Mr. E tem todas as razões para se sentir na merda, mas The Deconstruction não é um álbum triste.
Quem conhece minimamente o catálogo dos Eels sabe que cada disco é especial. Everett, aliás, tornou-se famoso pelo seu ecletismo, gravando arranjos de todo o tipo, do rock à pop, do mais indie ao mais orquestral com cordas e sopros, tudo isto sem nunca perder a classe. Mr. E. gosta acima de tudo de criar sensações diferentes nos seus fãs e não está minimamente importado em perder uns para ganhar outros. O que lhe importa é surpreender, como foi surpreendido naquela noite em que viu Neil Young – um dos seus ídolos – ao vivo pela primeira vez: “Quando tinha 16 anos, a minha irmã levou-me a um concerto do Neil Young e eu presumi que fosse o Neil Young a solo, ou ele e os Crazy Horse, a tocarem material antigo. Quando dei por isso, era um concerto a tocar o álbum Rust Never Sleeps, que ainda nunca ninguém tinha ouvido porque não tinha sequer saído. E a produção era uma coisa assombrosa, não se parecia com nada do que se vira até então… ou do que se vê desde aí. Seja de quem for, lembro-me que fiquei totalmente siderado com a surpresa de tudo aquilo, com a espetacularidade de tudo aquilo. É esse o tipo de coisa que eu adoro”. (Entrevista ao Observador, 5 de Abril de 2018)
E ao 12º álbum, Mr. E. surpreende com The Descontruction e suspeita-se que seja dos mais inspirados dos últimos anos.
Quero dizer, The Deconstrution é rico em composições, temos aquele rock mais sujo e bluesy em “Bone and Dry” e “You Are the Shining Light”, onde quase conseguimos imaginar Uma Thurman e John Travolta a dançar. Há baladas à guitarra – “Be Hurt” – e ao piano – “That I Said It”. Mas em “The Deconstruction” há, também, e pela primeira vez, uma certa esperança, presente na doce “Premonition” ou na suave “Epiphany” que, a par de “Sweet Scorched Earth”, parece saída de um filme Cinderella. Há ainda tempo para acompanharmos a felicidade adulta de “Today is the Day” com a anca. Parece que Mr. E. decidiu finalmente arregaçar as mangas e remexer nessa poeira que é a lamentação da vida, até encontrar um foco de luz ao qual não só Everett, mas quem o escuta, se possa agarrar. É um álbum de desconstrução da mágoa e reconstrução em algo tangivelmente mais belo.
“The deconstruction has begun”, avisa no primeiro verso. “The reconstruction will begin”, alerta ao segundo. Enfrentar a mudança, que a vida é demasiado curta para termos medo de ser feliz.
Entalado entre Wish You Were Here e The Wall, Animals é um disco duro e violento, mas que merece o seu lugar entre os melhores da discografia dos Pink Floyd.
Animals surge, na discografia dos Pink Floyd, entalado no meio da sequência mais adorada da sua carreira: Dark Side of the Moonem 1973, Wish You Were Here em 75, depois Animals em 77 e, dois anos depois, The Wall.
Talvez seja essa a razão pela qual o disco tem vindo a ser relativamente menos valorizado, o que, na nossa opinião, tem algo de injusto.
Em 1977, em Inglaterra, havia um novo patrão nas ruas: o punk. Os Pink Floyd, que desde o início haviam sido vistos como vanguardistas, eram agora considerados velhos. Mais, eram considerado o símbolo de uma certa obesidade conceptual e de se terem tornado ricos e amados por meio mundo, à boleia de colossos de popularidade como Dark Side of the Moon e Wish You Were Here.
Nas ruas, Johnny Rotten desfilava com uma muito adequada t-shirt, agora famosa, com a simples frase “I hate Pink Floyd”. O punk cultivava a urgência e não o planeamento e a falta de destreza técnica era uma medalha. Neste novo mundo de 1977, qual foi a resposta da banda de Water e Gilmour? Fazer um disco agressivo, violento, de protesto social…mas à sua maneira.
