quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

10 discos essenciais: New Wave


Austr


Por volta de 1978, a fúria punk que havia estourado em 1976 sob a liderança dos Sex Pistols e que havia sacodido a cena musical britânica, começa a entrar em declínio. Mesmo assim, o movimento deixou um legado que marcaria tudo o que seria feito no rock nos anos seguintes. Enquanto isso, uma nova geração de bandas começava a despontar, trazendo consigo alguns ensinamentos do punk como a simplicidade e economia dos três acordes, e o lema “faça você mesmo”, em que qualquer um poderia montar a sua banda de rock, numa clara oposição ao virtuosismo e excessos de perfeccionismo das grandes estrelas do rock progressivo. 

Contudo, essas novas bandas rejeitavam a postura sisuda, agressiva e pessimista do punk. Preferiam uma conduta mais divertida, alegre e colorida. Logo, essa nova geração de bandas foi rotulada pela imprensa musical britânica de “new wave” (“nova onda”). Já era usada em 1976 pelo fanzine punk Sniffin' Glue e pelo semanário inglês Melody Maker. O emprego do termo buscava designar aquelas bandas que, embora tenham se originado na explosão punk em 1976, procuravam ampliar o seu arco de referências musicais dentro de uma conotação pop. 

Na Inglaterra, artistas como Ian Dury, Nick Lowe, Elvis Costello, Joe Jackson, XTC e The Police foram os primeiros tachados de “new wave”. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, os primeiros artistas considerados new waves foram Talking Heads e Blondie, duas bandas que faziam parte da efervescente cena roqueira independente nova-iorquina de meados dos anos 1970, que tinha como ponto irradiador a casa noturna CBGB, onde tocaram também bandas punks como Ramones e The Mistifs. 

Assim como a imprensa, algumas gravadoras também fizeram uso do termo “new wave” pelas mesmas razões. Em 1976, a gravadora Sire Records começou a contratar bandas que tocavam na CBGB, e para melhor comercializá-las, a companhia as divulgava usando o termo “new wave” porque a imprensa musical americana afirmava que o punk era uma “moda passageira”. A Phonogram lançou em 1977 a compilação New Wave reunindo várias bandas que, na prática, eram em sua maioria punks, como Ramones, The Dead Boys, Richard Hell & The Voidoids e The Damned, mas que incluía também Talking Heads, talvez a única banda new wave presente nessa compilação. O termo “punk” parecia ter virado uma palavra de baixo calão no meio fonográfico americano. “New wave”, por sua vez, soava comercialmente mais “agradável”, “inofensivo” ao consumidor na visão das companhias. 

Musicalmente, a new wave era mais diversificada do que o punk rock. O estilo possibilitava experimentar outras referências musicais como reggae, funk, soul, ska, música eletrônica e até disco music. Ao mesmo tempo, a new wave também tinha uma inclinação ao passado, ao flertar com o rockabilly dos anos 1950 e o pop adolescente dos anos 1960 como as girl groups e o bubblegum. Contudo, ao resgatar alguns elementos do passado da música pop, não significava que a new wave fosse ingênua. Haviam bandas que faziam uso do humor e do deboche (B-52’s, Devo e Nina Hagen) e outras guardavam algum discurso um pouco mais politizado (The Police e Elvis Costello). 

Com o declínio da disco music na virada dos anos 1970 para os anos 1980, a new wave alcançou grande popularidade, avançando à nova década que se iniciava. A sua vocação pop e comercial só facilitou as coisas, atraindo a atenção das grandes gravadoras ávidas em faturar naquele novo estilo musical. 

À medida que a new wave crescia e ampliava a sua popularidade, ela acabou dando origem a novos subgêneros como new romantic e o synthpop na primeira metade dos anos 1980. Enquanto o new romantic se caracterizava pelo visual andrógino, multiétnico ou histórico, o synthpop foi marcado pela música essencialmente eletrônica com o emprego de sintetizadores, instrumentos que também foram bastante utilizados por alguns artistas da new wave e do próprio new romantic. Tanto o new romantic como o synthpop herdaram da new wave a vocação para uma musicalidade essencialmente pop, acessível e radiofônica. 

O surgimento da MTV nos Estados Unidos, em 1981, foi responsável pela popularização da new wave naquele país e, consequentemente, no resto do planeta. A propagação da new wave em escala global influenciou a cena roqueira dos mais diversos países como França, Alemanha, Itália, Portugal, Japão, Argentina e Brasil no começo dos anos 1980. 

No Brasil, a new wave foi de uma importância gigantesca ao revitalizar o rock brasileiro, que até àquele momento, andava combalido. A chegada da new wave ao Brasil abriu espaço no mercado musical para uma nova geração de bandas e cantores do rock brasileiro como Gang 90 & Absurdettes, Blitz, Lulu Santos, Ritchie, Rádio Táxi, Magazine, Lobão & Os Ronaldos, Metrô entre outros. 