Este foi o disco em que, de certa forma, se desenhou o futuro imediato da banda, e tudo começou a desmoronar. Waters assumiu como nunca a direcção criativa da banda, conjugando a sua nunca escondida ambição com a falta de inputs criativos relevantes dos seus companheiros, esgotados por anos seguidos de grandes discos e enormes digressões. O baixista ocupou esse vazio, e tirando alguns contributos de Gilmour, não havia espaço para mais ninguém.
O conceito-base já estava na cabeça de Waters havia alguns anos: pegar na distopia Orwelliana de Animal Farm e adaptá-la à Inglaterra de então. Nasce assim um mundo governado por porcos, com cães como o exército e a polícia que ajudavam a controlar as ovelhas, as massas. Se os Pistols cantavam “God Save the Queen” em três acordes cuspidos ao ar, os Floyd queriam também ser relevantes e fazer ruir à sociedade, mas à boleia da literatura e de mais um álbum conceptual.
Animals tem apenas cinco temas, com “Pigs on the Wind”, em duas partes, a abrir e fechar o disco. São os momentos mais tranquilos, e cheios de beleza, com Waters em modo acústico. Das restantes três, “Sheeps” e “Dogs” já vinham de anos antes e eram temas cujas versões iniciais eram tocadas em concerto, chamadas então “Raving and Drooling” e “You Gotta Be Crazy”. Estas, juntamente com “Pigs (Three Different Ones)” constituem o coração do disco, sempre acima dos dez minutos cada.
“Dogs”, ao longo dos seus 17 minutos, é Floyd vintage e talvez a música que melhor ilustra sonoramente este mundo pós-apocalíptico que Waters estava a tentar construir, com momentos que vão da energia ao abandono, do blues aos sintetizadores solitários.
Já “Pigs” arrasta-se num tempo mais lento, com uma nuvem ameaçadora por cima das casas e roncos de porcos sintetizados a assustar os incautos. É preciso dizer, no entanto, que sendo este o recreio de Waters, Animals acaba por deixar espaço para alguns dos solos mais marcantes de Gilmour, que elevam claramente o conjunto. O mesmo sucede em “Sheeps”, com um tom rock mais marcado.
A dureza deste tríptico – embora sempre feita com melodia de grande qualidade – é a razão pela existem as duas versões de “Pigs on the Wind”: “de outra forma, Animals teria sido apenas uma espécie de grito de raiva”, nas palavras do próprio Waters. Que diz do álbum que “embora a violência seja temperada com tristeza – e até traços de compaixão aqui e ali – Animals é um disco muito violento”.
Será, mas é também um grande, grande disco, que no catálogo de outra banda poderia ter sido o seu pináculo.
Os passos seguintes nasceriam daqui. Waters começou a viajar sozinho entre os concertos. As digressões com bonecos insufláveis gigantes e temas complexos tiveram vários problemas técnicos. E a alienação da banda e do próprio Waters atingiu o ponto de ruptura em Montreal, em que o baixista cuspiu furiosamente num espectador particularmente desrespeitoso. Surgia aqui a ideia de uma banda isolada do público, atrás de um muro…
Depois do sucesso de Harvest, Neil Young precisou de se refugiar dos seus fãs e dos seus demónios. On the Beach é um documento desse exorcismo.
Existe um famoso slogan referente aos anos sessenta que afirma que “Se te lembras dos anos sessenta, é porque não estiveste realmente lá”. Discutivelmente, essa mesma frase aplicar-se-ia tão bem, ou até melhor, aos anos setenta. Comparado com os anos sessenta, cuja primeira metade foi relativamente limpa, os anos setenta são lembrados e até celebrados pela sua decadência. Os relatos desse hedonismo geralmente pertencem a um de dois extremos: o da vitimização ou o da glorificação. No meio está Neil Young, um dos melhores e mais sóbrios cronistas dessa década turbulenta.
Depois de Harvest ter catapultado o músico para o estrelato, On the Beach é um deliberado ato de auto-sabotagem e um regresso às raízes rock and roll, com a sua produção mais crua. Gravado parcialmente nos estúdios Sunset Sound, parcialmente no rancho Broken Arrow onde Young ainda vive, consegue-se ouvir na música, a sala em que cada canção foi gravada como se esta se tratasse de um instrumento musical. O disco e o seu irmão mais velho, Tonight’s the Night, surgem no rescaldo de um período traumatizante para Young no qual a heroína tirou a vida a Danny Whitten, guitarrista dos Crazy Horse e ao roadie Bruce Berry. Enquanto que Tonight’s the Night retrata o choque inicial e todo o caos associado, On the Beach retrata o pessimismo que imediatamente antecede a aceitação. O álbum abre com o rock soalheiro de “Walk On” cujos versos lânguidos e saudosos contrastam com o refrão otimista e triunfante:
“Some get stoned, some get strange / But sooner or later it all gets real / Walk on”.
Mas a atmosfera nem sempre é tão otimista como a canção de abertura sugere: “See the Sky About to Rain”, uma balada nostálgica tocada num piano elétrico, é um breve regresso à sonoridade country de Harvest, com magníficos solos de harmónica e guitarra que quase escondem a melancolia contida na sua letra. “Revolution Blues” é um duro ataque ao culto de Charles Manson enquanto que “For the Turnstiles”, por sua vez, é um desabafo de um músico que sentiu na pele as consequências do hedonismo desenfreado que a vida na estrada traz:
“I need a crowd of people / but I can’t face them day to day / Though my problems are meaningless / that don’t make them go away”.
A segunda metade do disco, ou o lado B na sua configuração original em vinil, contém três das melhores canções de Young: “On the Beach”, “Motion Pictures” e “Ambulance Blues”. A faixa título tem influências no blues, tal como “Revolution Blues” e “Vampire Blues” mas de forma menos explícita, encontrando um lugar entre a amargura da primeira e a sonolência da segunda. É uma demonstração de fatiga e alienação da parte de um músico com sentimentos muito ambivalentes em relação ao mundo da música. “Motion Pictures” reitera esse cansaço, desta vez em formato acústico numa canção dedicada à sua mulher na altura, Carrie Snodgress. Esta canção mostra também o quão capaz Young é a tocar harmónica. Os breves solos em “Motion Pictures” são de uma expressividade e sensibilidade melódica que raramente são evidenciados no panorama rock.
“Ambulance Blues” vê o álbum a chegar ao fim e fá-lo num suspiro mais otimista. A sua atmosfera intimista e informal força o ouvinte a prestar mais atenção à letra que documenta o seu passado como o músico e a sua infância no Canadá e, ao mesmo tempo critica a imprensa musical e até Richard Nixon no seguimento do escândalo Watergate. No cânone de Neil Young, “Ambulance Blues” é apenas lembrada pelos fãs mais sérios do seu trabalho; uma pequena tragédia, pois trata-se de uma das suas canções mais contemplativas e honestas, uma canção que, entre outras coisas, convida-nos a assumir as nossas responsabilidades para connosco e para com os nossos amigos:
And there ain’t nothing like a friend / Who can tell you you’re just pissing in the wind
Em 1987, sem Waters no comando, David Gilmour assume as rédeas e transforma uma banda de culto num monstro de estádios, mas faz os Pink Floyd aproximarem-se perigosamente dos fãs de U2 e Dire Straits.
O divórcio entre os membros dos Pink Floyd foi longo e bastante duro. Muitos anos de gravações e concertos, aliado a problemas pessoais, começaram a abrir brechas na relações entre os quatro músicos ingleses. A pouca participação de Rick Wright no disco Animals e a crescente prepotência de Waters em tomar o controlo criativo da banda fizeram com que uma amizade de décadas e um legado de discos fantásticos começasse a ruir. Wright acabaria por ser despedido ainda durante as gravações de The Wall, passando apenas a ser um músico contratado. Já nem faria parte do disco seguinte, o último gravado por Waters em nome dos Floyd.
Sem um anúncio oficial de término de relação, cada elemento dos Pink Floyd seguiu o seu caminho. Gilmour lançaria About Face e Nick Mason Profiles, de 1984 e 1985, respectivamente. Nenhum deles teve qualquer impacto ou êxito comercial, ao contrário de Pros and Cons of Hitchhiking, de Roger Waters, de 1984, que mostrava que o baixista ainda continuava em grande forma. Também Rick Wright, já fora da banda, lançaria um novo projecto, sem grande expressão, de seu nome Zee.