Além da música, a new wave ficou marcada também pelo visual: figurino colorido (que poderia ter um aspecto retrô ou futurista), cabelos com cortes e colorações extravagantes, batons com cores vivas assim como a maquiagem bem acentuada. 

Como todo modismo, a new wave entrou em declínio na segunda metade dos anos 1980, diante da ascensão do glam metal, do rap, da house music e do grunge. No Reino Unido, durante os anos 1990, houve uma tentativa de “ressurreição” da new wave através de bandas como Elastica, These Animal Men e Done Lying Down, mas a ideia fracassou ante a força do britpop que estava em voga na época. No começo dos anos 2000, ocorreu um “revival” da new wave e do pós-punk por meio de bandas como The Strokes, Interpol, Franz Ferdinand, Bloc Party entre outras. Durante os anos 2000, tendências da música eletrônica contemporânea como a new rave, somaram elementos da new wave à sonoridade eletrônica. Isso revela que a new wave, de alguma forma, ainda sobrevive e exerce alguma influência na música pop. 

Abaixo, confira dez discos essenciais para conhecer melhor a new wave. 

Talking Heads: 77 (Sire Records, 1977), Talking Heads. Os Talking Heads foram uma das bandas mais importantes da cena alternativa de rock na Nova York de meados dos anos 1970, ao lado de Patti Smith, Ramones, Blondie, Television entre outros. Embora apresente uma sonoridade minimalista, simples, enxuta, Talking Heads: 77, álbum de estreia do quarteto nova-iorquino, já dava indícios do experimentalismo rítmico que a banda iria adotar nos álbuns seguintes, como nas faixas “Tentative Decisions”, “Who Is It?” e “First Week/Last Week ... Carefree”. No entanto, evidentemente que a faixa mais popular é de longe “Psycho Killer”.


 

My Aim Is True (Stiff  Records, 1977), Elvis Costello. Seu nome de batismo é Declan Patrick Macmanus, porém ganhou fama como Elvis Costello. Foi uma das figuras mais representativas da new wave britânica, tanto pelo seu talento como pelo seu visual nerd que faz lembrar o de Buddy Holly (1936-1959). O resgate dos primórdios do rock’n’roll se refletiu também no trabalho de Costello, como neste seu primeiro álbum, My Aim Is True. É possível encontrar traços de estilos musicais populares das décadas de 1950 e 1960 como doo-wop (“Alison”, “Miracle Man” e “No Dancing) e rockabilly (“Less Than Zero”, “Mystery Dance” e “Sneaky Feelings”), porém tudo turbinado referências de new wave, punk e power pop.

 

Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! (Warner, 1978), Devo. Formada em 1973 na cidade de Akron, no estado de Ohio, nos Estados Unidos, a banda Devo se notabilizou pelas esquisitices de seus integrantes. A começar pelo figurino: os integrantes costumavam se apresentar vestindo macacões idênticos. Mas o que marcou a carreira da banda mesmo foi a teoria da “de-evolução”, segundo a qual, a raça humana estaria regredindo, voltando ao ser humano pré-histórico. Isso explica o porquê da banda se chamar Devo. O que parece ser uma teoria maluca, no fundo é uma crítica bem debochada da banda ao consumismo e ao individualismo da sociedade contemporânea. Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, álbum de estreia do Devo,  reflete o humor inteligente da banda. Além dos hits “Jocko Homo”, “Mongoloid” e “Space Junk”, o álbum contém uma versão bem amalucada do Devo para “(I Can't Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones.

 

The Cars (Elektra, 1978), The Cars. Este é sem sombra de um dos mais bem sucedidos álbuns da new wave, comercialmente falando. O álbum mais parece uma coletânea de grane sucessos: “My Best Friend’s Girls”, “Just What I Needed”, “Bye Bye Love” e “All Mixed Up”. A receita do sucesso de The Cars, o álbum, resida na receita bem elaborada ao combinar new wave e power pop com apelo radiofônico, e letras recheadas de ironia e sarcasmo. E o resultado não poderia ser outro: mais de 6 milhões de cópias vendidas.