Embora Roger Waters continuasse numa boa maré criativa, as editoras e promotoras pediam por mais discos e/ou concertos de Pink Floyd, os verdadeiros geradores de dinheiro. Pelos cabelos com essa pressão e empregando um termo bem conhecido de uma música sua (“Welcome To The Machine”), Waters resolve, oficialmente, deixar os Pink Floyd, alegando que já não havia criatividade para continuar a alimentar esse monstro. Já David Gilmour, queimado por uma fraca recepção ao seu segundo disco a solo e consequente tour, estava esperançado que os Pink Floyd pudessem voltar a compôr e gravar, de preferência nos moldes pré-The Wall. Começava a era das acções judiciais. Waters queria impedir que os restantes membros da banda continuassem a usar o nome de Pink Floyd e Gilmour alegava que Waters não era dono da banda, e que a sua decisão de sair era apenas dele e que não seria impeditiva para que os outros continuassem a usar o nome do conjunto.
Nisto, Gilmour tinha começado a compôr músicas para um eventual terceiro disco a solo, no seu estúdio-barco Astoria. Estas gravações acabariam por se transformar no primeiro disco de Pink Floyd sem qualquer input de Roger Waters. Curiosamente, A Momentary Lapse of Reason tem participações mínimas dos restantes elementos, Nick Mason e Rick Wright. Gilmour, à altura, disse que ambos estavam quase catatónicos a nível musical, muito por culpa da pressão que Waters lhes tinha exercido. Nick Mason acabaria por ficar magoado com esta explicação, pois esperava que tivesse sido o “inimigo” (Waters) a atacá-lo e não o aliado.
É, então, irónico que Gilmour tanto tenha criticado Waters pela sua prepotência e desejo de controlo nos Floyd, acabando por praticamente fazer o mesmo sem a sua ausência, transformando um disco a solo num de Pink Floyd.
A Momentary Lapse of Reason é, ao contrário de The Wall e, sobretudo, Final Cut, um disco que vai buscar o imaginário mais abstracto e instrumental que caracterizou o som dos Pink Floyd durante os anos 70. Algo que os próprios fãs da banda já começavam a sentir saudades.
No entanto, ao contrário de Dark Side of the Moon, Wish You Here Were ou Animals, este não era um disco com um conceito que interligasse as músicas e faltava, sobretudo, qualidade lírica, condição que foi fundamental para o tremendo êxito dos Pink Floyd. O próprio Gilmour acabaria por admitir que fora muito difícil fazer um disco sem Waters.
“Signs of Life”, faixa que abre A Momentary Lapse of Reason e marca o regresso dos Pink Floyd aos discos, é puro Pink Floyd. Sons etéreos, conversas soltas e sensações de viagem faziam crer que estávamos de volta aos anos 70. No entanto, “Learning To Fly”, uma das músicas de maior sucesso do disco, faz-anos “cair na real”. Isto não é Pink Floyd vintage. É o som típico que Gilmour já nos tinha dado no seu disco a solo e que aproximava a banda ao rock fm e bastante comercial que brotava nos anos 80.
“Dogs of War” tenta regressar ao universo de “Welcome to the Machine” mas sem grande êxito, enquanto “On The Turning Away” é David Gilmour a tentar fazer o seu “Wish You Were Here”, um dos pontos altos do disco.
Tirando a música final “Sorrow”, onde Gilmour se exibe em grande forma, todo o resto do disco é um aborrecimento e uma desilusão. Se em TheFinal Cut poderíamos pedir mais David Gilmour, em A Momentary Lapse of Reason queríamos o contrário. Menos Gilmour e muito mais Waters. A dinâmica instrumental-letras sempre foi o ponto chave dos Pink Floyd. Tirando um desses aspetos, a banda ressente-se e falha rotundamente.
Enquanto o disco não caiu nas graças, nem da crítica nem dos fãs, a extensa tour que a acompanhou foi o maior sucesso da carreira da banda até à data, originando centenas de concertos esgotados e milhões de dólares recebidos. David Gilmour tinha acabado de criar um monstro de estádios, lucrando como nunca, mas tinha dado aos Floyd uma roupagem musical inferior, e fez a banda aproximar-se perigosamente dos fãs de U2 e Dire Straits.
The Division Bell é um pastiche interminável (na verdade tem 66 minutos) que representa a maior nódoa no currículo dos Pink Floyd. Ainda pior do que A Momentary Lapse of Reason.