Look Sharp! (A&M, 1979), Joe Jackson. Diferente de boa parte dos seus contemporâneos da new wave britânica, Joe Jackson teve uma formação musical desde a infância até a juventude, chegando até a estudar composição musical na Royal Academy of Music, em Londres, Inglaterra. Essa boa formação musical de Jackson se refletiu na qualidade dos arranjos e na produção dos seus discos. Look Sharp!, primeiro álbum da carreira de Joe Jackson, apresenta todo esse cuidado e bom gosto do artista. É um trabalho pop por excelência, onde é possível perceber referências de reggae, jazz e até rockabilly. Por causa do seu cuidado e refinamento, alguns críticos musicais da Grã-Bretanha costumavam dizer que Joe Jackson era uma das figuras mais inteligentes na new wave britânica, ao lado de Elvis Costello e Graham Parker Jr. Faixas como “Is She Really Going Out With Him?”, “One More Time”, “Fools In Love” e a faixa-título são uma prova de que quando se quer, é possível empregar requinte a canções com apelo pop.

 

Parallel Lines (Chrysalis, 1978), Blondie. Terceiro álbum de estúdio do Blondie, Parallel Lines tinha tudo para dar errado e ser um fracasso comercial. Foi o primeiro álbum do Blondie produzido por Mike Chapman, e a relação inicial do produtor com a banda, a princípio, não foi das mais amigáveis, especialmente por parte da vocalista Debbie Harry. No entanto, no decorrer das gravações, as coisas se acertaram. O saldo positivo foi que Chapman, um especialista na produção de discos com apelo radiofônico, soube extrair do Blondie todo o potencial para uma sonoridade pop que a banda poderia oferecer. Ao longo das doze faixas, o Blondie passeia pelo power pop, surf music, baladas, reggae, pop “chiclete” dos anos 1960 e até disco music. Graças a Parallel Lines, o Blondie foi catapultado para o estrelato do rock internacional graças a um coleção de hits contidos no álbum como “Sunday Girl”, “Picture This”, “Hanging On The Telephone”, “One Way Or Another” e, claro, “Heart Of Glass”, o maior sucesso da carreira do sexteto nova-iorquino.  

 

Regatta de Blanc (A&M Records, 1979), The Police. O Police surgiu como uma grata e surpreendente surpresa no final dos anos 1970, como uma banda formada por três rapazes louros misturando reggae, punk e música pop, cujo resultado é uma fusão musical irresistível, radiofônica e inteligente. Regatta de Blanc (título esquisito que significa “reggae de branco”) é o segundo álbum de estúdio do Police, e dá continuidade a essa bem sucedida fusão iniciada no primeiro e homônimo álbum do trio britânico, lançado em 1977. Dois dos maiores sucessos da carreira do Police estão em Regatta de Blanc, “Message In The Bottle” e “Walking On The Moon”.

 

The Pretenders (Sire Records, 1979), The Pretenders. Embora nascida em Akron, nos Estados Unidos, Chrissie Hynde começou a sua carreira no mundo da música quando mudou-se para Londres, Inglaterra, em 1973, aos 22 anos, trabalhando como repórter da revista de música NME (Ne Music Expresse). Durante cinco anos na NME, escreveu resenhas de discos e entrevistou astros de rock, até que em 1978, ela Hynde decidiu montar a sua própria banda, The Pretenders. Em seu primeiro e homônimo álbum, os Pretenders promovem uma bem dosada mescla de punk, pop e new wave. O álbum estreou em 1° lugar na parada britânica de álbuns, puxado pelo hit “Brass In Pocket”.

 

The B-52’s (Warner, 1979), The B-52’s. Fundada em 1976 na cidade Athens, no estado da Georgia, Estados Unidos, os B-52’s é uma das mais populares bandas da história da new wave. A banda é a própria personificação do estilo. O B-52’s resgatou a estética da cultura pop da primeira metade dos anos 1960 ao trazer de volta o penteado “bolo de noiva” (beehive hairstyle, nos Estados Unidos), os figurinos de filmes B de ficção-científica, histórias-em-quadrinhos entre outras referências. Tais referências embrulhadas numa embalagem new wave estão presentes no ótimo e autointitulado álbum de estreia da banda, que contém dos maiores sucessos do B-52’s, “Rock Lobster” e “Planet Claire”. É diversão garantida.

 

Beauty And the Beat (IRS Records, 1981), The Go-Go’s. Pode nem parecer, mas as Go-Go’s, quando surgiram em Los Angeles, em 1978, era uma banda de punk rock. Após algumas trocas de integrantes, as Go-Go’s viraram uma banda alegre e solar banda new wave. Beauty And the Beat é o primeiro álbum de estúdio das meninas, que logo de saída, foi um grande sucesso comercial, chegando a alcançar mais de 2 milhões de cópias vendidas. As duas faixas mais conhecidas do álbum, “We Got The Beat” e “Our Lips Are Sealed”, foram responsáveis por alavancar o álbum. No Brasil, , “We Got The Beat” e “Our Lips Are Sealed” foram incluídas na trilha sonora do filme Menino do Rio, de Antônio Calmon.

 



“Psycho Killer” - Talking Heads
(apresentação ao vivo no Old Grey Whistle Test Show
no canal BBC2, em Londres, Inglaterra, 1978)


“Hanging On The Telephone” - Blondie
(videoclipe original - 1978)


“Just What I Needed” - The Cars
(videoclipe original - 1978)


 “Message In The Bottle”  - The Police
(videoclipe - 1979)


“Brass In Pocket” - The Pretenders
(videoclipe original 1979)


“Rock Lobster” - The B-52's
(apresentação no programa Countdown na  rede de 
TV Australian Broadcasting Corporation (ABC)
Austrália, 1980)


“Our Lips Are Sealed” - The Go-Go's
(videoclipe original -1981)


Rui Reininho – 20.000 Éguas Submarinas (2021)

 

Regressa ao fim de vários anos de silêncio. Há muito que não o ouvíamos assim, em nome próprio, e dificilmente o reconhecemos agora, exposto desta forma tão aberta, tão pura, sobretudo se continuarmos a pensar nele como figura ímpar da história do nosso pop-rock. Seja bem-vindo, Rui Reininho, e bem-vindas sejam as suas novas avarias!

Basta que nos lembremos da faixa “Avarias”, tema que ocupava integralmente o lado B do primeiro longa duração dos imortais GNR. Quem a tiver presente saberá, e já lá vão muitas décadas, que a cabeça de Rui Reininho sempre foi dada a experimentalismos vários e a formulações inusitadas. No entanto, as obrigações da pop-rock orelhuda (e mais ou menos bem comportada) levaram-no a render-se a um formato que sempre dominou com enorme à vontade e com reconhecida mestria. Mas algum dia haveria de chegar a necessidade de romper (como já o fizera antes, embora poucos tivessem reparado), de dar um murro na mesa sempre tão bem posta, puxando o tapete por debaixo dos pés dos menos atentos. Algum dia teria de ser, mas de ser à séria! Aconteceu agora, por isso é bom perceber que aquilo que se ouve em 20.000 Éguas Submarinas talvez não seja coisa para se cantarolar como antes se fez sobre “pássaros estúpidos a esvoaçar”. Efectivamente, o que neste álbum se encontra é outra coisa: é a cabeça de um conhecido génio que arrisca construir (quiçá?) o que sempre terá desejado fazer.

20.000 Éguas Submarinas está destinado a ser um disco de culto. É o que nos parece. Nessa categoria, como bem sabemos, estão sempre discos que se amam ou se detestam. Nestas coisas, como em tantas outras, é melhor que não nos precipitemos, pelo que audições repetidas são aconselháveis, não vá corrermos o risco de juízos pouco ponderados. Este (quase) irreconhecível Rui Reininho trouxe consigo tropa pesada, desde logo Paulo Borges e Alexandre Soares (sim, esse mesmo, um dos fundadores dos GNR). Reininho, como já afirmou, está “em idade de experimentar”, pelo que o primeiro travo do disco alinha-nos com essa ideia de exercício como forma de se por à prova. Nisso, o líder do Grupo Novo Rock passa claramente no exame. Mais ainda, para que o sentido ensaístico não seja totalmente desgarrado do conhecimento que o público tem do artista em questão, há elementos facilmente identificadores, como alguns dos títulos escolhidos, assim como certos versos cantados. Nada poderia ser mais Rui Reininho do que os malabarismos lexicais e fonéticos a que nos foi sempre habituando. Ora repare-se, desde logo, no título do álbum, que brinca descaradamente com a famosa obra de Verne, mas também com a designação de temas como “Ressonância Magnífica”, “Namastea” ou “Tan Tan no Tibete”, por exemplo. Não são necessárias quaisquer explicações, pois não?

Afora tudo isto, o que verdadeiramente se ouve nas doze faixas do álbum é um misto de música experimental, de paisagens sonoras que poderiam pertencer a um filme apenas passado na cabeça de quem o criou, de vanguardismo (“Hidrofone” é um bom exemplo disso), mas também de temas mais melodiosos como “Palmas”, e de outros com algum cheirinho a kraut (a parte instrumental de “Namastea” lembra Harmonia, por exemplo, assim como algumas criações ambientais fazem pensar no álbum homónimo dos Cluster (1971). Todos os ruídos que aqui ouvimos fazem parte da cabeça (des)organizada de Reininho, e já era tempo de os libertar. E, a par das influências referidas que vamos descobrindo a cada audição, uma haverá maior do que todas as outras, a de Scott Walker de The Drift (2006) e de Bish Bosch (2012). 20.000 Éguas Submarinas é um disco que aponta para a frente, mas que não deixa de olhar, simultaneamente, para o retrovisor, para o tempo dos Anar Band, embora seja provável que poucos se lembrem da existência dessa dupla composta por Jorge Lima Barreto e Rui Reininho. Agora como antes, inclassificáveis.