E depois do Roger Waters o que é que há? Merda. Nada resulta, nada é bom e aquilo que anteriormente deliciava, em The Division Bell, fere os tímpanos, a alma e pede seppuku (acto de suicídio cerimonial tipicamente japonês) ao som dos discos verdadeiramente de Pink Floyd.
The Divison Bell saiu em 1994 e era já na altura um disco datado. A sonoridade do rock movido a sintetizadores e longos solos de guitarra estava mais que esgotada, até mesmo para os Pink Floyd que tinham abandonado essa vertente em The Wallou Final Cut. Se, durante a década de 70, cada vez que a guitarra de David Gilmour soava, os ouvintes regozijavam, em The Division Bell ela provoca agonia. Porquê? Mudou assim tanto a forma de tocar? É, objectivamente, mal tocada? Não, claro que não, Gilmour é um mestre do instrumento, mas aquilo não é, definitivamente, Pink Floyd e dizer que sim é errado. (Detractores que disserem que a banda deixou de ser Pink Floyd quando Syd Barret tomou ácidos a mais, um aviso a título pessoal: Syd Barret é só o segundo melhor compositor dos Pink Floyd. A coroa vai, indubitavelmente, para Waters.)
Em 1992, Roger Waters lançou um dos melhores discos da sua carreira (incluindo o tempo em que esteve com os Pink Floyd). O homem forte dos Pink Floyd lançou Amused to Death, um álbum que mostrou que não precisava de emular a sua escrita passada para ser genial. O ónus ficou então para Gilmour que tinha de dar provas que afinal não era “um falso”, como Waters havia afirmado. Encheu o peito, empunhou a guitarra e o que saiu foi um pastiche interminável que demora 66 minutos a terminar.
O álbum é decalcado do manual Rock progressivo (bera) para totós. Letras introspectivas, mas sem qualquer ponta de originalidade? Confere. Longos solos de guitarra carregada de delay? Confere, também. Introduções longas e com sons ambiente? Não poderiam faltar. Músicas sem o formato normal de canção? Oh, yes? Mas, embora isto possa ter resultado dezenas de vezes ao longo da vida de muitas bandas, desta vez dá apenas um monte canções fracas e que gritam: “Nós não merecemos dizer que somos canções dos Pink Floyd” (pelo menos, é isso que eu oiço).
Para não ser injusto, a canção “High Hopes” têm um dos solos mais inspirados de David Gilmour. Pena o resto do tema ser uma estopada.
Não. The Division Bell não é Pink Floyd. É David Gilmour + Nick Mason + Richard Wright + Polly Samson (mulher de Gilmour). Os Pink Floyd acabaram em The Final Cute a tocha do seu legado é carregada unicamente por Roger Waters, o melhor Floyd.
Os fantasmas de Roger Waters atacam outra vez: uma crise de meia-idade; a autópsia de um casamento a ruir; a traição, o desejo, a culpa. Uma revelação lúcida dos “segredos dos locais, que no fundo são iguais em todos nós.”
O primeiro disco de Waters a solo não é grande espingarda. Mas, por outro lado, é uma maravilha. Os juízos estéticos são coisas danadas. Tudo depende do que procuramos. E de como o ouvimos.
Para quem procura canções, e que ouve o álbum com a leveza de quem procura canções, não vale um caracol. É uma colagem de fragmentos melódicos, uns mais inspirados do que outros, tudo soando demasiado a out-takes do The Wall(não obstante o bom gosto bluesy dos arranjos). Dois temas são, contudo, mais focados: a orelhuda canção-título e a comovente balada “5.06AM (Every Strangers Eyes)”.
Tudo muda, porém, de figura se no disco buscarmos conceitos, e se o ouvirmos com o peso de quem procura conceitos. Ora essa forma de ouvir exige rituais complexos, e parte do prazer estético decorre justamente desses rituais: os headphones, o libreto na mão, a escuta atenta do princípio ao fim, o luxo da repetição da experiência, tudo isto enquanto estamos reclinados num confortável sofá. Então uma história bem escrita começa a emergir, e as tais canções desfocadas tornam-se, como que por magia, em apropriadíssimos instrumentos para servir essa narrativa. Os fantasmas de Roger Waters ganham então forma: uma crise de meia-idade; a autópsia de um casamento a ruir; a traição, o desejo, a culpa. Uma revelação lúcida dos “segredos dos locais, que no fundo são iguais em todos nós.”