Rui Reininho é um dos nossos grandes heróis. E, ao contrário do célebre verso de Reinaldo Ferreira, este herói serve-se vivo! Bem vivo, felizmente. Abrir-lhe as portas para uma saborosa percepção é um dever nosso. Não se esquive a isso. Não tenha medo. Dê um passo em frente e vá até ao fim. Será um excelente mergulho no aparente vazio repleto de múltiplas e profundas riquezas.



Rush – Moving Pictures (1981)



O oitavo álbum dos Rush, Moving Pictures, é a sua indiscutível obra-prima. Engenhosa a sua conciliação entre o complicado prog e a depurada new wave.

Reza a historiografia oficial que a simplicidade selvagem do punk salvou o rock do pomposo e balofo prog. Consolidado o dogma, o rock progressivo passou a ser proscrito do cânone do bom gosto, deixando de ser socialmente frequentável (só se pode ouvir Emerson, Lake & Palmer às escondidas, com os estores devidamente corridos). Acontece que a realidade – a ingrata! – insiste em se esquivar da justeza destas doutas teorias: na verdade, o prog setenteiro foi inovador e imaginativo, oferecendo-nos belíssimos discos (que a alma penada de Lester Bangs nos perdoe mas não ter In the Court of King Crimson na nossa colecção é tão grave como nos faltar o primeiro dos Ramones).

E não falamos apenas dessa riquíssima primeira vaga inglesa (Genesis, Jethro Tull, Pink Floyd…). A réplica do outro lado do oceano chamada Rush é igualmente incontornável. Os canadianos começam por ser um sucedâneo dos Led Zeppelin (RushFly By Night) mas a partir de ’76 evoluem para um prog rijo e roqueiro, cheio de personalidade, muitíssimo influente (2112, A Farewell to Kings, Hemispheres).

O auge criativo do power trio acontece, porém, no início dos anos 80, com uma síntese que se julgava impossível: aliar a complexidade e virtuosismo do prog com o sentido pop da new wave. Primeiro com Permanent Waves (1980) e depois com Moving Pictures (1981), a nova sensibilidade foi-se aprimorando. O casamento, contra-natura em teoria, resulta na perfeição: a precisão intrincada que vem do prog ao serviço da melodia que fica no ouvido.

O lado A é mais imediato e memorável, para gáudio das rádios americanas de classic rock.

Os Rush não perdem tempo, abrem logo com a emblemática “Tom Sawyer”. Os sintetizadores futuristas são bem reveladores das influências new wave. O facto de um tema tão exótico e sombrio ser o predilecto dos fãs diz tudo sobre a singularidade dos Rush.

“Red Barchetta” tem uma melodia doce e suave como um piquenique no campo. Como tantas vezes acontece nos Rush, o baterista-escriba Neil Peart revela a sua agenda libertária, pincelando uma distopia colectivista. No futuro totalitário de “Red Barchetta”, os carros foram banidos pelo governo mas o protagonista desafia a interdição (a viagem frenética pela estrada fora como metáfora de rebeldia e liberdade). Muita tinta se escreveu sobre o suposto liberalismo selvagem de Neil Peart, mas nós, menos versados nos meandros complexos da filosofia política, confessamos só encontrar uma saudável desconfiança da autoridade e da tradição.

“YYZ” é um divertido instrumental muito acarinhado pelos fãs. A cumplicidade e humor entre os três amigos é não só notória como contagiante. O solo arabesco de Alex Lifeson é encantador.

“Limelight” é outro clássico instantâneo, uma reflexão do reservado Neil Peart sobre os malefícios da fama. O curioso é que só depois de Moving Pictures é que os Rush se tornaram realmente conhecidos. O solo de guitarra de Lifeson é mais uma vez superlativo, todo ele dor e solidão.

Já com tremores pela privação de prog no sangue, os Rush começam o lado B com a epopeia de 10 minutos “The Camera Eye”. Preferimos contudo, a atmosférica “Witch Hunt”, um retrato vívido de uma turba toldada pelo ódio, com música sinistra a condizer. O reggae à Police de “Vital Signs” é o tema que leva mais longe o namoro com as novas tendências.

É prog? É pop? Não, são os Rush. Nunca foram outra coisa que não eles próprios e Moving Pictures não é excepção. Dada a sua total ausência de sentido de coolness, sempre foram maltratados pela fútil imprensa musical (mas acarinhadíssimos pela sua indefectível legião de fãs). Aos poucos, até os media se foram rendendo à personalidade despretensiosa de Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart. Pode demorar muito, pode demorar pouco, mas a verdade na arte vem sempre ao de cima.