Destaque para a guitarra-solo de Eric Clapton, num dos desempenhos mais fluidos e expressivos da sua carreira. Criou também um precedente. Roger Waters nunca se emancipou totalmente da matriz dos Floyd, e um dos seus sintomas foi o recurso recorrente a guitarristas olímpicos, numa espécie de acto falhado freudiano para voltar a ter Gilmour a seu lado. O milagre não voltou a acontecer (e não foi por falta de preces e orações), mas a colaboração de guitarristas de topo como Clapton, Jeff Beck e Jonathan WIlson, isso já ninguém nos pode tirar.
É claro que Roger Waters já conseguiu melhor. Houve um tempo feliz de sol na eira e chuva no nabal: Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, The Wall, todas essas obras-primas conseguiram conciliar canções imensas com engenhosos conceitos. Mas então Waters não estava sozinho. Tinha a insubstituível ajuda dos outros Floyd: nas composições, nos arranjos, e sobretudo naquela inexplicável alquimia que aparecia quando todos estavam juntos.
Acontece que as comadres se zangaram. E que nem os Floyd amputados do seu líder, nem o seu líder amputado dos Floyd, conseguiram alguma vez repetir essa magia.
Staind é uma banda de rock de Springfield, MA. Eles surgiram em 1995. Depois disso, o Staind esteve ativo de meados dos anos 1990 até o início dos anos 2010. Desde então, a banda se reuniu de tempos em tempos, embora na maior parte do tempo, eles tenham se concentrado em outras coisas. Como tal, as chances de haver um oitavo álbum de estúdio não parecem particularmente altas. Ainda assim, o Staind conseguiu lançar uma série de sucessos nos Estados Unidos, o que é muito mais longe do que a maioria das bandas já alcançou.
7. Tormented
Tormented foi o álbum de estreia de estúdio do Staind. Para ser exato, eles o lançaram por conta própria, com o resultado de que o venderam por meio de seus shows e também de seu site. Como tal, Tormented nunca obteve muitas vendas, embora tenha sido bem recebido por muitos que o ouviram. Em termos de conteúdo, o lançamento deveria ser um álbum conceitual sobre alguém com um caso muito grave de depressão. Algo que refletisse as próprias experiências do vocalista Aaron Lewis. Graças a isso, Tormented foi um dos lançamentos mais pesados da banda, permitindo que se destacasse muito mais. Ainda assim, embora não tenha sido um lançamento ruim, seu status como primeiro lançamento mostrou.
6. The Illusion of Progress
Nos anos 2000, Staind teve três álbuns de estúdio consecutivos que conseguiram alcançar a posição número um na Billboard 200 dos EUA, o que foi uma espécie de vindicação para a banda. No entanto, essa sequência chegou ao fim com The Illusion of Progress em 2008, como mostrado por como alcançou o número três, mas nunca o número um na mesma parada. Além disso, o lançamento foi notável por suas influências. Ainda era rock pós-grunge, mas era o rock pós-grunge que havia integrado o som do blues. Havia ouvintes que amavam isso, mas também havia ouvintes que detestavam isso.
5. Staind
Staind foi o sétimo álbum de estúdio da banda, o que significa que foi o último lançamento da banda por enquanto também. Em termos musicais, foi um retorno ao som mais pesado da banda em seus lançamentos anteriores. Infelizmente, Staind ficou aquém em muitos aspectos, talvez porque sua produção foi considerada extremamente forçada. Por exemplo, o progresso foi lento, tanto que a banda ainda estava com menos da metade do trabalho concluído quando o prazo se aproximava. Enquanto isso, o vocalista Aaron Lewis ainda estava fazendo apresentações solo com o propósito de promover seu trabalho solo, o que irritou os outros membros da banda. Na verdade, seu relacionamento com o baterista Jon Wysocki sofreu um colapso total, com o resultado de que este último deixou a banda alguns meses antes do álbum de estúdio ser lançado. Graças a esses problemas, Staind não foi tão bom quanto poderia ter sido, o que é uma pena porque seus melhores momentos mostraram vislumbres de uma abordagem mais madura do som clássico da banda.