Dinosaur Jr. – You’re living all over me (1987)

 


O segundo álbum dos Dinosaur Jr., You’re All Living Over Me, é o mais pujante e influente do power trio. Reconciliar o alternativo com o classic rock é o seu grande legado.

O punk foi uma declaração de guerra ao classic rock: morte aos solos e dedilhados, à técnica e às nuances, ao próprio ideal de beleza. O hardcore americano foi ainda mais longe na terraplanagem da história, não deixando pedra sobre pedra. O projecto parecia promissor – bandas como os Black Flag, os Bad Brains e os Minor Threat foram elegantes no seu extremismo tábua rasa – mas a partir de um certo patamar de rapidez, concisão e brutalidade tornou-se enfadonho procurar novos recordes.

A válvula de escape era blasfema mas inevitável: regressar ao classic rock como inspiração, enxertando o velho no novo. Os punks mais puritanos atirariam algumas pedras mas já ninguém tinha pachorra para os Steve Albinis da vida. Replacements e Husker Du desbravariam o terreno; os Dinosaur Jr. foram, porém, mais longe no necessário renascimento. No fundo, era fácil: todos os punks cresceram a ouvir Zeppelin e Sabbath…

J Mascis e Lou Barlow vinham do hardcore, integrando os Deep Wound (banda tão absurdamente rápida que influenciariam os Napalm Death!). Agora, debaixo do nome Dinosaur, e principalmente a partir do segundo álbum, devolvem o sentido de história às bandas vindas do punk. You’re All Living Over Me traz de volta o solo exuberante ao rock alternativo (J Mascis como o primeiro guitar heroe do indie). Fá-lo, ainda para mais, usando uma panóplia de pedais, prática banida com igual fervor pelo evangelho hardcore. Como se a heresia não fosse suficiente, Mascis usa o próprio wah-wah, o mais proibido dos pedais, pela sua associação aos hippies, os fidagais inimigos dos punks.

J Mascis perpetra outro sacrilégio: não grita, tenta cantar. Pode fazê-lo com desmazelo mas não está zangado com o mundo, está apenas entorpecido, tudo o que quer é voltar para o sofá. Com a agravante de Mascis cantarolar melodias bonitas e trauteáveis (a tragédia! o horror!). Em sua defesa, diga-se que faz tudo para soterrar esse melodismo pop num paredão de ruído à Sonic Youth (os gritos emo de Barlow e o seu baixo distorcido dão uma ajuda). Noise pop, portanto, essa nobre linhagem fundada pelos Velvet, consolidada pelos Jesus & Mary Chain e desenvolvida pelos Pixies e os Dinosaur. A influência desta rapaziada sobre o shoegazing inglês e o grunge americano é incalculável.

Os Dinosaur infringem outro mandamento do punk: não escreverás sobre a patetice pequeno-burguesa do amor. Ora You’re All Living All Over Me não fala de outra coisa que não sobre corações amarrotados. A sua voz arrastada e chorosa tem, aliás, uma inclinação natural para o queixume (ao seu lado, Morrissey parece um tipo descomplicado, quase optimista).

Não deixa de ser irónico que o mais letárgico dos frontmen – é mítica a sua total inaptidão para as entrevistas, sempre num torpor quase comatoso – tenha deixado um legado tão vasto. A começar pela sua própria atitude slacker, tão definidora da geração X (Pavement e Silver Jews seriam alguns dos seus herdeiros). Os Dinosaur vão buscar muita coisa coisa ao classic rock mas renegam, em absoluto, a sua bazófia de macho alfa. Por mais vivaz que seja um solo de Mascis, nunca transmite poder e dominação mas sim desligamento e indolência: a TV sempre ligada, um vinil dos Toy Dolls a fazer de tabuleiro, uma lata de atum vazia no chão. Quando o reaganismo promovia o sucesso a todo o custo – esmagando os adversários, se preciso for -, a modorra olímpica de J Mascis era um acto de resistência.



Slint – Spiderland (1991)


 

Disco menosprezado em 1991, Spiderland tornou-se um clássico de culto para quem aprecia pós-rock (e diria rock em geral). Ouvindo-o, percebe-se facilmente as razões para tal.

Estivémos há umas semanas reunidos para analisar e debater o ano de 1991, e como o mesmo serviu de transformação ao panorama musical vigente, com os inolvidáveis NevermindOut of TimeTenBadmotorfingerBlood Sugar Sex MagikScreamadelicaBlue LinesMetallica (entre uns quantos outros) a serem lançados e, com isso, começarem um novo capítulo na História da Música. Mas 1991 deu-nos também outros discos que passaram despercebidos na altura e que com o tempo se tornaram de culto, um deles sendo Spiderland. Quiçá alguns que estarão a ler nunca ouviram falar de Slint. Eu próprio, que tenho a mania que conheço bastante coisa no universo da música (quanto mais descubro mais percebo o quanto ainda há por descobrir) não os conhecia até há bem pouco tempo e perdi com isso a oportunidade de os ver ao vivo, no Primavera Sound no Porto em 2014. Mas nunca é tarde para se conhecer bandas novas, sejam elas recentes ou antigas, e este processo de descoberta constante é mesmo um dos maiores prazeres de andar nestas andanças (passe o pleonasmo). Passemos portanto à história.