4. Chapter V
Como mencionado anteriormente, Staind teve três álbuns de estúdio consecutivos que conseguiram alcançar a posição número um na Billboard 200 dos EUA nos anos 2000. O terceiro desses três álbuns de estúdio foi Chapter V, que foi interessante porque tinha um som mais variado do que seus antecessores. Caso contrário, foi agradável, mas não particularmente memorável quando comparado com o melhor do melhor de Staind.
3. Dysfunction
O Staind lançou seu primeiro álbum de estúdio por conta própria. Uma de suas escolhas criativas foi o que se pode chamar de uma capa muito controversa, tanto que quatro gráficas se recusaram a imprimi-la. Além disso, o Staind conseguiu causar uma péssima impressão inicial no vocalista do Limp Bizkit, Fred Durst, que ficou tão horrorizado que tentou removê-los de um show porque achava que eram satanistas teístas. Felizmente, a banda conseguiu reverter essa impressão inicial graças à sua performance, com o resultado de que Durst os contratou antes de ajudá-los a fazer o sucessor Dysfunction. O lançamento ainda tinha um som muito pesado. No entanto, também era muito mais melódico por natureza. No geral, Dysfunction não foi o álbum de estúdio mais variado já lançado, mas forneceu uma base sólida sobre a qual a banda construiria uma carreira de muito sucesso. Como tal, ganhou sua posição nesta lista.
2. 14 Shades of Grey
Este foi o quarto álbum de estúdio do Staind, o que significa que veio depois de Break the Cycle, mas antes de Chapter V. Era como seu antecessor imediato, pois era muito pós-grunge. No entanto, 14 Shades of Grey foi notável por ser uma clara mudança de direção para a banda por ser mais leve por natureza. Algo que continuaria em lançamentos subsequentes. Quanto ao motivo disso ter acontecido, bem, basta dizer que a banda o fez em um ponto muito diferente de suas vidas quando comparado com seus lançamentos anteriores. Para citar um exemplo, a música "Zoe Jane" recebeu o nome da filha do vocalista Aaron Lewis, que nasceu pouco antes da produção do álbum de estúdio. Basta dizer que esse é o tipo de coisa que tende a provocar uma mudança de perspectiva nas pessoas. Além disso, os outros membros da banda também tiveram suas próprias experiências de mudança de vida. Em qualquer caso, embora 14 Shades of Grey fosse mais leve, ele conseguiu ser bastante decente no geral.
1. Break the Cycle
Se as pessoas tivessem que nomear o álbum de estúdio do Staind, as chances são muito boas de que elas nomeariam Break the Cycle. Isso porque foi seu single mais vendido, como mostrado por como vendeu pelo menos 4 milhões de cópias em 2001 antes de se tornar quintuple platina nos Estados Unidos. Além disso, Break the Cycle foi o álbum de estúdio que permitiu à banda entrar no mainstream, permitindo assim que ela causasse uma impressão muito mais forte nos ouvintes de música.
O trabalho que José Mário Branco criou com o GAC mostrou muitas vezes como os discos podiam nascer como a voz que faz a notícia ou por reação ao que acontecia. E em dezembro de 1976, na sequência de um episódio que ficou conhecido como a “Chacina da Lapa” – uma operação do exército brasileiro em São Paulo que culminou com a morte de três dirigentes do PCdoB, José Mário Branco e Luís Pedro Faro criaram Sangue em Flor, canção interpretada por um coro de vozes do coletivo Vozes na Luta que imediatamente surgiu na forma de um single. No lado B ouvimos a declamação de Brasil 77 de Sophia de Mello Breyner (é assim mesmo que surge a assinatura no disco).
O single, com o título “Contra a Repressão no Brasil” não é assinado por nenhum intérprete. Pelo que os únicos nomes referidos são os dos autores. A capa segue formalmente o modelo das edições em sete polegadas do GAC. E junta ainda aos poemas um texto do “comité de apoio às lutas dos povos da América Latina” que explica o contexto destas gravações e o seu significado. A capa é de João Abel Manta (existe também um cartaz e uma publicação com testemunhos desta campanha).
Sangue Em Flor surgiria, depois, no álbum …E Vira Bom, que o GAC editou também em 1977.