Formados em 1986 por garotos de 16 anos de Louisville, Kentucky (cidade da qual ninguém poderia prever que sairia alguma coisa minimamente inovadora) os membros dos Slint gravaram o seu primeiro disco (Tweez, 1987) com um produtor que hoje é reconhecido por todos como um dos grandes magos do rock alternativo – Steve Albini. Tudo seguindo o método do it yourself, regra numero um do punk, gravado grande parte na cave de um dos membros, tendo de recorrer a uma amiga para que o mesmo fosse editado. O disco seguinte não foi muito diferente, esboçado nas férias da universidade, mas desta vez já havia editora (ainda que pequena – Touch and Go) e estúdio de gravação (em Chicago, a cinco horas de carro de distância, e apenas dispondo de um fim de semana). Ainda assim o resultado foi este abismal Spiderland e portanto tudo terá valido a pena. Para nós, ouvintes, certamente. Já para Brian McMahan, guitarrista e vocalista, nem por isso – logo após o fim das sessões de gravação de Spiderland comunicou aos restantes membros a sua saída da banda. As razões para tal ainda são um pouco obscuras, há quem diga que Brian se sentia ser o único a puxar pelo barco, há quem diga que terá sido uma depressão, consequência de um acidente de carro que quase lhe levou a vida, o que é certo é que os Slint acabaram aí, sem mostrar o seu trabalho ao vivo a ninguém. A mística à volta da banda cresceu ainda mais com estes revezes.

Toda esta história de nada valeria não fosse o som da banda ser o que é – irrepreensível. Uma intensidade incrível a cada riff, a cada grito ou sussuro, a cada paragem que se prolonga, a cada explosão. Tudo parece fora de sítio e ainda assim tudo parece fazer sentido no caos, não há estrutura de canção, não há verso e refrão. São apenas seis músicas que se interligam de tal forma que uma audição desatenta não apanha onde acaba uma e começa a música seguinte. “Nosferatu Man” é voraz, “Don, Aman” são seis minutos e meio de tensão constante, no limiar da explosão que nunca chega.

Terminados como conjunto, os membros dos Slint continuaram carreira em música, uns com Will Oldham no seu projecto Palace Brothers, envolvendo-se com bandas como Interpol e Yeah Yeah Yeahs, voltando a reavivar os Slint para concertos em 2005, 2013 e 2014. O legado da banda é inegável. Bandas como Explosions in the Sky, Godspeed You! Black Emperor, os mais recentes Black Country, New Road não seriam o que são sem esse caminho aberto, há 30 anos atrás, por uns miúdos de um pardieiro perdido no interior dos Estados Unidos.



O Melhor do Rock em 1984 - playlist

 

Continuando aqui a série de posts com playlists abordando as músicas de rock que foram destaque em um ano específico. E desta vez chegamos ao ano de 1984. Alguns álbuns clássicos foram lançados nesse período como o "1984" do Van Halen que contém alguns de seus maiores sucessos,  o "Ride The Lightning", segundo álbum do Metallica que contém também alguns de seus clássicos, o "Powerslave" do Iron Maiden, entre outros. Veja abaixo a playlist e mais embaixo alguns álbuns de destaque na época.





Músicas contidas na playlist:

Deep Purple - Perfect Strangers
Deep Purple - Knocking At Your Back Door
Queen - Radio Gaga
Queen - Hammer To Fall
Scorpions - Rock You Like A Hurricane
Scorpions - Big City Nights
Iron Maiden - 2 Minutes To Midnight
Iron Maiden - Powerslave
Van Halen - Jump
Van Halen - Panama
Metallica - For Whom The Bells Tolls
Metallica - Fade The Black
Whitesnake - Love Ain't No Stranger
Whitesnake - Guilty of Love
Twisted Sister - We're Not Gonna Take It
Twisted Sister - I Wanna Rock
Bryan Adams - Heaven
Bryan Adams - Summer of 69
U2 - Pride (In The Name of Love)
U2 - Bad
Bruce Springsteen - Born In The USA
Bruce Springsteen - Dance In The Dark
Tina Turner - What's Love Got To Do It
Tina Turner - I Can't Stand The Rain
Prince - Purple Rain
Prince - When Doves Cry
Dio - The Last In The Line
Dio - We Rock
KISS - Heaven's on Fire
Bon Jovi - Runaway
Stevie Perry - Oh Cherrie
Ratt - Round and Round
Judas Priest - Jawbreaker
Judas Priest - Love Bites
Rush - Distant Early Warning
Rush - Red Sector A
Hanoi Rocks - Up Around the Bend (Creence Clearwater Revival Cover)
Sammy Hagar - I Can't Drive '55
Meat Puppets - Oh Me
Meat Puppets - Lake of Fire
The Smiths - What Difference Does It Make
The Smiths - This Charming Man
Ultravox - Dancing With Tears In My Eyes
John Lennon - I'm Stepping Out
Kenny Loggins - Footloose
Don Henley - The Boys of Summer
Echo & The Bunnymen - The Killing Moon
The Pretenders - Back On the Chain Gang
The Cars - Drive
Roger Waters - 5:06 AM (Every Strangers Eyes)
Stevie Ray Vaughan And Double Trouble - Voodoo Chile (Slight Return) - Jimi Hendrix Cover
Yngwie Malmsteen - Far Beyond The Sun
Yngwie Malmsteen - Evil Eye
Ramones - Too Tough To Die
David Gilmour - Murder
The Honeydrippers - Sea of Love
Red Hot Chili Peppers - True Man Don't Kill Coyotes
Deep Purple - Under The Gun
Metallica - Creeping Death
Iron Maiden - Aces High
Iron Maiden - Rime of the Ancient Mariner
Van Halen - I'll Wait
Whitesnake - Slide It In
Queen - I Want To Break Free
Scorpions - Still Loving You
Twisted Sister - Stay Hungry
Bryan Adams - Run To You
Tina Turner - Private Dancer
Meat Puppets - Plateau
Dio - Egypt (The Chains Are On)
Yngwie Malmsteen - Black Star



Álbuns de destaque:

Van Halen - 1984
Deep Purple - Perfect Strangers
Metallica - Ride The Lightning
Iron Maiden - Powerslave
Scorpions - Love At First Sting
U2 - The Unforgettable Fire
Bruce Springsteen - Born In The USA
Prince - Purple Rain
Ratt - Out of the Cellar
Queensrÿche - The Warning
Whitesnake - Slide It In
The Smiths - The Smiths
Meat Puppets - Meat Puppets II
Echo & The Bunnyman - Ocean Rain
The Replacements - Let It Be
Talking Heads - Stop Making Sense
R.E.M - Reckoning
Dire Straits - Alchemy: Dire Straits Live
Bryan Adams - Reckless
Black Flag - My War
Stevie Ray Vaughan And Double Trouble - Couldn't Stand The Weather
Queen - The Works
Rush - Grace Under Pressure
Dio - The Last In The Line
Twisted Sister - Stay Hungry
Yngwie Malmsteen - Rising Force
The Cars - Heartbeat City
Tina Turner - Private Dancer
Judas Priest - Defenders of Faith
Roger Waters - The Pros and Cons of Hitch Hiking
The Pretenders - Learning To Crawl
Simple Minds - Sparkle In the Rain
Mercyful Fate - Don't Break the Oath
The Cure - The Top
Midnight Oil - Red Sails In the Sunset
Ramones - Too Tough To Die
KISS - Animalize
Minor Threat - Minor Threat
Bon Jovi - Bon Jovi
Hanoi Rocks - Two Steps From The Move
David Gilmour - About A Face
Red Hot Chili Peppers - Red Hot Chili Peppers
Ultravox - Lament
John Lennon & Yoko Ono - Milk And Honey
The Honeydrippers: Volume One

“TRINTAS” É O NOVO SINGLE DE LUTO

 trintas” é o novo single de luto, uma canção sobre a passagem do tempo e os tempos que passam. 3 minutos de nostalgia moderna, pela normalidade da solidão, das cinturas a alargar, do viver sem pensar no fim. O teledisco foi realizado pelo próprio, uma viagem pela rotoscopia e psicadelismo minimal.

trintas” antecipa o lançamento do primeiro EP de luto, “pés”, a sair no dia 28 de fevereiro em todas as plataformas.

JASON MRAZ ESTÁ DE REGRESSO COM “I FEEL LIKE DANCING”… SINGLE DE ANTECIPAÇÃO DO NOVO ÁLBUM

 

UNSAFE SPACE GARDEN ABREM AS PORTAS DE “WHERE’S THE GROUND?”

 

Destaque

Bad Company – Bad Co (1974)

Em seu primeiro álbum, o Bad Company — liderado pelo ex-vocalista do Free, Paul Rodgers, e pelo guitarrista original do Mott, Mick Ralphs — ...